Introdução
A construção do espaço 1
Alberto Tassinari
I -
As chapas de metal, suaves e regulares, são na maioria das vezes réplicas umas das
outras. Réplicas que muito pouco teriam a comunicar não fossem as operações que as
reúnem, que revelam uma rigorosa e algo matemática intuição do espaço. Apoiadas, em
geral, em três pontos ou em um ponto e uma linha, as esculturas antecipam o plano que as
sustentará. A leveza das obras e a massa do solo reverberam uma na outra. A impressão
que se tem é que algumas esculturas acabam de tocar o chão ou que se preparam para um
ligeiro giro ascensional. Claras e íntegras, as esculturas de Weissmann tornam-se ainda
mais fiéis a si mesmas pelas cores empregadas. A tinta adere às chapas homogeneamente. O
tom e o reflexo são neutros. A cor não brilha, nem é opaca. O tom não é pálido, nem
sombrio. Busca-se uma neutralidade da cor para que ela não venha exteriorizar-se ou
penetrar o espaço por sua própria conta, mas apenas deixar-se ver como desdobramento de
uma extensão.
O espaço comanda o colorido da sua aparição pela intensidade
calculada da cor. Assim, até mesmo a cor, em Weissmann, se subordina ao espaço da obra.
E o espaço encontra seu dinamismo no vaivém que a escultura promove entre as balizas do
observador e as da obra. A postura de quem olha encaixada no ângulo reto formado pelo
solo com a vertical gira e acopla sem cessar seu diagrama com os dos ângulos retos das
linhas e planos das chapas e dos recortes. Uma cruz toma o lugar da outra. O virtual e o
atual trocam, permanentemente, de campo. O espaço se torna, como observou Ronaldo Brito,
um "feixe de possibilidades", 2 marcando de instante a instante múltiplas direções e movimentos.
As melhores obras de Weissmann possuem um encanto ao mesmo tempo ágil e sereno, um
ritmado rebatimonto do espaço sobre si mesmo, como se bastassem algumas ponderadas
rotações de planos para configurar uma matriz geradora do espaço inteiro. E que se
instalaria no mundo por meio desse poder de reunir a variação à unidade e que Bachelard
denominou a "maravilhosa pluralidade do simples".3

II - A maioria das esculturas
de Weissmann é composta de módulos. Esses elementos, quase idênticos em tudo, menos
pela posição que ocupam e algumas diferenças de tamanho, são articulados
ortogonalmente. Essa é a regra construtiva mais comum em Weissmann: a jun ção a noventa
graus dos módulos.
Há variações da regra, mas o resultado, em razão do
assentamento inclinado de muitas obras, é quase sempre um contra ponto entre direções
oblíquas e ortogonais. Uma vari ação importante da regra ocorre quando Weissmann retira
o módulo de uma chapa que acabará por configurar a escultura. O módulo aparece, então,
como re sultado, não como ponto de partida da regra construtiva. Mas ainda assim é um
módulo, pois o espaço vazio deixado pela sua exclusão desenha um módulo virtual, o
qual também acaba por participar do jogo entre direções oblíquas e ortogonais. Mesmo
em esculturas mais antigas, nas quais Weissmann cava um círculo numa chapa quadrada, uma
busca do contraponto entre o oblíquo e o ortogonal é importante, pois o círculo
engendra um campo de tangentes continua mente em desvio dos ângulos retos dos quadrados. 4 Já o que faz de um tal contraponto
as grandes linhas de um jogo estético e não o resultado da aplicação de meras regras
técnicas é uma questão só em parte abordável. Nenhuma obra de arte deixa-se abordar
inteiramente.
Como para muitas obras construtivas, entretanto, o papel estético
preponderante parece ser, em Weissmann, desempenhado por uma intuição que promove a
ligação dos elementos discretos com os quais uma determinada regra opera. Uma intuição
que trabalha nos espaços abertos pela distinção entre as partes, criando uma
imantação recíproca dos diversos elementos, e projeta para uma configuração indivisa
o qu e de outro modo permaneceria disperso ou uma simples soma das partes. Para muitas
obras de Weissmann, isto parece ocorrer de uma maneira intensa. O movimento da intuição
surge apreendido nelas. As suas melhores esculturas ainda guardam a situação em que tudo
encontrou um elo aglutinador. Os elementos são idênticos, mas um surge como a rotação
do outro num espelhamento ortogonal que não é apenas o esquema de uma operação
técnica. O rebatimento de planos e linhas é uma ação que não só responde a
determinadas condições já dadas, mas cria, por seus deslocamentos e pelos espaços que
percorre, novas condições e como que suas próprias premissas. A obra surge como uma
antecipação de si mesma. O instante de daqui a pouco já é agora. A linha que estava
ali agora está aqui. O repouso das obras se agita, depois sossega e mais uma vez volta à
carga. Os planos entrecruzam-se sem cessar. Tudo dá a impressão de estar ao mesmo tempo
na posição que já abandonou e na que se prepara para conquis tar, gerando a obra como
uma espécie de circularidade da obra.
III
- Se em Weissmann há certas regras a seguir e uma tipologia de elementos da qual
partir, a obra acaba por ultrapassar as regras construtivistas. A regra é apenas uma
trilha que a intuição segue para encontrar a sua síntese e a captura da situação em
que o resultado não foi previsto, mas como se adivinhado pela obra. Há, nos limites de
uma poética construtivista, outros modos de relação entre a regra e o resultado. Nas
esculturas de Amílcar de Castro, por exemplo. menos do que o movimento da intuição, as
obras captam o movimento de sua geração. A regra permanece continuamente à mostra no
resultado. Cortar e dobrar é uma regra que nada prescreve que não se encontre exposto no
resultado. A dinâmica da criação, em Amílcar, não se expõe por uma espécie de
iluminação ou intuição, mas como uma luta sem fim, um retorno in cessante, da matéria
na forma e da forma na matéria. As formas já esião dadas em Amílcar, ou, antes, não
possuem qualquer mistério até que surjam pelo gesto que parece tê-las engendrado num
embate com a matéria. Já em Sérgio Camaigo, que também parte, como Amílcar, de uma
unidade geométrica (em Amílcar, o plano, em Sérgio Camargo, o volume), a regra se
oculta e deixa de ter importância diante do caráter recluso do resultado.
Daí, talvez, que Sérgio Camargo diga que esculturas são
"entidades estranhas cuja pertinência só a elas pertence". Tudo se passa como
se o artista descobrisse um arranjo volumétrico que sempre estivera ali nas superfícies
entrecruzadas de mármore de suas esculturas. Se as obras de Weissmann captam a intuição
da obra e, as de Amíldar, seu engendramento, as de Sérgio Camargo possuem o aspecto de
uma descoberta. A regra construtiva é apenas um contexto por onde apreender pelas arestas
dos volumes a fisionomia inesperada de um achado. Uma ordem insuspeitada se instala no
meio do que também não deixa de ser familiar, como quando deparamos com uma coisa que
sempre esteve em seu lugar mas cuja revelação para nós acaba de ocorrer. A regra
construtiva quase não deixa rastros. Forma e matéria surgem na obra dificilmente
dissociáveis, requisitando cada uma, de maneira intensa, o aspecto da outra, como se as
esculturas não fossem feitas de mármore, mas o mármore fosse feito delas. A Descoberta
parece ser en tão um acontecimento da própria matéria, dispondo os elementos da obra de
um modo que teria sempre existido. 5
Nos dois casos, em Amílcar e em Sérgio Camargo, o construtivismo está nos seus limites,
por um fio.
A relação entre a regra construtiva e o resultado ou é
transparente ou opaca demais. Nos dois casos, é uma relação menos operante do que no
construtivismo. É a matéria que responde, então, pela inoperância da regra. As obras
de Sérgio Camargo necessitam da impenetrabilidade e da quase eternidade do mármore. As
de Amílcar, da resistência e da maleabilidade do ferro. As esculturas de Weissmann
ocupam uma posição intermediária entre as de Amílcar e Sérgio Camargo no que toca à
relação entre a regra e o resultado. Diante da obra pronta, a regra não é tão
visível quanto em Amílcar, nem velada como em Sérgio Camargo. É, entretanto, mais
operativa do que nas obras dos outros dois. E pode, por isto, elidir sua matéria. Esta
não é, em Weissmann, nem veículo da vontade, como em Amílcar, nem o corpo da
descoberta, como em Sérgio Camargo, mas apenas um preenchimento da forma. Daí que a
matéria apareça modulada por cores homogêneas. A matéria, em Weissmann, é somente
espessura do espaço. E o espaço é desdobramento de uma intuição que opera e cria
além dos módulos e da regra construtiva dos quais parte. Se há também uma vontade nas
esculturas de Weissmann, é por meio de uma vontade controlada, metódica, que suas formas
ganham o mundo. Elas desenham um espaço governado por uma intuição que coordena o atual
e o virtual, a regra e o imprevisto, o presente e o futuro, como na bela escultura preta
do MAM de São Paulo, na qual uma espécie de porta faz o espaço passar sempre um pouco
para além do lugar onde está.
IV - O solo, nas
esculturas de Weissmann, é tanto previsto pela obra quanto pelo lugar que as recebe. O
espaço irradia-se desde as esculturas até o chão e convida o espectador a participar da
vontade construtiva e planejadora da obra, de sua potência ao mesmo tempo criativa e
racional. O racionalismo estético de Weissmann se torna ainda mais intenso quando se
atenta para uma certa indiferença em relação à escala das esculturas. Descontado o
tamanho, as mesmas obras podem se acomodar bem tanto num espaço privado quanto num
espaço público. Há um desejo de contínua gradação do privado para o público em
Weissmann. Esses núcleos de espaço que nunca cessam de trabalhar suas possibilidades
desdobram seu sentido de futuro desde espaços mais íntimos até o espaço social. Buscam
unir o destino de cada um ao destino da cidade. Entre o projeto e o fato, porém, há uma
distância que as esculturas não podem percorrer sozinhas. A escala é algo que um
artista não governa apenas pela ampliação da obra. Ela é resultado de uma mistura do
espaço estético com o social. O que não representa problema para as esculturas pequenas
e médias de Weissmann. Elas sempre serão um momento privilegiado no rompimento do
caráter intimista de boa parte da arte brasileira. As esculturas grandes, algumas
magníficas, necessitam, entretanto, de um contexto social e urbano que não as fira. Num
espaço social em que reina a barbárie, como o brasileiro, o projeto racional,
civilizatório, de Weissmann, encontra seus limites .6
É bem mais a obra que precisa ser protegida do entorno do que ela
é capaz de riscar a face visível da sociedade. Isto não impede, certamente, que diante
de uma escultura de grandes dimensões de Weissmann se possa apreender a idéia de uma
racionalidade da vida social que vibre no registro utópico que a arte pode proporcionar.
Como ainda não temos uma história da arte em sentido forte, nem sabemos que fisionomia
mais definida poderá ter a sociedade brasileira futura, a obra de Weissmann encontra aí
tanto sua força quanto sua fragilidade. Tanto critica a situação em que nos encontramos
quanto é quase imune à situação histórica da qual emerge. Ou, talvez melhor dito, ela
surgiu e manteve firme seu rumo a partir de uma situação histórica, a década de 1950,
em que a vontade de reinaugurar nossa história era algo bastante histórico. Iniciada há
cinqüenta anos, a obra de Weissmann ainda permanece atual. Se seu projeto de futuro
aparece, hoje, contraditoriamente, como passado, trata-se de um passado, porém, que a
arte tem o poder de guardar, e mesmo de, à sua maneira e em seus espaços circunscritos,
reinaugurar a cada vez que olhamos para as obras de arte. Há nisto uma vitória da arte
junto com uma derrota social. A última, sem dúvida, não é da esfera da arte e do
artista. Expressar, pela arte, a tensão entre os dois domínios é algo que a arte pode
realizar. Não foi esta direção, porém, que a trajetória de Weissmann percorreu. É no
sentido de uma vida harmoniosa que suas obras apontam. Que a tal senão contraponha-se o
valor desta obra.
Trata-se de nada menos do que meio século de uma das mais
sólidas trajetórias da arte moderna brasileira. Mesmo seu caráter pouco crítico da
sociedade em que vivemos acaba, pela coerência de cada obra e da trajetória, por se
tornar crítico. Há algo de onírico em Weissmann, de um sonho bom, claro e leve, do qual
não se deseja sair porque a realidade não seria capaz de despertar igualmente o que
sentimos ter de melhor. Ainda que não seja uma obra típica de Weissmann, a escultura
preta do MAM de São Paulo bem poderia ser o emblema dessa geometria sonhadora. Ela
convida, serenamente, para que se adentre um futuro e um espaço desconhecidos. Mas neles
já não haveria mais o que temer. Uma vida mais plena tomaria o bom passo de
continuamente inventar-se e reviver-se.
1 Este texto modificado em vários
lugares foi publicado em outubro de 1985, no número 6 da revista Presença, com o título
"Os espaços de Weissmann".
2Neoconcretismo, vértice e ruptura do projeto construtivo brasileiro (Rio
de Janeiro, Funarte, 1981), p. 41.
3 O direito de sonhar (São Paulo, Difel, 1985).
4 A trajetória cie Weissmann possui um momento bastante singular. Entre
1960 e 1965, aproximadamente, há um abandono do construtivismo. As obras de então são
chapas de alumínio ou zinco rasgadas e amarrotadas. Esse momento expressionista não é,
entretanto, desligado dos demais. Há aí um primeiro contato com planos materiais. Antes,
o plano era entrevisto apenas pelo desenho das linhas ou dos recortes das chapas. Também
não se trata, a rigor, de expressionismo. O gol^ peamento da chapa é ritmado e as
configurações que resultam possuem regularidade. Tudo se passa como se a matéria lisa
das chapas das esculturas posteriores tivesse que ter sido primeiro experimentada e
domada,
5 Embora velada numa apreciação das obras que não procure esmiuçaIa, a
regra básica, em Sérgio Camargo, consiste em cortar um prisma ou um cilindro e depois
colar as seções transversais das partes obtidas girando-as 180 graus.
6 Minha análise de certo limite histórico que encontra a obra de
Weissmann se inspira nas reflexões mais amplas de Ronaldo Brito em seu livro sobre o
neoconcretismo (v. nota 2) sobre as contradições adaptativas que um pensamento tão
europeu e de índole socialdemocrata como o construtivismo revelou ao se transplantar para
o Brasil |