Crítica

O RITMO DO RITO
ou
a arte super-semiótica de Rubem Valentim

Se toda arte é jogo de signos, função semiótica, Rubem Valentim pratica, há pouco mais de quinze anos, uma plástica super-semiótica: uma arte comprometida com a transformação consciente do signo. Os fundamentos afro-baianos das formas "abstratas" de Valentim são conhecidos. Seu grafismo é uma estilização dos signos-fetiche do candomblé, do universo ritual dominado pelos emblemas dos orixás nagôs.

 

 

 

 

Nos seus espaços limpos e simétricos, não é difícil discernir, bem definidos pelo requinte harmônico do colorido liso, geométricos do arco-e-flecha do Oxóssi, o deus caçador, da belicosa faca de Ogum, da dupla machadinha de el-rei Xangô, do chicote de sua mulher Iansã, do abebê de sua mãe Iemanjá ou do cetro jupiteriano de Oxalá.

 

 

 

 

 

Desde o período parisiense de Kandinsky (1933-44) e sua suntuosa evocação livre das formas "arcaicas" da arte da estepe russa, ninguém foi tão longe na materialização de um transfiguracionalismo somente por equívoco apelidável de "abstrato". O chamado abstracionismo geométrico, tirante um ou outro raro Ben Nicholson, Magnelli ou Dacosta, padece cronicamente da glacialidade construtivista: é uma arte faquiresca, constrangedoramente entregue ao jejum do significado.

 

 

 

 

Nada mais distante das formas-signo de Valentim, em que pulsa toda uma memória cultural. No nosso tempo de guerra às raízes, de subculturas ameaçadas no seu direito de exprimir a diversidade humana, Valentim nos propõe uma arte que insiste na universalidade da mensagem do "étnico" e "regional". Em sua linguagem geométrica, mas não gratuita, produto de uma pesquisa que atravessou com imperturbada autenticidade o ruidoso festival do decorativismo tachista, Mário Pedrosa vislumbrou um anacronismo criador – e um sopro milenarista, anelo de redenção secretamente inscrito na promessa-lembrança das formas sobreviventes de culturas martirizadas.

 

 

 

 

 

Os signos do candomblé são sinais, isto é: signos intencionais. As formas geométricas de Valentim, artesanato deliberadamente comunicativo, também são sinais. Porém o produto estético dessa transfiguração de ecos afro-brasileiros não consiste em sinais, e sim em sintomas: em signos não intencionais, mas nem por isso menos poderosamente carregados de sentido. Valentim se serve da arte moderna para erigir o signo étnico em sintoma arquetípico.

 

 

 

 

E o que lhe permite ultrapassar a condição de um mero Volpi do terreiro talvez seja a sugestividade sem par que o seu idioleto plástico extrai do seu revolver um dialeto cultural: o mundo sacro do panteão nagô. Giulio Carlo Argan destacou o halo heráldico das imagens de Valentim. Mas a dignidade hierática dessas imagens-brasão cresceu ainda mais quando o artista, depois de um fecundo triênio em Roma, ampliou a escala das suas formas-signo.

 

Nos últimos cinco anos, Valentim completou seu trajeto da tela ao relevo e deste à plena terceira dimensão: chegou ao "objeto emblemático", espécie de escultura substitutiva do altar nagô.

A meu ver, ele atinge aqui o ápice de sua arte, o âmbito mais completo de aplicação da "língua" gráfica e cromática de que estas belas serigrafias são como que frases: pois o emblematismo valentiniano tem vocação amplamente espacial. Como a ascese neoplástica de Mondrian (mas nos antípodas do seu cerebralismo construtivista), os signos de Valentim ambicionam a conquista do ambiente, a redução da totalidade do espaço circundante ao ritmo do rito: à silenciosa musicalidade da composição transfiguratória.

Malraux deplorava um dia que a nossa época tenha sido incapaz de inventar templos ou túmulos.

 

 

Qualquer que possa ser a resposta a este desafio, deverá, presumivelmente, partir de obras voltadas para a rua, destinadas à praça e ao jardim. Na plástica brasileira pós-modernista, e na verdade em toda a plástica ocidental contemporênea, a arte super-semiótica de Rubem Valentim é um dos exemplos mais fortes e originais desse surdo apelo a uma ressocialização da experiência estética.

Brasília, novembro de 1974
JOSÉ GUILHERME MERQUIOR

 

 

 

 

"…E, convertido em geômetro, começou a construir uma sintaxe que acabou eclodindo na síntese signográfica perfeita da cultura popular e das artes eruditas. E seu trabalho passa, com louvor, pelo crivo das análises críticas do construtivismo ao mesmo tempo que traduz as raízes mais profundas, mais tradicionais e contemporâneas da civilização brasileira. Quer em um museu formalista da Europa, quer no espaço esotérico do candomblé, sua arte pulsa pelo rigor da plasticidade, pelo vigor da magia.

Sem dúvida, trata-se de um bruxo requintadamente sofisticado, de uma artista culto radicalmente feiticeiro.

 

 

Anulando o conflito erudito/popular, nacional/estrangeiro, culto/não-cultuado, Mestre Valentim atingiu o ponto de mutação quando, ao expor as vísceras do real, o torna impermanente e relativo, isto é, eterno."

outubro 1987
Reynaldo Jardim

 

 

 

"A escolha temática que está na raiz da pintura de Rubem Valentim resulta das próprias declarações do artista: os seus signos são deduzidos da simbologia mágica que se transmite com as tradições populares dos negros da Bahia. A evocação destes signos simbólico-mágicos não tem, entretanto, nada de folclorístico, o que se vê nos sucessivos estados através dos quais passam antes de se constituírem como imagens pictóricas".

Giulio Carlo Argan,
Trinta e um objetos emblemáticos e relevos emblemas de Rubem Valentim,
Rio de Janeiro, Museu de Arte Moderna,
novembro de 1970 (catálogo de exposição).

 

 

 

 

"É em Brasília, cidade vocacionalmente ecumênica, que sua obra adquire uma dimensão ‘religiosa’. Em Brasília surgem seus relevos brancos, formas votivas, hieráticas, silenciosas. A chegada ao branco é precedida por fases intensamente coloridas e com grande variedade de signos."

Frederico de Morais,
Mito e magia na arte de Rubem Valentim,
Rio de Janeiro, Galeria Bonino,
novembro de 1978 (catálogo de exposição).