Sou como a figueira brava, ligado à três continentes por raízes aéreas: suas seivas complementares e de contraste me alimentam.
As raízes do sugui, presas aos flancos das montanhas do meu japão nativo, vão bem cedo juntar-se às da gigantesca samaúma da Amazônia da minha infância.

Foi lá que minha memória despertou e que comecei a participar de uma violenta mutação.
Fascinado, vejo de perto o mundo que se revela.
A jibóia enlaça sua presa, esmaga-a e depois a engole.
A aranha caranguejeira salta sobre um passarinho.
Hordas de escorpiões, ferrões armados, agitam-se de um lado para o outro como samurais, numa crepitação venenosa.
Sapos gigantes incham e destilam venenos quando são tocados. Lá estão, copulando à sombra de uma palmeira. A goiabeira está em festa com a metamorfose das borboletas. Os perfumes embriagadores do bacuri e do cupuaçu misturam-se ao cheiro da mandioca fermentada. Sol a pino.
Tremo: malária.

 


O rio Amazonas corre lento e imenso.
O tempo corre também. Estou em São Paulo, cidade ainda adolescente.
Foi lá que nasceu meu amor pela pintura. Sentado no telhado, pinto minha primeira paisagem.
O mundo está em guerra. O Brasil é um oásis.
Juventude, tempo de batalhas. De sonhos também: Paris.

Um belo dia encontro-me lá. De pé sobre a plataforma do ônibus verde, maravilhado, vejo desfilaros bulevares de plátanos e castanheiras, os quiosques e os mictórios. Os vendedores ambulantes enchem o ar com seus gritos. O cantor-acordeonista toca a musette esperando que as moedas caiam do céu. De repente, uma greve. Tudo parou. Os montes de lixo começam a esconder o outro lado da rua. A multidão desfila: manifestações. Nos cafés discute-se abstração enquanto morre o existencialismo. A Cantora Careca estréia numa cave.

Guerras e guerrinhas. Acelera-se a revolução tecnológica. O céu se carrega de ferragens sofisticadas. A espada de Dâmocles torna-se cada vez mais pesada.
Vivo, amo, sofro, pinto, exponho, evoluo.

Percebo que as raízes da minha figueira brava infiltravam-se também nos interstícios das pedras do Marais.
No meu jardim a seiva da primavera acorda as roseiras selvagens.

Flavio-Shiró

Texto do catálogo de exposição, Paris, 1983