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No
catálogo da exposição realizada no Espaço
Latino-Americano, em Paris, em 1983,
Flavio-Shiró definia o itinerário de seu
destino: "Percebo que as raízes da minha
brava figueira se infiltram também nos
interstícios das pedras do Marais."
Sapporo, Tomé-Açu, a Amazônia, as ruas do
Marais, Paris. É o caminho de Flavio-Shiró. |
| Aos 61 anos,
Flavio-Shiró é um artista que viveu em três
continentes, o que lhe dá o perfil de cidadão
do mundo. Ser classificado como artista
nipo-brasileiro ou nipo-franco-brasileiro deixa
muito a desejar. Muito além de qualquer
classificação filosófica, melhor uma
definição que retratasse seu traço
psicológico. |

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Flavio-Siró
tem a cidadania do pessimismo
cosmopolita, que não é o de um
desesperado ou de um niilista vulgar, mas
repleto de bom humor e de uma bem medida
ironia sobre o homem e as coisas, e não
naufraga nem no catastrofismo nem na
inocência ideológica dos "amanhãs
utópicos". |
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| A sua obra, hoje,
é brutal. Ele cria fantasmas terríveis, como se
o terror de uma época - a que conheceu a
hecatombe das duas guerras mundiais, Hiroxima e a
destruição ecológica do planeta, o consumismo
eminente do Primeiro Mundo e a miséria atroz do
Terceiro -, pudesse caber em linhas arranhadas
pelo fusain, atenuadas pelo pastel e pelo
manto suave da têmpera. Da mistura de linhas e
cores, brota na tela olhos acusadores, terrível
advertência ao nosso mal-estar civilizado. A
moralidade de sua obra compreende uma censura
física: ela não nos acusa como em julgamento,
parece atingir a nossa própria carne. |
Flavio-Shiró
mora há trinta anos numa casa de estilo
medieval, reconstruída por ele mesmo, em um
trecho de Paris impregnado de História. Contudo,
ele evita em sua obra o excessivo historicismo
que se mistura à vida cultural nos dias de hoje.
Ao sair de sua casa, ele se depara com os tubos
azuis e vermelhos do Centre Pompidou, um espaço
cultural que parece ter posto o efêmero dentro
de um museu. E a poucos metros dessa
"máquina de expor", Flavio-Shiró
preserva com sua obra a distância crítica ao
presente, como se ela tivesse olhos para enxergar
o futuro.
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| Em 1989,
Flavio-Shiró ganhou o Prêmio Itamaraty na
Bienal Internacional de São Paulo. Os rumores na
época foram de que se tinha feito justiça a um
artista pouco celebrado, a um pintor admirado por
artistas, mas ignorado pela burocracia da arte. A
origem dessa injustiça, pode ser explicada no
fato de que Flavio-Shiró passou boa parte da sua
carreira em Paris, o que talvez justifique um
certo desconhecimento da evolução de sua
pintura que, muitas vezes, era alojada no
segmento da arte informal, de difícil
classificação. |
| Caso à parte
entre os nipo-brasileiros, Flavio-Shiró nunca
pertenceu a um movimento; sua postura informal
possuía um caráter individualista para criar
tendências ao agrupamento, à política
cultural, à preocupação com um papel
estratégico na imprensa. E quando passa
novamente à figura, o faz de maneira tão
pessoal que o movimento figurativo não encontra
termos para explicar seu trabalho. |

| No
entanto, reconhecia-se a qualidade de sua
pintura e a maestria com que dominava os
meios para pintá-la, de modo que
inspirava um paradoxo: gerava-se com as
técnicas sutis do Belo para produzir o
Horror. O fascínio de sua obra exerce-se
pela estranha sensação da união do
profundo imaginário com texturas
ultra-delicadas. Flavio-Shiró está
certo quando chama sua pintura de
transcendente: "A minha maneira de
sentir a figuração, depois de passar
pela aventura da arte abstrata, era
diferente. Não se tratava de uma volta
simples e pura à figura: era na
transcendência que eu me situava." |
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É difícil explicar a
genealogia destas imagens. Flavio-Shiró tem uma obra que
não admite muita racionalização: "Talvez a
intuição se assemelhe ao vôo de um pássaro: vai
direto ao seu objetivo. Às vezes, o caminho racional é
o mais difícil", costuma dizer. "Quando estou
pintando, pergunto-me se meu trabalho não se consiste em
capturar o imponderável. Pegar o diabo pelos
chifres..."
A década
de 40 é para Flavio-Shiró a da descoberta da pintura; a
década de 50 é seu período experimental - ele viaja
pela Europa. visitando museus de arte antiga e galerias
que fervilhavam de idéias novas e estudos de várias
técnicas - a fase das "cidades" e do período
informal, quando sua principal preocupação é a
textura, a matéria. Mais tarde, ele tenta capturar as
emoções de sua infância na Amazônia. A paleta
acompanha as sinuosidades do seu caminho: cores foscas
nos meados dos anos 50, brilhantes entre 59 e 60, escuras
no início dos 60, violentas em meados até o fim da
década, sua gama se reduz a partir dos anos 70, quando
deixa as tintas industriais para utilizar pigmentos.
Atualmente, Flavio-Shiró
trabalha com têmpera, fusain e pastel fabricado
por ele mesmo, acentuado, eventualmente, com tinta à
óleo. Segundo Jean Marie Dunoyer, crítico de arte do Le
Monde, "a luminosidade das transparências
irradia por trás das sucessivas camadas de tinta como no
afresco italiano do século XV."
A obra de Flavio-Shiró perfaz uma
dialética. Das paisagens ingênuas dos primeiros tempos,
sua pintura sofistica-se com o informalismo e a passagem
pela Ecole de Paris, rompendo com as antigas
técnicas e procedimentos, mas quando o puro ludismo
formal não lhe basta, ele retorna ao universo da
memória. ao seu eu profundo, às imagens e percepções
da criança que fora, entra no grande abismo de seu
inconsciente e é então que surgem as figuras informes,
enigmáticas, as metáforas do organismo em vias de
nascimento. O percurso de seu trabalho é paralelo à sua
biografia - Sapporo, Tomé-Açu, Paris. E ainda a um
mundo anterior a isso tudo.
Pode esta
obra plena ser explicada?
A esta
pergunta, Flavio-Shiró faz uma breve observação:
"Quanto mais forte a luz, mais intensa é a
sombra."
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