F L A V I O ssS H I R Ó 1928 - Nasce em 27 de agosto, em Sapporo, Hokkaido, Japão, caçula de uma família de 6 crianças. A mãe, Aiko, excelente instrumentista, é aparentada aos Fujiwara que, na Idade Média, deram ao Japão várias imperatrizes e a romancista Murasaki Shikibu. O pai, Massami Tanaka, dentista descendente de samurais, pinta e mantém um diário durante mais de 70 anos, onde nota que o recém-nascido "parece só olhos". O menino recebe o nome de Shiro, tradicional para o 4º filho homem, mas escrito com um ideograma particular composto pelo pai. 1932 - No Japão do século 19, o sogro-avô fora criar um haras imperial numa região selvagem e quase desconhecida. Massami Tanaka, por sua vez, seduzido pela publicidade do "Paraíso Verde", decide emigrar com a família para a Amazônia. Os colonos dispersados na imensidão da mata, o sol equatorial, a maleita, bicho-do-pé, cobras de todo tamanho e cor, tatus e onças pretas, o aprendizado da caça com um índio solitário, a vivência no ambiente hostil mas fascinante de Tomé-Açu, no Pará, marcará para sempre a memória do Menino. 1937 - A irmã Maria Wakae, estudante que falecerá em Belém poucos meses depois, lhe propõe nomes brasileiros. O pequeno Shiro escolhe "Flávio". 1939/41 - Em busca de vida e educação melhores para os filhos, a família "pega o Ita" para o Sul. Após alguns meses, numa plantação de chá em Moji das Cruzes, se instala em São Paulo. O menino ajuda na quitanda aberta pelos pais, ao mesmo tempo em que continua na escola e no curso de japonês. Pearl Harbour: a guerra chega pelas imagens do Paramount News, num cinema da rua São Joaquim. 1942 - Recebe uma caixa de tintas do pintor Higaki e, sentado no telhado da casa, realiza sua primeira paisagem, a Praça da Sé. Ingressa na Escola Profissional Getúlio Vargas, onde conhece Sacilotto e Otávio Araújo, na pintura, e Marcello Grassmann, então entalhador. Como reação ao ensino acadêmico, vai pintar a paisagem urbana da capital - um pacata cidade de 400 mil habitantes - em cuja sociedade multicultural começa a se integrar através das artes. Frequenta o "galinheiro "do Teatro Municipal - Y. Menuhin, M. Horszowski ou Harald Kreuzberg - ao mesmo tempo que gafieiras, folguedos populares e Pacaembu: é o primeiro corintiano da colônia japonesa. 1943/45 - Para ganhar sua vida, entrar na cerâmica Tasca. Fica goleiro da equipe de futebol da empresa e descobre a ópera, o pai do patrão tendo sido substituto de Caruso. O pintor Cezar Lacanna, que pertence à família artística da Paulicéia, o apresenta aos membros do Grupo Santa Helena: assim, seu primeiro nu é desenhado no atelier de Rebolo Gonçalves, em companhia de Volpi, Mario Zanini, Rizotti, Penacchi, enquanto a Segunda Guerra Mundial forma um pano de fundo de bombardeios, culminando com a explosão das bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. Vive o conflito entre o Japão, país de nascimento, e o Brasil, terra de acolhida. Torna-se membro do Sindicato dos Artistas Plásticos de São Paulo. "Ninguém vivia de pintura naquela época. Trabalhávamos numa outra profissão, para poder desenhar de noite e pintar aos sábados e domingos. O que me deixa saudoso é a relação de camaradagem e amizade que unia os pintores." 1946 - Passa a trabalhar na Metro Goldwyn Mayer, pintando letras e recortando as silhuetas de Lana Turner, Judy Garland, etc., para vitrines de cinema. "Recebia 2 bilhetes grátis por filme. O Metro era todo de veludo bourdeaux, escovado, perfumado, um luxo!...", até que a escultural Esther Williams, cujo sucesso "A Escola das Sereias" fica em cartaz meses a fio, o obriga a buscar outro emprego.
1947 - Apresentado pelo pintor Takaoka, que trabalhara lá antes, desenha móveis e perspectivas na Decoração Enrique Liberal: trabalho escolhido por ocupar somente metade do dia, o que lhe permite consagrar mais tempo à pintura. Com o dinheiro do primeiro quadro vendido a um conhecido de Tomé-Açu, constrói um pequeno atelier de madeira no quintal da casa. Expõe com o Grupo dos 19 na Galeria Prestes Mais e ganha o 4º prêmio. No júri, Di Cavalcanti, Anita Malfatti e Lasar Segall. Descoberta do teatro moderno com "Vestido de Noiva" de Nélson Rodrigues, com Cacilda Becker e direção de Ziembinsky, recém-chegado da Europa. Inauguração do Museu de Arte de São Paulo, na rua 7 de Abril, que frequenta muito, e em cuja cinemateca - incendiada mais tarde - fará seu aprendizado de cinéfilo.
1949 - Participa do Salão Nacional de Arte Moderna, Rio: sua Natureza Morta ganha a Medalha de Bronze. "Mas somente no Diário Oficial: Pancetti, que fez parte do júri, tendo se recusado a atribuir as medalhas de ouro e de prata, a de bronze nunca foi cunhada". Recebe o prêmio Augusto Frederico Schimidt no SAPS, Rio. 1950 - Primeira exposição individual, no Saguão do Centro Acadêmico da Escola de Belas Artes, do Rio, com apresentação de Antonio Bento. O pintor holandês Wim Van Dijk compra o quadro Noturno. 1951 - Volta para São Paulo. Prêmio de aquisição no Salão Paulista de Arte Moderna. Expõe três quadros: Frevo, Auto-retrato e Composição, na primeira Bienal de São Paulo, no Trianon. A Escola de Paris fica cada vez mais presente. O teórico da pintura abstrata, Léon Degand, provoca polêmicas. 1952 - Medalha de Ouro no 1º Salão Sebikai. Exposição individual no Clube Cereja, São Paulo, com introduções de Kaminagai e Sérgio Milliet. Com a venda dos quadros, arrecada a viagem a Paris. Começo da amizade com Tomie Ohtake, ainda figurativa. Naturaliza-se brasileiro. 1953 - Em junho, embarca para Santos a bordo do transatlântico "Conte Grande" rumo a Nápoles. "Depois de tanto sonhar, acordei com o apito de partida. Entre o cais e o navio, a lenta despedida. Paris estava tornando-se realidade". Viaja pela Itália com o itinerário e as dicas que Lívio Abramo fornecia aos amigos. "Olhava com tanto afinco que, de noite, todos os objetos arqueológicos, as pinturas e os monumentos desfilavam novamente no sonho... Como esquecer aquela rapariga que me ajudou a carregar a mala pesada na estação de Veneza, ou o som de um concerto nas Termas de Caracalla?" Chega em Paris em pleno verão. Percorre a cidade toda de bicicleta. Mora no último andar de um dos mais antigos hotéis, rue Descartes. Curto aprendizado de gravura com Friedlander. Conhece os pintores japoneses Sugaï e Tabuchi.
Depois de um mergulho no livro de Cennino Cennini sobre técnicas de pintura, realiza estudos de Lorenzetti, Mantegna e Rubens no Louvre. Faz um curso de mosaico com Gino Severini. "Um dia, Jean Cocteu visitou o atelier. Gostou do meu trabalho, sobretudo da mão do guitarrista, dizia que era bem observado." Encontra Beatrice, que estuda cenografia, numa conferência no American Center. Viaja, dirigindo o fusca do Inimá, com este, Mori e Takaoka até a Dinamarca, via Alemanha, Holanda e Bélgica. "Mas o que marcou mesmo, nesta viagem, foi o Altar de Grünewald, em Colmar." No outono, outra viagem com Inimá e amigos para a Espanha, e a descoberta de Goya, Bosch, El Greco, Granada e a Barcelona de Gaudí. 1955 - Faz litografia na École Nationale Superieure des Beaux Arts de Paris, com o professor Jaudon. Vai a Londres com Beatrice, Marcello Grassman e Augusto Rodrigues para assistir à vernissage de Bandeira. Casa-se com Beatrice, sendo testemunhas Marcello Grassman e Inimá. Viaja pela Suíça e Itália do norte; deslumbramento com Giotto e Klee. Monta atelier na residência, em Boulogne Billancourt. Expõe litografias em "Gravadores Brasileiros", em Lugano (atribuídas a "Walter" Tanaka no catálogo). 1956 - Com a primeira neve, chega o filho Josué. Fase de arcos e cidades em caseína - Fujita se interessa por estes quadros no Salão "Les Arts en France et dans le Monde" no Museu de Arte Moderna de Paris - e de colagens em jornais: evolve para uma pintura em espessas camadas. Apresentado por Sugaï, conhece a Galerie Arnaud e seus artistas: Istrati, Dumitrescu, Hundertwasser, Barré, Feito, Kalinowski, Mata Pan. "Divergences 4" e, no fim do ano, exposição individual na Galerie Arnaud. "Um sucesso. Uma matéria rica, muita imaginação nas estruturas, nos signos, nas formas. E sobretudo uma qualidade de execução notável" (Michel Ragon, em Cimaise). 1957 - Começa a expôr nos salões "Comparaisons" e "Realités Nouvelles". Participa do Festival dArt dAvantgarde de Nates; da 4ª Bienal de São Paulo, onde as telas Metais do Céu e Vento Leste são as primeiras pinturas de fatura abstrata-informal a serem incluídas na seleção brasileira; e da mostra "Divergences". que passa no Stedelijk Museum de Amsterdam e de Schiedam, Holanda. Realiza uma capa para a revista de Arte Cimaise. Acha casa no bairro histórico de Marais. "Provavelmente foi a cor da casa - um vermelho veneziano - que nos decidiu. Os arredores eram cinza, com aspecto de ruína. Fui chamado o Japonês Louco pelos vizinhos: dei início à lenta restauração do prédio. O atelier era tão pequeno que pintava as telas maiores no telhado". 1958 - Expõe com "Realités Nouvelles" na Kunsthalle de Recklinghausen, na Alemanha; na mostra "Eight Painters", organizada pela Galeria Arnaud em Cleveland, Ohio, USA; e na exposição "Brasileiros de Paris"(com Bandeira, Krajcberg, Piza, Chaves e Nobilis) montada por Ruth Escobar na perfumaria Helen Dale: "O problema era como esconder os frascos de perfumes; mas a façanha maior de Ruth, antes do teatro, era conseguir a presença da televisão francesa, o único canal da época!" Nasce a filha Noemi. 1959 - Individual na Galerie Arnaud, com Roland Penrose no vernissage. "Romantismo da mancha considerada como uma flor"(LExpress). Participa da 5ª Bienal de São Paulo, com 5 guaches. Volta ao Brasil. Individual com 15 telas no MAM do Rio de Janeiro. "O Museu era o centro da vida social artística da cidade; até o David Niven viu a exposição, gostou e levou um guache." O escândalo e boicote provocados por Georges Mathieu "não me impediram de ajudá-lo: todos têm direito à livre expressão". individual na Galeria São Luiz, de São Paulo, dirigida por Anna Maria Fiocca, onde aparecem todos os antigos do Grupo Santa Helena. Participação em "Antagomnismes", no Musée des Arts Decoratifs de Paris, com quadro ao lado de Jackson Pollock como contraponto. Instala-se em Pituba, em Salvador. Mergulha de manhã e pinta de tarde. Conhece o Dr. Sisnando, capoeirista e contador fabuloso, e Glauber Rocha, que vem entrevistá-lo para um jornal da cidade, enquanto prepara "Barravento"; liga-se por amizade a Calazans Netto; frequenta Jorge Amado, Mário Cravo, Odorico Tavares, Clarival do Prado Valladares. 1960 - Individual no MAM de Salvador, que Lina Bo Bardi dirige. "Este museu não intimidava a gente como tantos outros. Era emocionante ver gente simples, o vendedor de amendoim, a lavadeira, o engraxate, deixar o tabuleiro e a trouxa na entrada para visitar... Jamais tive tanto público." Participa do leilão para as vítimas de Orós, no MAM do Rio. Um quadro da fase de Pituba é roubado na mostra IBEU - Contemporary Arts, no Ministério da Educação. A sua não inclusão na seleção para a Bienal de Veneza causa muitos protestos. Viaja pelo Nordeste - Tomé-Açu, Belém, Recife, Caruaru, onde encontrará Mestre Vitalino e o Folclorista Câmara Cascudo. Conhece o historiador de cinema Georges Sadoul, futuro defensor do Cinema Novo, que se torna um amigo. Volta a Paris, onde termina a restauração da casa. "Fui arquiteto, pedreiro, marceneiro, encanador... uma grande experiência!" 1961 - Para evitar novas confusões com outros Tanaka, passa a assinar Flavio-Shiró. Participa com os quadros Alto Xingu e Muirapinema na Bienal de Paris. Prêmio de Pintura. "André Malraux viu em Alto Xingu uma Descida da Cruz, mas o que eu pintei foi a memória de um igarapé." A Ville de Paris adquire Muirapinema. Amizades com o gravador Hamaguchi, o escultor Sklavos e Joan Littlewood, diretora do Theatre Workshop, de Londres. Faz parte do grupo de jovens artistas que convencem o produtor de "Année Dernière à Marienbad", de Resnais, a não queimar o filme. Viagem à Iugoslávia, em estradas de fortuna. Descoberta dos afrescos bizantinos de Nerezi e Kurbinovo. Falecimento do irmão músico Leopoldo. 1962 - Neste período, o desenho, antes ausente, reaparece e faz corpo com a cor. Nascem pinturas sugerindo a presença de monstros míticos e alusões à figura humana. Individual na Galerie Legendre, com prefácio de Georges Boudaille: Flavio-Shiró et la Realité Brésilienne, École de Paris - Galerie Charpentier. "Não sei até que ponto queria fazer uma pintura brasileira. O que não queria era adormecer nos sussurros da École de Paris." Participa de exposições "Premiados da Bienal de Paris", na Maison de la Culture do Havre, França, e "Arte Latino-Americana em Paris", no Museu de Arte Moderna de Paris. Conhece Vitor Garcia e Jorge Lavelli, que faz os primeiros ensaios do "Casamento" de Gombrowicz na sua casa. Primeira viagem à Grécia: Luz e mitos. 1963 - Participa no Guggenheim Intenational, New York, e da coletiva "7 Artistes Brésiliens de Paris" (com Camargo, S. Ebling, Krajcberg, Ljuba, l. Miller e Piza) na Galeria XXème Siècle, dirigida por San Lazaro, editor da revista XXème Siècle, curadoria Denys Chevalier. Faz litografia em companhia de Man Ray "O inventor da solarização e dadaísta de gênio executava maçãs bem comestíveis." Individuais na Galeria Querino, de Salvador; na Petite Galerie, Rio de Janeiro ("Entre o choque causado por estes monstros picturais e o artigo de boicote de Hélio Fernandes, vendi um quadro e uma litografia..."); na Fundação Álvares Penteado, com curadoria do MAC de São Paulo, onde expõe cerca de 40 trabalhos entre grandes formatos, desenhos monumentais e pinturas de óleo sobre papel. "Foi um espaço maravilhoso a ser dominado." Delfica entra no acervo do Museu de Arte Contemporânea. Participa da VII Bienal de São Paulo com o grupo "LOeil de bouef" organizado por Ceres Franco, todos os pintores apresentando quadros arredondados. 1º Prêmio do Salão Mineiro.
1965 - Para as comemorações do IV Centenário do Rio, individual no Museu de Arte Moderna, sob direção de Carmen Portinho. Expõe 22 telas, de grande formato, alongados, trípticos e polípticos, a série Jornais e Les évènements du mois, com introdução de Gérard Gassiot Talabot, que declara: "Na conjuntura atual, Flavio-Shiró aparece como um caso excepcional de osmose criadora." Nas outras salas do Museu, Krajcberg e suas raízes, e o barulhento "Opinião 65". Doa o quadro Nunca mais que, junto com um outro de 1959, Reminiscência, desaparecerá num incêndio do Museu em 1978. Participa de "Pinturas da América Latina", na Casa de las Americas, La Havana, Cuba. Realiza um grande painel para a sede de Manchete. Viaja pelo Peru, México, Califórnia, Nevada e Nova York, onde conhece Marcel Duchamp, apresentado por Maria Martins, e reencontra Christo, que frequentava em Paris. 1966-68 - expõe em várias coletivas, como "Pintura Redonda", Madrid, Espanha; Bienal de Córdoba, Argentina; 7ª Bienal de São Paulo; "Comparaisons"; "Realités Nouvelles"; Mostra Itinerante do Acervo do Museu de Arte Contemporânea, São Paulo. "É um período de incubação, reflexão, indagação, de busca, aprofundamento, análise do foco sobre o ser humano na complexidade da mente e do corpo que o compõem. Tudo está em questão, ao ponto de queimar telas." Participa do movimento contra a guerra do Vietnam, que une figuras como Jean Paul Sartre, Max Ernst, Jean Rostand, aos artistas, trabalhadores e estudantes nas noites memoráveis da Mutualité, e que culminam em maio de 68, "como uma reação ao conforto e à indiferença que caracterizam o fim dos anos 60, um protesto pelo direito à utopia." Viaja para o Japão - depois de 36 anos - e, na volta, pelo Sudeste asiático. 1969 - Individual na Galeria Arcanes, Bruxelles, Bélgica, com textos de W. Zanini e E. Jaguer. 1970-72 - Neste período não pinta, mas desenha e faz estudos de têmpera e técnica mista. Participa de coletivas com quadros realizados anteriormente, integrando-se à crescente corrente latino-americana "que, com suas tendências às vezes diametralmente opostas, contribui parta o enriquecimento da École de Paris, sempre vitalizada por artes e artistas de outras culturas." "Artistas Latino-Americanos de Paris", Sala Gaudí, Barcelona; "Vision 24", no Instituto Latino-Americano de Roma; "Chronique de l"Oeil de Boeuf", Paris; "Dessins et Gravures", Centre Culturel, Poitiers; "Neue Sezession", Darmstadt, Alemanha; "Bertrand Russel Centenary International Art Exhibition", Londres; "América Latina não oficial", na Cité Universitaire de Paris; "Jovem Arte Contemporânea", Museu de Arte Contemporânea, São Paulo, onde mostra 12 retratos de Franz Weissmann, feitos em Paris, ampliados em São Paulo, para 4 metros de altura, suspensos e girando. "Tanto a obra quanto o negativo desapareceram: teria gostado que figurassem neste livro..." Interessado por fotografia, faz algumas invenções e adaptações em aparelhos. "Os técnicos da Nikon costumavam passar para colher dicas. Sempre tive fascínio por desmontar coisas. Aos 8 anos desmontei o despertador; aos 50, desmontei Leicas. Hoje desmonto a realidade, que não é mecânica, mas humana..." Nestes anos de reflexão participa também de atividades criadoras com crianças e adolescentes, num movimento educacional não escolar e laico, oriundo da Resistência Francesa durante a guerra. Viaja pela Inglaterra, admira os Turner, descobre a Tunísia e pensa em Klee. Realiza a capa da revista Phases. Ajuda a montar uma exposição de fotografias sobre os efeitos da guerra do Vietnam sobre crianças, no Senado de paris, que será censurado antes da inauguração e remontada na casa de um médico. 1973 - Depois de 3 anos de abstinência, volta a pintar. Individual na Galeria lOneil de Boeuf, de Ceres Franco, com Faciés, grandes cabeças em técnica mista. "Um dos quadros chamava-se Pablo. Picasso faleceu uma semana depois de eu acabar de pintá-lo..." O Fonds National dArt Contemporain adquire La Jetée. Viagem a Bali, fascínio pela perfeita simbiose entre arte e vida, ameaçadas pela "sifilisação" do consumo. Individual na Galeria de Arte Global, São Paulo, e na Petite Galerie, no Rio, com pastel sobre papel camurçado, texto de André Laude. "Tive um grande prazer em trabalhar com pastel: infelizmente, o papel camurçado desapareceu do mercado..." 1974 - Participa do Salon de Mai e do Festival de Royan. Prêmio Nacional do Festival Intenacional de Peinture, Cagnes sur Mer. 1975 - Individual na Art Gallery of the Brazilian-American Cultural Institute, Washington, EUA, organizada por José Neistein, com 24 trabalhos em técnica mista. Viaja pelos Estados unidos em Greyhound. 1976 - Bienal de Menton. Coletiva Itinerante do Museu Salvador Allende, Paris-Escandinávia, organizada por Mário Pedrosa. 1977 - Individual na Galerie lOneil de Boeuf. "Em comparação com a fase dos Faciés, o foco recuou, e dá lugar à reinvenção do corpo... No jantar da vernissage, Mário Pedrosa, na véspera da sua volta do exílio ao Brasil, é homenageado pelo poeta André Laude." 1978 - Individual de desenhos no Gabinete de Arte, São Paulo. "São investigações sobre a metamorfose e o tempo existencial, o desenho como música de câmara." Participa de coletivas com variações sobre "Suzana no Banho", de Tintoretto, organizada por Ceres Franco; "Les Huns", do coleccionador de miniformatos Maître Rey, na Fundação de Artes Gráficas e Plásticas de Paris; "70 Anos de Imigração Japonesa" na Arte Global e "Retrospectiva do Grupo dos 19" no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Nesta última, "melancolia e vertigem dos 31 anos passados". Colabora na tentativa de criação de uma cooperativa de artistas em São Paulo. Serigrafia para exposição pela anistia. 1979 - Coletiva "Expression Libre de l"Art latino Americain" em Bondy. Viaja pela Toscana, agora com os filhos adultos. "redescoberta da maravilhosa praça de Siena e dos afrescos de Piero della Francesca, em Arezzo." 1980 - Individual inaugurando a Kate Gallery, São Paulo, com 42 trabalhos em técnica mista sobre papel. Escreve ma introdução: "Se vejo demasiadamente claro o desfecho de uma pintura, meu interesse por ela pode perder-se no labirinto da execução. Um mínimo de desconhecido e de aventura me é necessário." Viaja pelo Nordeste, reencontrando velhos amigos, como Sérvulo Esmeraldo e o cineasta Celso Brandão. Cria o cenário para "Thyeste", de Seneca, direção de André Cazalas, figurinos de Beatrice Tanaka, no teatro "La Resserre" da Cité Universitaire, Paris. 1981 - Individual na Galeria Saramenha, Rio, com obras de 1977 a 1981. Grandes formatos e desenhos. No catálogo, pequeno texto de Joan Littlewood. "O quadro Macunaína foi feito pensando no filme de Joaquim Pedro." Arte Latino-Americana, Museu de Arte Moderna, Osaka. 1982 - Participa em "Tour dYvoire", Galerie Bellechasse, Paris; de uma coletiva de artistas latino-americanos no Museu de Arte Moderna do Cá Pesaro, Veneza, e em LAmerique Latine à Paris" no Grand Palais, organizada pela Associação Socialista dos Direitos do Homem. Realiza uma obra para o Prêmio Georges Sadoul, ganho pela cineasta Brasileira Tizuka Yamasaki, com "Gaijin". 1983 - Falecimento do pai, ais 92 anos. "Meu pai foi homem de muitos talentos. Pena que as circunstâncias não permitiram que ele fosse pintos. Apesar de ser bom dentista, não gostava desta profissão. Escrevia, traduziu Monteiro Lobato para o japonês, fez caligrafia, polemicou nos jornais, dançava, se interessava por mil coisas. Foi marginalizado num mundo cada vez mais especializado." Individual no Espaço Latino-americano, dedicada à ,memória do pai, com texto autobiográfico. "Pesadelo e canto de vida... Nos quadros de F.S., algo esta sempre nascendo ou morrendo"(Jacques Michel, Le Monde). "Matta vê e analisa os quadros, só falta entrar neles. Depois desenho suas famosas improvisações no meu catálogo e diz: "O que é óbvio não me interessa mais. A tua pintura, habitada por seres estranhos e indefinidos, me atrai. Sua matéria é ao mesmo tempo signo. Pintura assim impregnada de poesia é coisa rara, atualmente..." Individuais simultâneas na Galeria Saramenha, Rio, e Paulo Figueiredo, São Paulo. O Museu de Arte Brasileira de São Paulo adquire Sol a Pino, e o Fonds National dArt Contemporain, Serpent-Liane. 1984 - Participa das coletivas "Entre a mancha e a Figura", MAM, Rio; "Tradição e Ruptura", Fundação Bienal de São Paulo; "Retrato e Auto-retrato na Arte Brasileira", MAM de São Paulo; Bienal de La Havana, Cuba. Organiza uma exposição de xilografias de Rubem Grilo no Espaço Latino Americano de Paris. Compra e reforma uma casa na Glória, "bairro que ainda guarda a memória do velho Rio de Janeiro", integrando nela esculturas de concreto e de vergalhões. Falecimento da mãos, aos 89 anos. "Nos anos difíceis foi ela quem aguentou a barra; nos tempinhos que sobravam, tocava koto e shamisen, fazia lindos patchwork e poemas Waka. Era uma santa leiga, como diz Beatrice, toda bondade e generosidade." 1985 - Individual na galeria São Paulo, texto de Olívio Tavares de Araújo, entrevista de Ignácio Loyola Brandão. "É uma arte de antecipação, nuanças, percepções, situações inéditas... Uma arte manifestante de inquietação, cada vez mais aprofundada no tema dos mistérios." (Jacob Klintowitz, Jornal da Tarde). Participa das salas "Expressionismo Brasileiro" e "Re-leitura" na XVIII Bienal de São Paulo; e em "Latino-Americanos em Paris", no MAC, São Paulo. 1986 - Individuais simultâneas no Rio, na Galeria Saramenha (grandes formatos) e na Galeria Estampa (obras sobre papel), com texto de Frederico de Morais: "...diferentemente do que parece sugerir à primeira vista, sua pintura não é mórbida nem cruel, tampouco pessimista... A pintura de F.S. é uma profissão de fé humanista." Individual na Galeria Papier, São Paulo, texto de Flavio-Shiró sobre o papel. "Tempos de Guerra - Hotel Internacional", coletiva organizada por Frederico de Morais, Banerj, Rio, e Fundação Bienal de São Paulo. Panorama de Arte Brasileira, MAM, São Paulo; I Salão de Arte Contemporânea Christian Dior, Paço Imperial, Rio, 2º Prêmio. 1987 - Participa da coletiva itinerante "Herança do Japão", organizada pelo Museu de Arte Brasileira, São Paulo, e da mostra "Modernidade", Museu de Arte Moderna, Paris, e MAM, São Paulo (1988). Realiza uma obra para o XX Prêmio Georges Sadoul, ganho pelo cineasta soviético Ivan Dikhovichni. Recomeça a trabalhar com monotipias. Viaja pelo Norte da Índia. Impressionado por Ellora, Ajanta, Konarak, pela violência do "struggle for life" que cada um parece possuir em dose superior, pela abundância da arte popular e a riqueza da música. 1988-89 - Participa de "63-66", Galeria Fernando Millan, São Paulo, e "Jogo de Memórias", mostra itinerante nas Galerias Montessanti, organizadas por Casemiro Xavier de Mendonça. Prêmio de aquisição em Panorama 1989, MAM, São Paulo, Sala especial na XX Bienal de São Paulo. Prêmio Itamaraty. Individual na Galeria Thomas Cohn, Rio de Janeiro, "numa curiosa mistura de tensão e de batucadas: o rio preparava a primeira eleição presidencial depois de quase 30 anos..." 1990 - Realiza uma escultura-forno no sítio de um amigo, em Alagoas. "De início pensei num polvo, mas acabou saindo uma enorme cabeça, uma espécie de tempo do fogo domesticado." Coletivas: "Façades Imaginaires" (pinturas projetadas na fachada de um convento antigo) Grenoble, França; Arte Contemporânea Brasileira, Museus de Tokyo, Atami e Sapporo, Japão; "Pantanal", organizada pelo Movimento Nacional de Artistas Plásticos pela Natureza, Galeria Sadalla, São Paulo. |