REFLEXÕES
No dia da minha morte, nascerá um homem verde, com dois metros e trinta e oito centímetros de altura. Suas mãos serão cinzentas como grafite e em cada uma delas estará escrito todo o passado, todo o presente e todo o futuro do mundo. Da sua boca, sairão as mais sábias palavras que deverão ser ditas, e o seu olhar violeta será capaz de atravessar a muralha da China ou as pirâmides do Egito. No interior do seu corpo, o organismo trabalhará de uma maneira diferente do que estamos acostumados a conhecer, porque o seu sangue, duas vezes mais denso do que o nosso, circulará de baixo para cima, e o fio do seu cabelo não terá princípio nem fim. O seu cérebro poderá ser visto, pois o topo do seu crânio será transparente, e de lá, irradiará uma onda que hipnotizará toda a humanidade. Esse homem verde poderá flutuar no espaço quando assim o desejar, e se transportará de um lado para outro sem o auxílio de qualquer outra coisa que não seja a sua vontade. Poderá se dividir, se multiplicar, desaparecer ou permanecer eternamente no mesmo lugar. Além do mais, poderá se transformar numa pedra, por exemplo, ou num objeto fora de moda como um facão. Não sentirá dor, nunca, porque a dor não deverá ser sentida por ele. O homem verde viverá para sempre, a partir da data da minha morte.
O dia de hoje foi lindo. Acordei bem cedinho e fui para a beira do mar espiar o sol nascer. No lugar mais claro do céu, as cores eram maravilhosas e a intensidade delas ia diminuindo, enquanto modificavam a coloração. Entretanto, havia um limite bem definido entre uma e outra, e estranhei aquilo porque nunca tinha visto um espetáculo semelhante. O tempo passava sem que eu percebesse o barulho do mar, o ruído do vento e a intranquilidade das ondas, e sem que eu notasse a labareda de dois sóis que despontavam no horizonte. Eram exatamente do mesmo tamanho, um azul e o outro completamente vermelho, e uma incrível quantidade de borboletas se dirigia para lá. Os pássaros voavam de cabeça para baixo, e milhares de peixes saltavam à superfície do mar. Das nuvens, começaram a cair muitas flores pequeninas como gotas e a praia de repente ficou repleta de pessoas. Um disco-voador apareceu, e todas as crianças cantavam. Um barco a vela chegou, vindo não sei de onde, com uma tribo de índios tatuados. Vênus e saturno se aproximaram tanto, que pareciam verdadeiros milagres, e muitas mulheres deram a luz, ali mesmo. A água se tornou transparente enquanto dez arco-íris se cruzaram no espaço.
Certo dia, durante alguns momentos em que eu descansava de uma batalha, um guerreiro estava deitado olhando para o céu azul, quando viu que no horizonte apareciam diversas nuvens, que lentamente caminhavam em sua direção. Quando elas estavam mais próximas, pôde ele perceber que eram muito brancas, e que seus contornos representavam exatamente as formas humanas, incrivelmente aumentadas do seu tamanho natural, e quando chegaram bem perto do lugar em que estava, as nuvens começaram a contornar uma montanha que havia ali, e como se fossem verdadeiros homens e mulheres, se acomodaram pela encosta do monte como se estivessem descansando de uma longa jornada, pois várias delas se sentaram, enquanto outras ficaram em pé com as mãos na cintura ou com os braços cruzados. Como o tamanho dessas nuvens era muito grande, as partes que representavam as suas pernas, os seus braços e os seus maxilares, moviam-se vagarosamente, como é na realidade o movimento das nuvens, mas entretanto, era possível notar-se que entre elas havia uma conversa muito animada, devido aos gestos amplos que faziam, sendo até muito provável, que estivessem sentadas lá no alto da montanha, com a finalidade de assistirem as pessoas que combatiam em baixo. Depois de já estarem uma meia hora acomodadas naquele local, uma forte ventania as surpreendeu e fez com que todas aquelas figuras se levantassem apressadamente e continuassem o seu caminho pelo céu afora, até que em poucos minutos desaparecessem completamente, sem nunca mais retornarem àquele lugar." Texto de Roberto Magalhães
publicado na Revista GAM |