SONHOS
"Certo
dia eu tive um sonho. Um dos mais espetaculares sonhos
que eu já tive em minha vida. Durante o sonho, eu vi à
beira de um penhaco, um objeto que flutuava no espaço,
sem contornos e de um colorido que não existe,
silêncioso como um fantasma na mais estrelada das
noites. Esse objeto, essas formas, essas cores que não
fazem parte deste mundo, são meus, porque eu sei como
eles são, e ninguém mais. São meus, porque eu não
posso explicar, nem que desenhasse o que vi, como é um
objeto sem contorno e como são as cores fora do
espectro. São meus, porque nunca ninguém irá ter a
mesma visão que eu tive. São meus, porque eu não posso
explicar como é um objeto de indescritível beleza, que
contenha todas as verdades filosóficas do Universo, um
objeto único como a Verdade, imutável, eterno, mágico
e esotérico como um Pantacle."
Enquanto eu esperava a condução , um fato curiosíssimo aconteceu. O chão abriu-se de repente numa grande fenda, e de lá começou a sair uma quantidade de pequeninos soldados de rara mobilidade, vestidos com uniformes azuis. Suas armas eram pequeninas mas parecidas com as nossas e imediatamente ocuparam um posto de gasolina que ficava na esquina próxima. Correndo rapidamente como abelhas para todos os cantos, realizavam o seu trabalho de ocupação com notável segurança, como se já soubessem há muito tempo o que deveriam fazer, mas passavam perto de mim sem mesmo notarem minha presença, o que me deixava perplexo, pois todas as pessoas que estavam imediações, foram aprisionadas. Continuei então calmamente a assistir o espetáculo, imóvel, para que assim pudesse ficar ali indefinidamente. Alguns minutos se passavam e e da fenda profunda continuavam a sair os pequeninos soldados, como se a quantidade deles fosse inesgotável. Resolvi então me aproximar do buraco e perguntar a um deles, o que significava aquela invasão, e assim fiz. Segurei um daqueles minúsculos homenzinhos pela manga do paletó e perguntei: "- Que fazem aqui?" E ele me disse: "- Nada".
"O cavalo em que eu estava, corria tanto, que parecia ter descoberto que a velocidade é a única forma de superar o Tempo. A correria era tão grande, que precisava segurar com muita força a crina de seu pescoço, enquanto o vento assobiava na haste dos meus óculos e repuxava tanto os meus cabelos, que até mesmo já estava com o couro cabeludo quase sem nenhum deles. Na minha testa, vários pequeninos insetos ficavam grudados, mortos, depois de terem sido atropelados. A minha roupa se rasgava, porque não tinha suficiente resistência para continuar em seu lugar, e os dias e as noites se revezavam a cada instante, como se o mundo fosse do tamanho de uma bola de ping-pong. A paisagem que me cercava, vista na velocidade em que ia, se tornou uma massa branca, já que todas as cores ali estavam reunidas, e os rios, os lagos e os mares eram atravessados num pequeno salto. Eu e o meu cavalo atravessamos distâncias que não podemos jamais calcular quais foram, pois o animal procurava localizar uma árvore estranha, que só ele sabia onde estava. Lá chegando, parou à sombra dela e com a boca apanhou um fruto bizarro que pendia solitário, engolindo-o sem mastigar. Um minuto se passou no maior silêncio, na maior imobilidade e então senti um forte baque nas paredes de sua barriga, como se o estranho fruto lá dentro tivesse explodido. Desci do meu cavalo e ele deitou-se, coisa que raramente acontecia. Revirou os olhos enquanto da sua boca, do seu nariz e das suas orelhas desprendia-se uma espessa fumaça alaranjada." Revista GAM - Galeria de Arte Moderna, número 18, 1969
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