Introdução

São Estes é o título da instalação. É o que basta para nomeá-la, sem elucidar ou classificar, longe de qualquer metáfora ou símbolo. O trabalho utiliza a repetição da ação do gesto. Gesto que, por ser natureza, não se repete. No igual há o diferente. "Coisas": rolinhos, bolinhas, produtos das primeiras ações da repetição do gesto sobre a argila úmida - a terra ocupam a instalação. Estas igualdades/diferenças acumulam-se no corpo da obra. Aí, a forma (a bolinha, ou rolinho) dinamicamente, lado a lado, se afirma e se anula na procura de uma identificação que nunca se conclui, forçando assim a uma nova ação do gesto a sustentar o desejo. Ao infinito, estica-se o tempo, na possibilidade de retomada do trabalho. Trata-se de uma obra em aberto, trabalho não concluído, armazenamento de entropia - energia gasta na prazerosa fadiga - transbordante de afeição, de pulsões e onde a natureza habita: a do elemento modelado e a minha.

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Diante estamos do fazer contínuo, da "mão criadora autônoma e, por isso, feliz, que sonha seus próprios sonhos e escapa à tirania da visão, enfrenta os desafios concretos do mundo concreto, levada pela vontade do poder, pelo poder da vontade"1. Nessa direção, seguindo o regozijar da "mão que faz", percebemos que, para esta o tempo não conta. Só valoriza o Princípio como fundamento do fazer. Perante essas laboriosas jornadas, desperta a nossa memória coletiva do trabalho, recuperando aquelas ações perdidas: o fazer cotidiano, logo esquecido. Também, relembramos que foi operando que o homem construiu suas culturas. Finalmente, aqui está a bancada/estante, onde se amassa, se estica a argila, apresentada. O espectador, analogamente, poderá encontrar a "pasta" (massa) posta a secar. Contudo, não foi este o propósito, sendo o trabalho o que é: formas básicas - argila modelada. A água evapora, aos poucos. Segue sua transformação a matéria: endurece, pó volta a ser. Um novo e promissor cicio se anuncia: adicionada a água, temos nova massa a ser trabalhada, a ser acrescentada. O tempo se mantém - a vida se afirma.

Anna Maria Maiolino, 18 de maio de 1998

1 Pessanaha, José Américo Motta,
in Bachelard e Monet: o Olho e a Mão