Todos esses
objetos têm a marca da mão. É a mão que faz, modela, compacta, aperta, amassa, estica.
A mão faz, é o molde. Em geral, tudo que a mão realiza no dia-a-dia tende a desaparecer
sem nos darmos conta. Até mesmo no próprio momento em que agimos. Ela age e nos
esquecemos aquilo que ela toca, apanha, pega, puxa, entre tantas outras ações. De alguma
maneira, esses objetos de argila de Anna Maria Maiolino podem muito bem representar o
somatório das ações cotidianas que a mão realiza desmemoriadamente. São testemunhos
concretos do fazer rotineiro que costuma dissiparse sem registro. Em cada um deles está
presente o tempo e a ação necessária para a sua realização. Eles merecem literalmente
o nome que designa genericamente o objeto de arte: trabalho.
Na sociedade industrial
moderna, a repetição está associada à divisão social do trabalho e à alienação. O
trabalho repetitivo domina os indivíduos sem que eles sejam capazes de totalizar o seu
sentido. Suas ações permanecem sempre um fragmento desarticulado. Esta situação
universal também tende a impregnar o cotidiano, tornando-o cada vez mais mecânico e
programado. Daí, freqüentemente, não nos darmos conta das mãos e das ações. Elas
parecem ter adquirido uma independência que as coloca, em última instância, além da
consciência. Tornam-se meros instrumentos operativos e especializados. Por exemplo: é
com uma surpresa indignada, como se fosse uma irresponsabilidade das mãos, que hoje
quebramos alguma coisa. Quebrar algo não faz parte do cotidiano. É uma falha lamentável
na nossa cadeia operacional.
De alguma maneira
esses objetos de argila de Anna Maria Maiolino implicam, de maneira inversa, a energia que
irrompe no ato imotivado de que~ brar. As ações de força, talvez até desmesuradas para
os atos rotineiros, é investida na compactação, na substancialização de uma
seqüência de gestos que se repetem e onde as ações rompem com as intensidades
niveladas do cotidiano. Essas formas compactas resultam da repetição de gestos simples
que, apesar de executados por uma pessoa, a artista, trazem a presença de muitos, do
coletivo. Lembram tarefas arcaicas e elementares, extremamente significativas e tão
afastadas dos dias de hoje: a preparação do elemento construtivo e do alimento. Tarefas
e trabalhos inaugurais.
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Esses produtos marcam a instauração
de um mundo, a separação entre natureza e cultura. Surgem das possibilidades de um mesmo
gesto, de uma mesma operação, facilmente transmissível como os sons de uma linguagem
que se inicia. Encontramos, então, o sentido originário da repetição. Poderíamos
estar diante de uma experiência antropológica, ou melhor, de um ato antropológico
experimental, se fosse possível reviver agora aquele momentos fundamentais, não como a
faculdade do intelecto na sua pleni tude, mas nos simples gestos manuais, na apreensão
inicial da matéria e n sua transformação significativa.Momentos de espanto, de
realização e comu nicação, da construção do artefato que nos distingue e
humaniza.Surge um primeiro conceito em forma de matéria, um conceito-argila concreto,
tátil instituído por nós mesmos e, portanto, distinto da natureza. |
E também - por que não? - uma forma de
linguagem, um objeto linguagem, codicilii, unidades matérias de comunicação, de troca
de significados.
Se esses objetos lembram também a forma do elemento
construtivo, do alimento e da linguagem, também identificam os primeiros desejos d
estabilidade e fixação. Projetam uma coletividade estabelecida, uma comu nidade. Não
seriam, então, objetos orgânicos, mas sim objetos vitais. Repetidos e reproduzidos para
atender ao apelo de muitos, de todos sem exceção, daqueles de agora e dos que virão.
O apelo
comunitário que eles ensejam implica a distribuição do objeto, ele mesmo também uma
pedagogia. Transmitem um saber imediato incorporado. São moldes para ações vitais da
comunidade, dádivas. Fundamentalmente coletivos, transparecem um fazer que incita à
tatilidade, a sentir as coisas com a mão: dureza, textura, redondeza, peso, volume.
Moldado pela mão, o informe torna-se forma estabilizada. Um outro reiacional ao corpo
aparece neste instante. Talvez a metáfora da Criação a partir do barro não seja aqui
imprópria. De alguma maneira esses objetos são também gerados pelo corpo, devem sua
existência ao corpo. São gerados no corpo.
A primeira impressão poderia suscitar a enganosa
imagem de estarmos próximo da sensibilidade minimal. De fato, a repetição é um dos
procedimentos estruturais desse trabalho e da "minimai art". Ambos pretendem
estar no espaço real, não ilusório. Certamente, esses objetos não possuem a escala
industrial e urbana que caracteriza a "minimai". Ao contrário, parecem
pertencer a um espaço comunitário, tradicional, pré-urbano, onde o trabalho manual
domina e a máquina está ausente. Isso poderia sugerir imediatamente uma leitura
culturalista circunscrevendo o trabalho ao ambiente do Terceiro Mundo, periférico e
subdesenvolvido. De fato, esta é a sua situação local. Mas será esta a sua
perspectiva. A crise da universalidade moderna produzida pela arte pop parece ter colocado
na ordem do dia a legitimidade e a efetividade dos valores culturais autóctones, assim
como uma percepção do poder emancipatório do projeto moderno como forma de dominação.
Voltar ao mundo pré-industrial e às suas formas de vida e trabalho indicaria um desejo
de libertação e relativização dos valores universais. Creio que nada poderia estar
mais distante do trabalho de Anna Maria Maiolino.
A busca de
experiências vivenciais pré-modernas e pré-industriais não pretende desqualificar
utopicamente a vida contemporânea, apenas demonstrar sua unilateralidade. Nisso reside a
atualidade desses objetos de argila aparentemente tão arcaicos. A experiência e o
pensamento neles incorporados não pertencem a uma cultura específica e localizada,
exprimem valores comuns, cotidianos e universais. Poderíamos dizer que são objetos de
uma "minimai íntima", uma "minimai" onde a escala do corpo e de suas
ações ainda prevalece sobre a escala urbana das metrópoles e dos meios modernos de
comunicação. No mundo dos objetos de Anna Maria Maiolino vale o contato, a proximidade,
o estar-junto. Nada disso contradiz o mundo urbano contemporâneo, antes revela uma de
suas escalas, tal como a "minimai" revela outra.
O estar-junto de Anna Maria Maiolino se manifesta
através do gesto. Seus objetos também demonstram uma certa inexpressividade, assim como
a "minimai", mas logo se vê que esta é determinada pela contenção, ou
melhor, pela concentração.
Não é uma
gestualidade em expansão que caracteriza esses artefatos de argila; ao contrário, eles
se pretendem núcleos compactos pela acumulação da força gestual, pelo esforço de
conter a expansão e a dispersão: o gesto se impõe concentrado. Aí se encontra a
presença de Lucio Fontana, presença que não é recente. Fontana, no Concetto Spaziale,
também procurava romper com o espaço ilusório: a concentração pontual da incisão na
tela. Aqui, procura-se uma via similar e, no entanto, oposta, não através do gesto
cortante e revelado, mas também por uma concentração, só que de gestos sucessivos,
buscando introjetar o gesto na matéria. O espaço aparece assim como algo saturado ao
máximo e esgotado: o espaço saturado de espaço, prenhe de espaço.
Agora, aparecendo dispostos sobre uma superfície
plana, uma mesa, os objetos de Anna Maria Maiolino evidenciam ainda mais sua vocação
comunitária, do compartilhar. Poder-se-ia usar, de uma forma modificada, o belo títuo e
Pirandello que a artista deu a um de seus trabalhos: mesa para um, nenhum, cem mil.
Texto do catálogo da mostra itinerante
lnside the Visibie, cortesia da editora, M. Catherine de Zegher, diretora da Kanaal Art
Foundation, Kortrijk, Bélgica.