Introdução
O ETERNO INQUIETO
Ronaldo Brito
As últimas telas de
Iberê Camargo assustam e encantam, ao mesmo tempo. Assustam pela sobriedade terrível com
que põem em evidência o drama do sujeito moderno, aparentemente no estágio final de
dissolução; encantam pela qualidade da matéria pictórica que resistiria,
paradoxalmente, a todas as violências e degradações. Diante do presente incerto e
conturbado, frente à dúvida "nuclear" quanto ao futuro do mundo, a resposta do
artista é urgente:
Os seus gestos decididos e abruptos se precipitam
e incrustam imediatamente na superfície da tela e criam espaço denso, calcinado,
intensamente pessoal e singular. Massa de energia, quantum imponderável de real, em meio
à diluição generalizada. A rigor, essas pinturas não se oferecem à contemplação e
sim à absorção. A começar pela escala enorme, elas existem para serem experimentadas,
pelos poros, com o corpo todo.
Mas a atualidade premente das telas o seu
impacto quase brutal deriva também do caráter lento e destilado da técnica de
Iberê, da tradição moderna que resgata e repotencializa. A exuberante matéria
pictórica garantiria assim, no cotidiano instável e anódino, uma identidade
transcendental. E reafirmaria aquilo que a volátil sociedade de consumo prefere ignorar:
a ação inteligente do tempo, o peso de verdade do tempo, a rotina de trabalho capaz de
tornar atraentes essas tintas, capaz de assegurar a gestos tão intempestivos a certeza de
não errar, não conseguir mais errar.
Sem dúvida um trabalho como o de Iberê Camargo compreende uma
ascese com fortes conotações éticas. Esta é uma característica do expressionismo
desde Van Gogh. Nessa modalidade latina de expressionismo, porém, estão curiosamente
ausentes dois outros impulsos básicos do expressionismo nórdico, flamengo ou germânico
a religiosidade e a imaginação. Contra a dissipação dos valores, a iniquidade
da vida, Iberê não propõe um mito de redenção, tampouco recorre à liberação do
imaginário.
Justamente parece se aferrar à simplicidade e
casualidade diárias e recusar tudo o que estiver for a do alcance das mãos e dos olhos.
Para transfigurá-las, é claro. Quase como se a tarefa do pintor fosse a de salvar o
momento íntegro, o instante vivo , do fluxo de irrealidade corrente. Por isso talvez a
inesperada participação, neste universo trágico, de humores diversos e irreverentes, as
ironias e os sarcasmos eventuais, a aceitação do ridículo enfim. O pathos seria,
a meu ver, incontestavelmente expressionista: só a atividade transcendental do Eu
sustenta o mundo enquanto tal.
O "método do improviso", contudo,
remontaria muito mais a Picasso sente-se logo que o ato da pintura prevalece sobre
temas e sentimentos e não pode haver distância entre pintor e quadro. Vendo as novas
telas, também fica quase impossível não associá-las aos retratos de Giacometti (outro
latino, suíço-italiano). Aí comparece a mesma atenção obsessiva à erosão do tempo,
a mesma impregnação dos traços e vestígios da vida. Em ambos sobretudo brilha a luz
mortal do homem.
Com a existência comum vazia e insípida, venal e
banal, a realidade da morte assume um caráter positivo, transforma-se até numa fonte
paradoxal de vitalidade. E se, como disse o artista, o seu quadro é um diálogo com a
morte, creio que uma das surpresas da exposição é a energia extraordinária que
irradia. É necessário acrescentar, seguindo o paralelo, como as figuras recentes de
Iberê resultam de um processo de dilapidação ainda mais drástico do que as de
Giacometti dos anos 50 o curto-circuito de figura-e-fundo é mais patente, a
aproximação da superfície mais "perigosa".
E o que é sintomático: a interiorização das figuras dos anos 80
acaba ainda mais residual. Encontro nessas telas a espécie de tensão que me parece
imprescindível a toda grande arte. Algo que não deveria dar certo e dá - calcados na
matéria espessa e resistente, remexida e remoída, aparecem exatamente gestos dispersos e
fugazes, autênticos flagrantes daquele movimento que Hegel considerava próprio do homem
a pura inquietude de vida.
Ronaldo Brito
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