Introdução
A obra de arte deve falar por si. É uma
redundância o artista buscar por outros meios a não ser através de sua obra definir sua
mensagem plástica e sua proposição. Ela tem, como a música, o seu mundo e a sua
linguagem própria e autônoma.
Arcangelo
Ianelli
Não é mais mostrar as formas do mundo
ou do sonho,
da natureza ou da imaginação.
Não é mais figurar, descrever, representar, narrar, aludir.
Não há alusão.
Nem tampouco ênfase, orquestração
das dissonâncias,
dos conflitos de formas e cores.
Não há conflitos.
Pintar, para Arcangelo Ianelli agora é
suscitar o surgimento da cor.
Fazer silêncio e deixar que ela (a cor) imerja
nele - do cerne dele - densa, luminosa.
Vinda do fundo da sombra, a cor
trêmula tênue
como frágil aparição
que fosse se apagar em seguida
Mas não: essa fragilidade é parte essencial
da aparição
como a chama que bruxuleia - por ser chama -
mas se mantém viva e ardente.
Pintar para Ianelli agora é mostrar
a cor como pura adoração.
1991 - Ferreira
Gullar
Filho de imigrantes
italianos, Ianelli nasceu em São Paulo. Não foi, propriamente, uma vocação precoce -
embora na escola primária os professores já o mandassem desenhar no quadro negro os
exercícios que os demais alunos deviam copiar: ( em troca, podia deixar logo a sala e ir
jogar bola, sua grande paixão). Começou a pintar em meados dos anos 40, em grupos que
saíam romanticamente com cavaletes a tiracolo para retratar os arredores de São Paulo.
Essa pintura figurativa e basicamente autodidata começa a adquirir uma linguagem própria
no finalzinho da década. As composições são nítidas, despojadas e de delicado
colorido. Já no jovem Ianelli, portanto, não há nenhum grito: só música de câmara. E
a década de 50 é a decisiva em sua evolução. Por força de sua própria dinâmica
intrínseca, a figuração se geometriza e se encaminha. O percurso de Ianelli - que neste
ponto lembra o de Volpi - foi linear e progressivo, sem ziguezagues nem sobressaltos. Em
1960, ele pinta naturezas-mortas que contém antecipações de sua obra nos anos 70 e 80.
Alguns detalhes, ampliados, fornecem exatamente as estruturas ortogonais, os quadrados e
retângulos superpostos, da fase posterior rigorosamente geométrica, a mais conhecida.
1991 - Olivio Tavares de
Araújo
|