Introdução

Nada direi, propriamente, sobre Milton Dacosta, pintor maior. Não me deixaria, porém, ficar sem tocar no assunto, ainda, que em caráter paralelo. E se me calo sobre o autor é por respeito a ele e à profissionalidade, de quem escreve sobre a obra.

 

A experiência no convívio da cultura, me exige ao menos um testemunho. Nada definitivo. Feito para discussão. Gostaria se, também, para a reflexão. De início repito Walter Benjamin, citado por Marilena Chauí: "Não há um único documento de cultura, que não seja, também, um documento de barbárie.

 

E a mesma barbárie que o afeta, também, afeta o processo de sua transmissão de mão em mão". Está implícita nessa frase, a possibilidade de uma cultura do povo, em contraste com o autoritarismo das elites. Elite significaria segregação e afirmação de um padrão cultural único! Se admitirmos, em, sentido não marxista, que a ideologia é uma representação do real, com uma composição de normas sobre o social, entendida como o coletivo, é de admitir, sem poder aprofundar, que exista uma ideologia ou diversas ideologias do povo.

 

Arte, seria nesse sentido uma representação do popular no sentido genérico, do nacional, do universal, ou do regional, do partidário, como expressão verdadeira de segmento, engajado ou não.

E o que é a elite numa sociedade multiforme como a nossa: o poder do dinheiro, ou de se manter com o aparato social estatal? Mas qual a afirmação unificadora dessa elite?

 

 

Recordo-me de que na minha infância, havia entre nós, uma confeitaria Elite em que se ingressava com duas condições: dinheiro e uma certa capacidade de manter a polidez exterior. No sentido asiático ou teológico ( vide Auguste Comte), do termo parece que ela existiu em outras sociedades. Mas, nunca entre nós! Na sociedade pluriforme e sujeita às nossas contradições, a única coisa mesmo, a unificar a elite, seria declarar-se elite.

 

Isto, se se tem em vista, o fato de que, os homens que se poderiam chamar elite, se ligaram ao povo. Digo tudo isto, no sentido de que Beethoven é cultura popular. Picasso, também. De onde entendo, que entre nós, a expressão elite é uma mistificação. O que existe no grupo dominante, indevidamente identificado, como elite, é o estímulo à arte oficial. Esta, nada pode, nem quer dizer. É, apenas, asfixia, esclerose, desonestidade, aplaudida por conveniência.

 

Cria pseudo-arte e literatura de algodão. Parece próprio colocar estes conceitos em discussão, quando, apresentamos um verdadeiro artista. O verdadeiro artista traduz consciente ou inconscientemente uma cosmovisão, tanto mais aberta, quanto verdadeira.

 

As pessoas que, indevidamente, aqui se dizem de elite confundem o espontâneo e o popular, com o vulgar. Suspeita de vulgar é apenas a arte oficial, de que possuímos alguns exemplos, em nosso século. A impulsão criadora, nasce da cultura popular, rebuscada ou não. É preciso dizer isto, quando me cansei de ver pessoas trocarem olhares de compreensão, como se pertencessem a alguma elite.

 

 

A pseudo-elite traz consigo uma categoria traidora: para existir precisaria se autonegar, se desmantelar. Pois vivendo de preconceito, que é a opinião não raciocinada, deveria voltar à única fonte de cultura: a arte popular. Acho que, Machado de Assis repetiu, que arte é tanto mais arte, quanto mais universal. E daí vem Dacosta trabalhado por toda uma equipe, de que foi regente Cesar Luis Pires de Mello. Sempre presente à ação. Ele, Cesar Luis que tem um recado a dar, um recado a esse artista, popular, como Miró, Degas, Brancusi, Brecheret.

Luiz Antonio Seráphico de Assis Carvalho