IOGA
DIGITAL O objetivo é conceber, filmar, gravar, sonorizar e editar uma obra de arte eletrônica por dia, no espaço de um ano, mostrando, à sombra da disciplina, a experiência de estar na cidade. Novamente, on the road. Para mais um projeto cuja aparência é ser uma aventura experimental da forma. Ao menos é assim que ele é designado pelos amigos e principalmente pelos inimigos. O projeto se chama Rio 360 Graus, e faz parte do programa de bolsas RioArte. Trata-se de uma pequena "missão impossível": realizar, no espaço de um ano, nada mais, nada menos que 360 vídeos, puras espécies de arte eletrônica, sôbre a experiência de estar no Rio, à razão de um trabalho completo por dia. Concebido, filmado, gravado, musicado, sonorizado, editado, no espaço de um dia. O vídeo daquele dia, utilizando a linguagem sugerida pelos acasos daquele dia. E depois desse vídeo, o vídeo do dia seguinte, e assim por diante, num recomeço a cada dia, até que se feche o círculo de 360 graus do ano carioca. A cadavídeo, um grau. À sombra do projeto, o autor se ergue nas patas traseiras em estado de permanente tensão. À sombra da disciplina da obra diária, o autor vai realizar sua verdadeira ioga digital. Se o estado atual da tecnologia permite a constituição de equipes de uma só pessoa, tornando todas as operações técnicas ao alcance de um único artista eletrônico, o perigo está em não conseguirmos melhorar o rendimento da nossa capacidade cerebral, levemente idiotizados pelo fascínio das máquinas. Máquinas que são concebidas por engenheiros, atendendo a uma leitura de engenheiros das necessidades dos artistas. Máquinas da forma que satisfazem as inquietações de moços bem comportados. Em nosso trabalho, não se trata mais de experimentar com a forma, de encontrar apenas novas linguagens, novas maneiras de dizer, novas estruturas de aparência ou de resolver questões acontecidas no dimínio da pura estética. Mas de experimentar com a própria experiência, fazer com que da experiência daquele dia, da série de acasos reunidos naquele dia, se possa encontrar para a tecnologia um uso expandido e, ao mesmo tempo, integrado, implantado na carne e no espírito. Será a atenção voltada para a experiência pessoal que levará à designação de um novo uso para a máquina. O Rio é o grande estúdio e o promotor da grande máquina, provocando a idéia de multiplicidade. O artista eletrônico penetra. A máquina de gravação estará implantada ao lado, em permanente acompanhamento. Uma parte da nossa atenção à experiência de estar no Rio será determinada pela atenção que daremos às possibilidades da máquina naquele instante. É um projeto vago, sem tema, sem assunto, sem objeto, sem objetivo. Comme il fau na arte eletrônica. Estamos trabalhando, mas, a cada momento, é preciso descobrir e redescobrir em que se está trabalhando. Tudo o mais é aberto. Um vídeo poderá ter um segundo de duração ou duas horas, ser composto de um hiperclose da pele que recobre nosso lábio ou registrar em tempo real uma luta livre. A captura poderá vir de câmeras de vigilância, de máquinas de tomografia computadorizada, de espectroscopias variadas ou aparelhos de fax. O círculo é aberto. A exigência está no espaço geográfico e no espaço interno do corpo biológico. O importante é o dia enquanto unidade de recomeço. A cada despertar, uma tela em branco pedindo um preenchimento. A incógnita do dia, a aventura da experiência. O material recolhido passa para o interor do Power Mac, onde é editado. Pelo mesmo artista, no cansaço do seu dia. Na linguagem do seu total descomprometimento. Em casa. E ali se cria a música, se manipulam os sons, o artista como centro da circunferência. Mixagens livres e radicais, ioga digital. Demonstração dos limites de um homem só, aposta pessoal, desafio ginástico, contra todos e cntra o fetichismo da tecnologia. O CONCEITO DE GRAU Não se tratam mais de vídeos no sentido tradicional. Vamos chamar cada uma dessas produções de graus, termo novo. Um grau, parte de um conjunto que é o círculo. Um grau pode implicar numa imagem isolada, retirada de um material bruto, para ser vista em si mesma. Um grau. Uma imagem que talvez não tivesse lugar num documentário, por ser longa demais, ou não editar com nada. Tudo pode ser transformado em mais um grau. Não se dirá mais fazer um vídeo, mas produzir um grau, ou acrescentar um grau. Muda a relação com a imagem, muda a forma de apresentação da imagem, e a relação com a idéia de obra. A arte eletrônica, em sua vertente ioga digital, transforma o artista em centro, (re)humano, que abre graus para o mundo. O artista organiza sua vivência para produzir graus. O projeto é de longa duração e se confundde com o tempo real da experiência. Tudo é um grau a mais que as máquinas digitais permitem gerar. Esses graus são parte de um arquivo. São reagrupados segundo vários critérios de classificação. Muitas vezes não são colhidos para serem vistos isoladamente. Os critérios de classificação são múltiplos: cor dominante, assunto, clima emocional, duração, gênero de kinguagem adotado, etc. Estamos ainda elaborando um sistema de tabulação que permita o acesso às informações. Grupo de graus podem formar programas especiais. Graus podem servir como base para instalações ambientais e até mesmo serem devolvidos como obra para os espaços públicos ou privados de onde saíram. Podemos estocar os graus em CD-ROM, onde serão acessados de forma não-linear, e combinados de tnro de princípios de games e lógicas especiais. Toda ioga é um conjunto de técnicas físicas e mentais para se atingir um estado superior do ser. Rio 360 Graus é a mais avançada ioga para enfrentar a melancolia das inovações digitais sem fim. O resto é efeito de diagramação da revista Wired. (AO). NOTAS DO CÉU...
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