5 TIPOS DE SEREIA
de Arthur Omar

Sobre a tábua de passar, a paisagem na neblina. Objetos, acidentes, dobraduras, em meio ao vapor glacial que dissolve os contornos. Branco sem limites.

De repente, um olho escancarado fuzila a borda da cena. Cores. Química. O grito globular do precipício. Aparecem as Sereias. Uma Sereia é uma Sereia. Mas existem 5 tipos diferentes de Sereias.

A primeira Sereia só existe adormecida. Sua mente flui no interior de estados paradoxais. Assistimos a um breve despertar da Sereia, sacudida por nossa presença. Abre os olhos lentamente. Mal atinge 60% de consciência, não resiste, e readormece. Voltando ao estado largo dos seus batimentos oceânicos, o que fica denunciado por um sorriso inconfundível. Uma pedra é atirada no centro do lago, e atinge o alvo. O êxtase é próprio corpo da Sereia, seu estado natural, sua matéria mais densa.

O céu escorre pelo rosto transparente, coberto pelo véu. O véu é o céu líquido. Um novo êxtase ilumina o rosto da Sereia, só que agora numa outra direção. Como se ela acompanhasse com os olhos a ascenção de uma rocha cheia de gas. Junto às pedras da paisagem, a água é vermelha, menstrual, estranha mina de urânio orgânico. O sonho goteja pelas reentrâncias de um imenso paredão.

A segunda Sereia opera num registro cerebral de semi-letargia, e seus olhos estão sempre semi-cerrados, nunca totalmente abertos, nem totalmente fechados, e com isso ela consegue ver, ao mesmo tempo, o que está dentro e o que está fora. Frequentemente se deixa hipnotizar pelo rítimo pendular das suas próprias substâncias, e então se torna a mestra das coisas altamente concentradas e poderosas que cabem no interior de um simples vidrinho. Relacionada a ela está uma espécie de gosma primordial nutritiva e compactada na forma de um fio que pende do seu corpo e que se renova a cada ciclo de Sereia. Esse fio, ela introduz numa máquina de costura especial cujo motor são os remos de um barco invisível.

A terceira Sereia utiliza as projeções do espelho sobre seu rosto para simular as quatro fases da lua, isto depois de ter estalado com as unhas cada dobra de sua cauda metálica. Por sua afinidade com o brilho dos metais e o polimento de superfícies refletoras, é a única Sereia que mantém os olhos totalmente abertos o tempo todo, o que nem sempre significa visão no sentido tradicional.

A quarta Sereia é a Sereia das pequenas dispersões e das coisas que fogem ao nosso toque quando as desejamos. Tudo à sua volta é espalhado e atirado em desordem. Gotas d’água, pérolas, grãos de areia, botões, resíduos variados. É a mestra de tudo que se espalha pelo chão e se perde, e que só pode ser reunido enquanto se engatinha por entre elas, catando uma a uma. Nada escapa dos seus olhos fechados nem da sua atenção flutuante, e não há bom esconderijo contra ela. Dentre todas as Sereias, é a que mais se cansa, porque sua atividade é muito detalhista, mas em compensação, é o único tipo de Sereia com a propriedade de repousar completamente de vez em quando.

A quinta Sereia é a ativadora do fogo, como se pode ver pela cor dos seus cabelos. É tomada por um fortíssimo desejo de deixar de ser Sereia, por isso, em geral, está sempre de costas para nós. Tudo nela entra em combustão quando se contempla no espelho. Por vezes, as chamas chegam a atingir as Sereias mais próximas, devorando seus objetos e atributos, fundindo uns sobre os outros. É uma Sereia essencialmente noturna, e, na sua intensidade máxima, se confunde com o cosmos estrelado. Com ela se fecha o círculo das Sereias.

NOTA: Este video é uma recriação da instauração "Há Sereias" criada e apresentada por Tunga durante desfile da coleção primavera-verão da M.Officer


VÍDEOS