MÁQUINA ZERO

Instalação de Arthur Omar apresentado no
Forum BHZ Vídeo. Belo Horizonte. 1995

por Ivana Bentes *

Prótese da visão e da memória. A máquina zero, de Arthur Omar é uma operação estética. Máquina em que se cruzam o visual e o digital, luz e dados. Dispositivo paradoxal em que um olho anestesiado dispara uma memória, arquivo digital. A visão neutralizada, calcinada, sofre uma série violenta de intervenções. Trabalhando com o limite e o intolerável da visão, Omar põe em cena um dispositivo traumático-poético. Tortura e deleite que inscreve na circunferência do olho _ ponto cego, grau zero da visão _toda uma série de atos violentas que marcam, ferem, interferem no olhar. Destruição do olho que culmina por reconstituí-lo totalmente.

Na passagem do visual ao digital, Omar trabalha os limites do ver e da memória. Experiência traumática, como a faca que corta o olho de Buñuel em O Cão Andaluz. Na versão de Omar, o olho do cinema é rasgado pela memória do computador. Uma memória real e virtual, pessoal e anônima, que dispara num instante de trauma. A crise, o trauma do visual que na cultura contemporânea passa pelo digital. Processamento de imagens, textos, dados, números, que constituem um novo paradigma para o visual.

A máquina de Omar converte luz em dados. Nem lembranças, nem imagens. O olho temporariamente anestesiado, necrosado, destituído pelo digital sofre uma intervenção. Dessa operação, da troca de lentes, do transplante, da mudança radical do hardware surgirá, talvez, uma nova visão. A máquina zero é uma espécie de enciclopédia digital da cultura visual contemporânea. Flashback, retroprojeção, máquina do tempo que recicla arquivos de todos os tipos.

A instalação de Omar é obra de um visionário cego, que se submete aos mais torturantes implantes e transplantes para descondicionar a visão. Soterrados por tantas imagens e clichês, é preciso romper o visual para extrair dele um novo pensamento. Para Omar, passamos por um momento de transição e transplante, da luz ao digital. E nesse momento radical, de passagem, o pior cego é aquele que quer ver.

*Ivana Bentes é doutora em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, crítica e pesquisadora de cinema e artes visuais, professora da Escola de Comunicação da UFRJ, autora de Joaquim Pedro de Andrade: a revolução intimista (Ed. Relume Dumará- RioArte. 1996) e Cartas ao Mundo. Glauber Rocha. (organização e introdução). Editora Companhia das Letras. 1997; é apresentadora do programa Curta-Brasil (TV Educativa) e co-editora de Cinemais: revista de cinema e outras questões audiovisuais.    VOLTA

 

 

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