INFERNO
video-instalação de Arthur Omar

Sinopse

No princípio era o fogo. Do fogo surgem as imagens. Um boi é esquartejado lentamente, num ritual sangrento de grande violência. Estranhos personagens carnavalescos e velhos filmes de familia são intercalados, compondo uma metáfora dionisíaca e arcaica do Brasil. O fogo a tudo consome e regenera. Carne vale: adeus à carne. O video é fogo. De olhar o fogo nasce a arte das figuras em movimento.

Descrição

Ao longo de 47 minutos, a tela se transforma numa fogueira primitiva, onde os espectadores reunidos vão observar a dança do seu inconsciente. O som deve ser colocado em volume máximo, para garantir a atenção hipnótica.

O fogo não abandona a tela nunca. De dentro do fogo surgem e desaparecem várias séries alternadas de imagens.

Primeira Série de Imagens. (Série Principal)

A série principal se refere ao ciclo da morte do boi, desde o seu abate até o a sua divisão em partes, filmadas como um grande ritual de sangue e violência, remetendo a evocações míticas e sacrificiais apesar do intenso realismo fotográfico. A ênfase é no jogo de formas e no impacto das cores. Progressivamente as formas se diluem e se confundem num torvelinho de impressões cromáticas.

O boi, antes compacto e denso, vai tendo sua forma desconstruida e desfeita progressivamente. Cada etapa, que dura poucos segundos ou minutos, é devorada pelo fogo, que volta a ocupar a totalidade da tela. Na etapa seguinte vamos sempre encontrar as formas num estágio mais avançado de dissolução, apontando para uma substância quase abstrata e arcaica.

Não se trata de uma violência negativa, mas construtiva, regeneradora, doadora e índice de vida. As marteladas atordoadoras no animal podem remeter às grandes percussões rituais que evocam o som original, e abrem os grandes espetáculos.

Segunda Série de Imagens

Outra série de imagens, que surge alternadamente, são cenas tomadas, originalmente em filme e já desbotadas, no Carnaval de rua de vinte e cinco anos atrás, e que fizeram parte do filme Triste Trópico de nossa autoria. Consumidas no fogo, remetem igualmente ao ritual dionisíaco que está na base do Carnaval, ritual esse que implica também numa dissolução de formas e identidades, com o jogo de máscaras e comportamento excessivo e vital.

Surgem figuras fantasiadas de indios, negros em atitudes paroxísticas, multidões anônimas, rostos estranhos como que saídos de um outro mundo, anjos e demônios de variadas caracterizações. O fogo a tudo consome ou talvez tudo isso seja atirado no fogo como que para formar uma nova matéria uma nova imagem.

Uma certa nostalgia se desprende dessa sucessão de tipos tão afastados do nosso quotidiano. Cabe observar que o significado original da palavra Carnaval é ‘adeus à carne’, carne vale em latim. Uma complexa, mas velada, rede de associações se forma no entrelaçamento com as imagens do matadouro.

Terceira Série de Imgens

Uma terceira série de imagens é composta por filmes de família feitos nos anos vinte e trinta por um cineasta amador, numa cidadezinha de Minas Gerais, no caso a própria família do autor deste video.

Vemos personagens antigos, avós, bisavós, e crianças, que hoje já seriam velhos. Muitos cumprimentam os espectadores com suavidade, olhando para a câmera. Inexoravelmente, entre uma imagem e outra, o fogo logo volta a ocupar a tela toda, criando um rítmo cíclico de sucessão cósmica e emocionante. Tudo termina com uma lenta dança de duas meninas dentro das chamas, unidas numa espécie de boda alquímica reconsiliatória, prenunciando ironicamente o reinícios dos ciclos de violência e repouso.

Para o autor do video, representa uma queima de memórias e de um passado que não perdoa.

Assim, temos o boi, o carnaval antigo e a linhagem familiar. O video opera no terreno livre da metáfora e das associações sem limites.

O Dispositivo

Os espectadores serão iluminados apenas pela luz crepitante do fogo nos monitores, recriando a sensação de uma comunidade primitiva reunida em torno da fogueira. Um video para ser visto em grupo. O olhar siderado pelas chamas, talvez a origem do cinema. O filme se forma no inconsciente.

Arthur Omar

INSTALAÇÕES