| VIAJANDO NA GRANULAÇÃO Quando o espectador se aproxima demasiado de uma fotografia da Antropologia da Face Gloriosa colocada na parede, começa a dissolução da compacidade da imagem. O rosto perde o contorno, os acidentes faciais já não são reconhecíveis, e então os grãos proliferam. As formas se degradam em manchas, e o que a foto oferece e sustenta agora é isso, zonas longas de puras texturas, feitas de matéria fotográfica granular. Turbilhões abstratos, espirais caóticas, de pura vibração. Se tivéssemos a capacidade visual, naquele momento, de nos aproximarmos mais ainda desses grãos, e isolarmos um a um, em escala microscópica, tenho certeza veríamos blocos de cinco, dez grãos semelhantes, agrupados, formando padrões, até atingirmos a visão ampliada de um único grão, do tamanho de uma foto da própria Antropologia da Face Gloriosa. Esse grão seria um novo tipo de face. Ou pelo menos é assim que veríamos as irregularidades superficiais da sua geografia, os seus acidentes, as suas reentrâncias, as suas imperfeições. Veríamos olhos, narizes, bocas, queixos, sobrancelhas, orelhas, testa, pêlos, pestanas. Pois a face é uma forma absolutamente pregnante em nossa mente. Ao ficarmos frente a frente com um grão, único e isolado, provavelmente nosso olhar projetaria essa configuração facial nas suas incongruências e torções espaciais. Então perceberíamos os grãos gloriosos que compõem a matéria. Mas isso já seria um outro nível de compreensão. Um materialismo fotográfico tomado ao pé da letra... |