
A FAMOSA VIAGEM À EUROPA (1970)
Em 1970, fui para a Europa, de carona e sem dinheiro. Bati três mil fotos
em Tri-X. Ao voltar, entrei no Quarto Escuro, apaguei a luz branca, acendi a luz de
segurança e só saí quando terminei de ampliar todas as três mil fotos. Quase uma
loucura de obsessão. Foto por foto, uma por uma, de negativos diferentes. Pode parecer
insano, mas fiz tudo isso de uma enfiada só, três mil 18 x 24 cm. Não sair do
Laboratório nem para comer. Mijar, eu mijava direto na pia. Uma prisão, um paraíso. Por
dois meses.
Eu nunca fazia contatos dos meus filmes. Só depois de adulto é que
comecei a usar cópias de contatos para saber o que havia nos negativos. Acabava de
revelar um filme e ia logo fazendo as ampliações de todas as imagens, ou quase todas.
Selecionando a partir de uma avaliação visual da imagem em negativo, eu tinha um treino
incrível nisso.

Esse material, depois de ampliado, não precisava nem ser mostrado para
ninguém. Só me interessava o que teria no próximo filme. Tudo ia se acumulando nas
caixas amarelas de papéis Kodabromide, número 3, brilhante, peso simples, sempre o
mesmo. Eram pilhas de caixas, verdadeiras colunas, com milhares de obras.
A Antropologia da Face Gloriosa, que está na Bienal, também foi criada assim. Por
acúmulo durante décadas. As fotos eram batidas e guardadas. Somente agora, 25 anos
depois de iniciado o ciclo, voltando para o material e olhando para ele com olhos de muita
estrada percorrida e de muito aprendizado que transformou a técnica de olhar, é que pude
ter a noção do que estive realizando.
Um trabalho de grandes proporções, um trabalho de coerência interna, um
trabalho inclusive que era um modelo conceitual para explicar minha atividade em diversas
outras áreas, como vídeo, cinema, música. E mais, um trabalho que tinha uma história,
que evoluía continuamente no tempo, que avançava regularmente em relação às etapas
anteriores.
Em suma, um trabalho orgânico, que acontecia em mim. A palavra é essa:
acontecia em mim. Porque tudo era realizado sem pensar, sem consciência de que
havia um trabalho operando ali.
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