O MÉTODO DA REVELAÇÃO POR MÚSICA

O MÉTODO DA REVELAÇÃO POR MÚSICA

Eu não revelei muita coisa. Aliás, quando revelo um filme, utilizo um procedimento muito especial, inventado por mim, que é a revelação por música. Qualquer tipo de filme fotográfico tem sempre um tempo de revelação recomendado pelo fabricante, um tipo de revelador e a temperatura dos banho, com um determinado número de agitações do tanque a intervalos regulares. Por exemplo: para o filme Tri-X, que é o único que eu uso em preto e branco há anos, deve-se aplicar o revelador D-76, a 20 graus, durante 8 minutos, com agitações de 5 segundos a cada 30 segundos. Um processo simples, corriqueiro, sem mistério, e que sempre dá certo.

Não obedeço a nenhum desses comandos. Não ponho na geladeira o revelador – a temperatura ideal, para mim, é sempre a ambiente. Se é verão, o revelador quente revela mais rápido o filme, aumentando o contraste e a granulação, produzindo negativos hiperdensos. Se é inverno, às vezes atingimos sem querer os 20 graus recomendados, ou sub-revelamos o filme, produzindo negativos suaves e transparentes.

Mas o importante é variar o tempo da revelação. Quanto mais tempo, mais denso fica o negativo, quanto menos tempo, menos denso. Eu quero uma densidade surpresa, e não uma densidade correta. Então comecei a dar o tempo de revelação seguindo a duração da música que eu estava ouvindo naquele momento. É a revelação por música. Que exige uma certa inspiração, uma certa improvisação na hora da revelação, para que seja escolhida a música certa.

Para mim, a palavra revelação, em fotografia, precisa ser tomada quase ao pé da letra. Deve se referir menos a uma idéia de revelação química que a de uma revelação, eu não diria transcendente, não chegaria a esse exagero... mas de algo menor, por exemplo, a revelação que nos vem da música. Aquela que obtemos quando estamos ouvindo música.

Coloco um CD no aparelho. Escolho uma faixa. Enquanto durar aquela música, o filme estará sendo revelado, no tanque com o revelador. Nem mais, nem menos. A escolha da música tem que seguir um desejo pessoal. Uma coisa subjetiva, Meio sem explicação. Um impulso do momento, determinado pelos mil motivos que atingem o revelador naquele momento, ou seja, o sujeito que revela o filme. A partir dessas escolhas, o fotógrafo estará se revelando também.

Assim, é a música que dita o tempo da revelação. Mas o efeito final tão estranho da Antropologia não pode ser determinado apenas pelo tempo da revelação. A influência da música talvez tenha a ver com algo que lembre os processos homeopáticos, onde, contra qualquer lógica, um meio líquido conserva a memória de uma substância que teria passado por ele, em escala infinitesimal e tão rarefeita, que nenhum instrumento científico conseguiria contar suas moléculas, dando-as por ausentes, e portanto o remédio como inócuo. Só que ele faz efeito.

Com a música, a vibração da música num ambiente, ou a combinação da música comigo, pode ser que ocorra o mesmo, durante o processo de revelação. Fisicamente falando, ela não poderia estar influindo no processo. No entanto, influi.

Às vezes, tenho vontade de ouvir uma música de dois minutos, às vezes, uma de vinte. Durante a revelação, realizo as necessárias agitações no tanque, segundo os compassos da composição, com pausas mais ou menos longas, onde apenas se ouve o som, sem mexer, etc.

Por exemplo, sempre obtive bons negativos com Ondines de Debussy. Embora eu nunca tenha tido uma relação muito positiva com o próprio Debussy, um compositor que quase não tenho vontade de ouvir. Estranho. Outro que funcionou bem foi Scarlatti, qualquer uma das sonatinas, executadas no piano ou no cravo.

Em geral, funcionam músicas de instrumentos solistas. A experiência demonstra que a música de orquestra não funciona, mesmo que ela tenha a mesma duração que uma ao piano que dá certo. Quando ponho uma peça orquestral para acompanhar a revelação, o resultado é sempre deplorável. Eis um mistério que ainda não consegui explicar. Certa vez, revelei um filme seguindo o tempo das Valquírias, de Richard Wagner. O resultado foi um negativo tão denso, tão intransparente que precisei de oito horas de exposição no ampliador para imprimir o papel. Saímos de casa, deixando o laboratório trancado, e a exposição se fazendo sozinha. Essa foto nunca mais será repetida, sendo cópia única. Ele está no livro e na exposição e se chama, curiosamente: A Fagulha É Movida a Silêncio.

 Estranha essa história do piano e da orquestra.

Talvez porque eu tenha sido criado ouvindo piano, e minha mãe detestava o som de orquestra. Talvez o piano funcione mais porque é percussivo, mais penetrante. O piano é um instrumento lógico. A orquestra trabalha com timbres, cores sonoras, distraindo a mente das relações musicais, que são em preto e branco. Veja o teclado, teclas pretas, teclas brancas, como os filmes em que eu trabalho. O piano é um instrumento neutro, uma espécie de ricota, pura substância, sem sabor, sem cheiro, sem forma, um misturador básico universal.

<<