PAISAGISMO DO ROSTO (MINHA NOÇÃO DE RETRATO)

PAISAGISMO DO ROSTO (MINHA NOÇÃO DE RETRATO)

Eu disse retratos. Mas a Antropologia não é uma coleção de retratos. Quando eu comecei, fotógrafo se chamava retratista, fotografia se chamava chapa, e retrato se chamava portrait, assim, em francês. Eu nunca quis ser fotógrafo, para não me tornar um retratista.

Essa palavra me evocava os porões do meu avô, estúdios escuros, fundos pintados, velas, toalhas de veludo, móveis de jacarandá envernizados, e dedos manchados de revelador. Somente quando descobri que se podia bater uma foto, em vez de fazer um retrato, é que pude aceitar participar dessa nobre confraria, e encarar um rosto de frente com a objetiva. Depois exagerei, me entregando apenas a isso.

O que apresento na Antropologia da Face Gloriosa não são retratos. São, digamos, trabalhos efetuados sobre o primeiro objeto que o ser humano vê na vida, e que programa toda a sua relação visual com a realidade. O rosto, o objeto por excelência, o objeto mais importante do planeta, um objeto do mundo que representa o próprio mundo, um objeto do mundo eleito como a sua expressão concentrada, e tratado, portanto, como paisagem.

Não sou um retratista, mas apenas um paisagista do rosto.

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