HISTÓRIA ARCAICA DA ANTROPOLOGIA

HISTÓRIA ARCAICA DA ANTROPOLOGIA

As cópias originais da Antropologia foram maiores, 30 x 40 cm. Na época, para mim, esse era o tamanho da arte, um grande formato. Fiz centenas delas e guardei. A primeira mostra pública foi no MAM do Rio, em 80 e alguma coisa (não me lembro bem, início da década), curiosamente 99 fotos, o mesmo número apresentado na Bienal.  

Passam-se anos, e volto a mostrar a Antropologia no MIS de São Paulo em 94. Agora com cópias em 50 x 60 cm. É como se eu estivesse evoluindo em tamanho. O MIS pagou o custo do papel e da química, eu entrei com o trabalho. Tudo no osso. Fiquei semanas com o Tuca no Laboratório do próprio museu realizando as cópias. Como eu não tenho muita paciência, no final, a gente estava revelando oito ou dez cópias ao mesmo tempo dentro da mesma banheira. Enfiando e tirando. As que amarelavam eram repetidas, e só. Não fiz rebaixamentos, nem efeitos especiais, nem máscaras, nem dodging. Só as fotos nuas e cruas, com pequenas intervenções na luz.

 Apesar do método todo errado, quase uma heresia, deu certíssimo. Teste de exposição, com tiras pequenas, só fiz nas primeiras cinco fotos. Depois a coisa engrenou e saía de primeira, por combate intuitivo. Eu colocava o papel no suporte, entrava em comunicação com a luz do ampliador e intuía a duração da exposição. A perda de papel virgem não passou dos dez por cento. Um recorde. No início, eu estranhei um pouco a suavidade do papel Gallery número 3, que eu não conhecia, e achei que o tom era um pouco quente para o meu objetivo de choque com os rostos do Antropologia. Era um papel bem acadêmico. Por um momento, cheguei mesmo a pensar em trocar esse papel de fibra por um resinado, mais plástico, mais cortante, mais óbvio, mais contrastado, mais brilhante, mais pop. Como já tínhamos comprado o lote todo do material, não pude fazer essa troca, que, na verdade, teria sido absurda.

O resultado é que a coleção apresentada no MIS, feita manualmente por mim mesmo, adquiriu uma qualidade e um jeitão único, que eu nunca mais repeti. Às vezes, acho que a verdadeira Antropologia da Face Gloriosa são essas fotos. Apenas essas. Estão guardadas numa caixa de papelão no meu escritório, 84 exemplares de tiragem única, irrepetíveis. No próximo milênio, os colecionadores vão disputar as fotos desse grupo, muito mais do que as grandes que vieram depois...

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