FIGURAÇÃO FÁLICA

Não trabalho com simbologias. Fugir das alusões fálicas é parte do meu treinamento diário de primeiros socorros semióticos. Uma ou outra cobra eventualmente pode ter escapado a essa higiene simbólica e enriquecido minha ficha criminal psicanalítica, à revelia. Quando aparecem, procuro decepá-las.

Cada vez mais me surpreendo com a primazia da figuração feminina no meu trabalho. A água, o mar, a nuvem, a fusão, o próprio túnel, a liquidez generalizada da imagem, os quadros que se derretem uns nos outros, o Carnaval como entrega e dissolução, um certo arrebatamento que não dá primazia nem aos contornos nem às formas, a universalidade da música, etc.

Se há o fálico em minha obra, ele não está representado nas figuras da imagem. Ele está do outro lado, na constituição da própria imagem, no olhar que organiza o movimento, no processo que movimenta a atenção. Eu gostaria que a minha imagem desencadeasse no espectador o avanço de uma atenção fálica. Meu deslocamento de câmera favorito é o travelling frontal, que penetra no ambiente, que rasga o espaço, e faz o olho avançar, quer ele queira, quer não. Acho que o centro da imagem é um aparelho de sucção violenta, ao qual, um dia, enviaremos, o olho em missão tripulada.

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