COMO FOTOGRAFAR O ÊXTASE - 2


COMO FOTOGRAFAR O ÊXTASE - 2

Se o êxtase é um estado diferente da consciência normal, como vamos conseguir detectar num rosto a sua passagem fulgurante? Como? Através do ato fotográfico. A olho nu, eu posso ficar olhando para você durante horas e não perceber absolutamente nada, e vice-versa.

Não há Antropologia da Face Gloriosa a olho nu.

Mas através do ato fotográfico, que é uma coisa que se dá a partir da relação com o mundo através da câmera, onde o sujeito se insere num tipo de temporalidade diferente, muitos fotógrafos podem se tornar eles próprios gloriosos. Pois é somente tornando-se gloriosos, ou seja, acedendo ao pequeno e fragmentário êxtase fotográfico, que eles podem entrar em fase, em vibração sincronizada, com a glória que está atravessando o rosto do outro, ou melhor, o ser mesmo do seu objeto, que ele não perceberia se não batesse no mesmo ritmo ou na mesma freqüência.

Assim, se alguém me perguntar como detectar isso, a resposta é sempre: sendo glorioso eu próprio naqueles instantes, onde a fotografia aconteceu.

Assim, ato fotográfico supõe um sair e um voltar, supõe um lado de lá e um lado de cá, e esse lado de cá é interior ao fotógrafo. Existe um aspecto ascético interno ao ato de fotografar, ao menos quando se trata de fazer Antropologia da Face Gloriosa. É uma ascese onde o sujeito, o fotógrafo, também se transforma. Não estou apenas captando. Para efetuar uma captação, preciso me transformar. Preciso sair de mim mesmo. É um processo de troca absolutamente permanente.

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