![]() AMPLIANDO COM SILVIO PINHATTI Para trabalhar com cópias de metro, é preciso afastar bastante o ampliador do papel. Gira-se noventa graus a cabeça projetora, e a lente aponta para a frente. Então havia aquela idéia planando no ar. A projeção dos rostos na parede, quase um cinema. O ampliador cada vez mais longe, como se estivéssemos penetrando mais e mais dentro do rosto, descobrindo tensões secretas. Ao mesmo tempo, aquela distância entre o negativo e a imagem, quase transformando a parede num céu estrelado em que a glória daquelas faces se realizava de repente. O tempo da exposição, marcado pelos bips do timer, era o tempo que elas tinham, marcadas para viver dentro daquele dispositivo ótico, uma luz acesa que joga a face ampliada a longa distância. As mãos de Silvio realizavam um balé erótico com a luz, na frente dos raios que o ampliador liberava. Criando zonas de sombra e zonas iluminadas, ora fechando com os dedos os olhos abertos da imagem, ora queimando as pontas do quadro e o espaço que sobrava em torno do rosto, protegendo cabelos, lábios, ou mesmo as gotículas de suor dos personagens. Foram horas mágicas. O rádio ligado na Cultura de São Paulo, Beethoven, jazz, músicas medievais, orientais, piano, sinfonias, experimentais. Tudo inspirando a improvisação e as mudanças de direção que aconteciam no movimento da produção das cópias. Uma aventura na escuridão vermelha em que estávamos mergulhados. Por vezes, as mãos do laboratorista eram como as mãos do ilusionista realizando o seu número. Nem sabíamos direito o que ele estava fazendo. Queima mais aqui, queima ali, protege acolá. Por vezes, eram como as do ator de um teatro de sombras, criando figuras na parede, que reagiam imediatamente com a sensibilidade do papel ali estirado.
|