FOTO DA SEMANA Nº 4

O PASTOR DE CINZAS
NUM ABISMO ILUMINADO

Essa se chama O Pastor de Cinzas num Abismo Iluminado. É uma daquelas fotos que quase foram jogadas fora, porque parecia danificada.

Uma foto densa, eu diria mesmo quase assustadora. Estava corroída por uma série de fungos, que quase devastaram o negativo. A ampliação saiu como que manchada, cheia de vazios estranhos. Formas brancas e arredondadas, como aquelas piscinas residenciais dos anos 60. Ao separá-la para o sacrifício, sem querer, coloquei-a na pilha das fotos selecionadas, e que iriam para retoque.

Sem que eu soubesse, ela foi parar nas mãos de um velho retoquista profissional, o sr. Constantino. Homem extraordinariamente concentrado no seu trabalho, quase um mago, Constantino reconstituiu todos os detalhes que haviam sido devorados pelos fungos, com extrema paciência, recolocando até mesmo grãos de prata que faltavam em certos trechos, criando uma das minhas fotos favoritas da coleção. De fato, para mim, ela é impressionante.

Pastor de Cinzas: nessa expressão cruzam-se vários tons da idéia de cinza. No Carnaval, as cinzas da quarta-feira, misturadas com as cinzas dos corpos consumidos, e as cinzas dos cigarros, e a própria densidade cinza da matéria fotográfica em preto e branco.

Pastor: pode ser o pastor do próprio corpo fotográfico. O degradê do cinza instantâneo, no caso, um conjunto de cinzas bem sombrio. Talvez os pedaços que faltavam na fotografia não tenham sido obra dos fungos, mas fragmentos desgarrados que escaparam à vigilância do pastor, e coube a Constantino, um novo pastor, trazê-los de volta ao rebanho.

Abismo Iluminado. Veja a sugestão de arquitetura e luzes que envolve o pastor de cinzas, o sério palhaço. Muitas vezes, a fotografia é isso, um abismo iluminado. Em fotografia, o que mais me atrai, em geral, são imagens de personagens de olhos fechados, ou olhos tão baixos que não conseguimos ver sua expressão. O abismo se torna algo indicado, interior, e todos os elementos convergem por sucção, ou por implosão delicada, para o que estaria sendo velado na massa cinzenta daquele ser.

Um xeque-mate na superfície.

ARTHUR OMAR

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