FOTO DA SEMANA Nº 2
NÃO TE VEJO COM A PUPILA, Esta foto é uma espécie de ponto de partida e um ponto de chegada do percurso das exposições que tenho feito com as faces gloriosas. É um auto-retrato, o único da série. Certa vez, me perguntaram: como surgiu o conceito de Faces Gloriosas? Resposta: como surgiu, eu não sei, mas este é o momento exato. Nesta foto, você tem o registro do meu rosto como ele estava no momento em que a idéia de criar a Antropologia de Face Gloriosa surgia na minha mente. Não tenho dúvida. Foi exatamente nesse instante, e ficou registrado. Foi alguma coisa física que eu fiz com o meu rosto, que disparou o conceito. Como documento de um processo de criação, é um fato inédito na história da fotografia... Mais que um auto-retrato, é quase um programa teórico do resto do trabalho. Repare de perto: há rachaduras. No negativo, talvez tenha havido algum processo místico-químico, devido à intensidade da experiência que acontecia comigo naquele momento, rachou todo. Assim como copos e espelhos se quebram em casas assombradas, o negativo dessa foto é como se tivesse passado por uma câmera assombrada. Rachou como se fosse de cristal. Olhando com atenção, você pode verificar as estrias no fundo da imagem. São uma prova de que a emulsão foi forçada, e depois corroída. Na parte de baixo da foto, podemos ver algumas manchas bastante estranhas, que não têm explicação lógica na física. Os céticos chamariam isso de fungos..., mas eu não sou céptico. Não me lembro o que sentia no momento. Só restou a foto. Temos a massa cinza da imagem, um cinza pesado e homogêneo. Nessa massa se destaca o branco dos olhos, que realcei quimicamente, no laboratório, passando uma solução de ferricianureto de potássio, um veneno fortíssimo. Foi estranho, eu com o algodão, esfregando uma substância corrosiva nos meus olhos revirados. Por um momento, isso me pareceu um ato violento, sádico. Se tivesse sido nos olhos de verdade, eu ficaria cego em um segundo. Sobre a foto, o veneno tinha a função de reavivar a sensação de êxtase. O branco dos olhos é o instrumento ótico para perceber a divindade. O título da foto veio de um poema:
Em todas as representações plásticas de místicos em êxtase, os olhos sempre aparecem revirados para cima. Aparentemente porque estariam em contato com realidades superiores, acima deles. Mas ao posar para esta foto, descobri algo mais. Na verdade, o que o místico faz ao virar os olhos para cima, não é olhar para Deus, mas vedar a sua pupila com as pálpebras, deixando aberto e solto no espaço o branco dos olhos, para que ele receba não apenas o que vem de cima, mas o que vem de todos os lados do cosmos. É isso que está representado aqui. Acapacidade de enxergar com o branco dos olhos. Seria esta uma experiência autêntica ou encenada? Talvez os dois. Todos nós passamos por esses estados. Passamos sem perceber, pois sendo eles tão breves, não chegam à consciência. Exteriormente, eu podia estar mentindo, mas por acaso, coincidindo com a verdade, sem saber. Ou não. Não há como garantir. Você mesma pode ter sido Buda há 15 minutos atrás, durante uma fração de segundos, um tempo tão breve que nem você mesma percebeu. Talvez todas as pessoas do mundo estejam atravessando, numa freqüência rapidíssima, esses estados, entrando e saindo, a toda hora. E não podem se dar conta disso. ARTHUR OMAR
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