ENTREVISTA (inédita) DE
ARTHUR OMAR sobre a instalação Silêncios do Brasil Guiomar A entrevista foi gravada, enquanto Omar apresentava trechos dessa Instalação, em sua casa. Mesmo sem termos uma compreensão completa do que Omar está falando, pois não estamos ouvindo a gravação a que ele refere, é interessante acompanhar a maneira como ele vivencia o trabalho com os sons, com as imagens-sonoras. Diferentes cantos de passarinho com percurssão eletrônica e som de pingo Arthur Omar - Aí não tem a montagem da floresta, é só a percurssão aplicada sobre. E são vozes naturais. O som de passarinho fica mais intenso Agora é um travelling misterioso...vozes, percurssão, tem índio, apito. Vozes de índios falando Tem todo um trabalho sobre a fala, sobre a síncope dessas vozes Som de vários violões sendo afinados Aqui tem a abertura das afinações e o cara não tá tocando nada só afinando Som de uma velha máquina de fiar Isso é um tear manual de tecer toalhas, no meio de um casebre em Goiás isolado na mata, uma velhinha de 80 anos Volta o som das violas sendo afinadas, agora quase ouvimos uma melodia Você entendeu, tem uma progressão, mas no fundo é um som abstrato e profundamente Brasil Som bem forte de passos Isso é o som de um cara caminhando, isso lá na apresentação dava a impressão que o cara tava caminhando no teto E as gotas aonde você pegou? A gota inicial é sampleada Som sampleado de uma gota O tempo vai se esgarçando Guiomar - Mas tem um som que vai dando dramaticidade no fundo? Nossa era uma loucura...as pessoas ficavam assim...porque ninguém sabia de onde estava vindo aquele troço, e aquilo (o local onde a instalação foi apresentada) é uma cúpula circular de 30 metros de altura. Junto com o som da gota entra voz grave de um índio que fala em língua desconhecida Omar: Isso é a voz do pajé, com aquele eco, aí está dry, está seco, sem efeitos... Entra um som bem grave Esse grave, aqui, não segura, mas lá era assustador, agora (o som se amplia e lembra som de trovão) as pessoas começavam a se afastar; ficou todo mundo em volta do negócio, foi quando começou o som da chuva. Entra som de chuva, de trovão, o som do pingo continua e agora ouvimos de novo a voz do índio que parece adquirir dramaticidade, em alguns momentos ouvimos também vozes de crianças ao longe. O pessoal ficava sem saber de onde vinha, porque o som era dividido em quatro canais, aqui tá normal, mas lá era quadrifônico, os auto-falantes eram colocados em cima, então o som caía ... que nem chuva. O impressionante é que, de forma expontânea, e sem se dar conta, apenas induzidas iconscientemente pela sugestão do som, as pessoas foram saindo do centro da rotunda do CCBB e se distribuindo junto às paredes, como se estivessem se protegendo de uma chuva real. De repente, eu vi isso, aquelas pessoas todas junto à parede, embaixo de uma marquise imaginária, ouvindo a chuva dos Silêncios do Brasil. Acho que foi um dos momentos mais emocionantes que já tive ao trabalhar com uma chuva invisível, uma resposta concreta, imentível do público, algo que se inscrevia naturalmente e objetivamente na postura que o corpo dele assumia, sem ele pensar sobre o que estava fazendo, era a obra agindo, a obra em ação, o trabalho do som. Canto típico da congada que Omar utilizou em seu vídeo Coroação de uma rainha. E a partir daí a coisa vai evoluindo ... e aí eu vou trabalhar com o silêncio, que é o que vem antes e depois da música, com as afinações, então você tem uma sequência de 15 a 20 minutos que é só afinação de viola, vou colocar, mas veja bem isso aqui é seco, lá, é molhado. Canto de um grupo de índios Aí tem música eletrônica misturada com a do índio ... mas era só um trecho, esta fita é toda montada, o original não segura mais do que 20 segundos. A percurssão é totalmente eletrônica, esse canto tem um look estranho ... Eu não tenho nada a ver com a idéia crítica, a idéia do exame, isso aí é uma coisa mais emocional, exame no sentido de você usar o som contra a imagem, no sentido de estabelecer um ... escuta agora ... começa a derrubada das árvores, ficava horas assim os caras derrubando... Quando você tava lá gravando você tinha uma sequência de sons, de temas que você queria gravar, ou você foi indo? Isso foi feito na emoção ... Som de derrubada de árvores Isso foi feito na emoção, era um quebra-cabeças, folhas grandes, quase uma tubulação sonora que você vai penetrando ... eu propus esse nome Silêncios do Brasil, porque tudo isso são silêncios, mas a parte principal você não ouviu que é a parte das afinações, o que vem antes e o que vem depois da música, é quando o cara que tá afinando tá quase chegando na corda, no som exato...escuta o machado, quase uma percurssão, completamente desconexa...eu nem tinha o sentido realista de remeter ao negócio é mais pela estranheza da sonoridade ... são 50min. você passa por mil mundos... Som de fogo trabalhado em sintetizador resultando em uma sonoridade apocalíptica Esse final, ele é todo um final mesmo, desde esses machados ... é quase elegíaco, é mortal, quase como uma devolução ao silêncio, você só ouve esse som de fogo, esse som é um dos negócios mais emocionantes, isso eu quero usar num filme, aquela devastação de fogo...essa música é usada no Coroação de uma Rainha também, estou misturando o som de fogo com sons sampliados ... tudo foi captado direto em digital para depois ser sampliado e colocado aqui dentro...aí aquela gota volta. Som de uma gota pingando Esse som lá era baixinho...mas eu queria dar a idéia de uma gota apagando um incêndio ... uma gota da consciência ... tipo cada pessoa é importante numa certa medida, é uma visão humanista, assim se fosse prá um comercial, aquela queimada gigantesca na Amazônia, vista por satélite: `você pode apagar esse incêndio´, uma gota em um conta-gotas, isso era uma proposta que eu tinha apresentado, ... mas eu te fiz uma descrição meio anedótica. Som de vários violões sendo afinados com alguns inícios de músicas que não tem continuidade Isso lá era incrível, são vários violeiros, parece um só, e eles estão tocando coisas diferentes, e eles não tão tocando nada, na verdade aqui era o ponto alto da apresentação ... Isso não é música, isso aí não tem praticamente uma mensagem, por que o som era prá entrar absolutamente seco, esse trabalho sobre as afinações é super-vanguarda ... porque está documentando o Brasil e isso nunca foi usado dessa forma. Som de portas rangendo e depois batendo, entra um som breve de assobio, o som do rangido da porta fica mais forte lembrando sonoridade de uma máquina tipo uma britadeira Isso é uma mini-sinfonia de portas Mas por que essas portas rangendo? Porque é Brasil, eu lembro da porta da casa da minha mãe... Canto de vozes regionais Eu viajei o Brasil inteiro para esse trabalho, isso tudo foi gravado por mim, eu tenho 40 horas disso ... é quase música concreta. Som de sapos É completamente eletrônico, esses sapos. Outro tipo de canto indígena com percurssão natural Já essa voz é um filme, ela foi trabalhada durante meses, eu tenho gravado músicas geniais ... porque eu não usei as músicas, eu só usei os intervalos ... eu tenho músicas folclóricas geniais que dariam um disco, eu quero fazer um trabalho com o pessoal dessa região aqui, isso tá inclusive no meu projeto de longa... Som de chocalhos em clima apocalíptico Som de canto indígena contínuo e igual Essa percurssão é totalmente colocada ... são índios tocando ... mas se você ouvir a gravação original não dá barato nenhum... escuta os patos... isso é todo um trabalho com pistas, tem percurssão, tem instrumentos eletrônicos ... eu queria pegar a imprevisibilidade do som, tem aquele trecho da chuva do pajé ... tem os lugares mais sonoros ... se você ouvir uma voz assim no normal, ela é totalmente vazia, documental ... isso aqui é um trabalho sobre o documental visando criar uma grandiosidade, um negócio épico.... e isso não tem nada a ver com Congo, isso tem mais a ver com a Coroação de uma Rainha é aí vem... Som de machados É quase com um jogo de percurssão com os machados... aí esvazia-se o ambiente, é só a batida, assim seca. 1 - Ver também Instalações e Entrevistas VOLTA
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