Entrevista de Arthur Omar para Guiomar Ramos sobre o uso do som nos curtas O Som ou Tratado de Harmonia 1 , O Inspetor 2 e a questão do documentário São Paulo. Agosto de 1994

Guiomar Ramos : Em relação a seu filme O som ou tratado de harmonia, eu queria saber se todas aquelas vozes eram provindas de depoimentos vivos ou de textos lidos ou decorados.

Arthur Omar: Quase todas as vozes vieram de depoimentos. Eles eram feitos a partir de um encontro com uma pessoa selecionada pelo interesse que ela poderia ter em área sonora, que era o tema do filme. Havia uma terapeuta do som; o Hebert Daniel, a Mavie...

Guiomar : Que ligação que o Hebert Daniel tinha com o som?

Arthur Omar: Ele não tinha ligação nenhuma com o som, eu È que tinha a ligação com o som. Já a fisioterapeuta é que era uma profissional do som, os outros era pessoas interessantes. Em relação ao Hebert, eu fiz perguntas e dirigi o depoimento para ele tocar na questão sonora. Ele dava depoimentos num bar em Copacabana, onde falava de sua experiência como guerrilheiro do grupo do Lamarca, mas nunca tinha se referido àquela história do barulho da floresta, nunca tinha falado sobre a voz do Lamarca. (Hebert conta, no filme, sobre como a floresta era silenciosa ou barulhenta da perspectiva do medo - o grupo de Lamarca estava sendo procurado pela polÌcia na floresta, de helicóptero).

Foram depoimentos colhidos, dirigidos e direcionados para o som. O som entra aí como aquele micro-nível da história pessoal ou objetiva, que normalmente não vem à tona, É um elemento de percepção do sujeito que eu capto.

Guiomar: Você imaginou que pudesse tirar alguma coisa do assunto som antes da entrevista com o Hebert ou do momento que ele começou a falar você foi percebendo o que poderia ter desse tema.

Arthur Omar:: Aquele depoimento tem originalmente mais de duas horas. Em determinados momentos a pergunta era dirigida para isso, para o som. Em outros eu deixava correr, eu não lembro detalhes. Mas o importante é que estando de posse da fita propriamente dita, eu voltava atrás e selecionava tudo aquilo que poderia interessar em relação ao tema. Já com a Julita, a atriz que fala no final: "...isso é o som", foi depoimento que não dirigi nem nada. Ele tem uma hora seguida de duração. Ela se sentou numa cadeira de costas prá mim e começou a falar e a falar. Eu não disse nada sobre o som, especificamente. Falei no som como um tema geral, como um pretexto para ela desenvolver. E aquilo foi surgindo, aquelas frases legais são frases que emergiram dela, são do vocabulário dela.

Guiomar: Já com aquele texto da peça Édipo, não acontece isso. O texto falado pertence à peça e não tem nada a ver com o som.

Arthur Omar:: É e eu nem procurei fazer com que ele (o ator) falasse sobre o tema. Eu encontrei esse ator no dia em que eu estava indo filmar no Instituto de Pesquisas Físicas. Eu sabia que ele estava trabalhando na peça Édipo, que estava em cartaz na cidade. Aí eu trouxe ele para esse local [o laboratório] que tem a ver com o som, que aumenta [a velocidade do som] quatro vezes dentro de um ambiente de gás Hélio. Então ele fala aquele texto forte, sintetizando toda a questão edipiana, de matar o pai casar com a mãe, etc. Aí, ele aspira por um tubo todo o gás Hélio (que é gás Hélio de verdade), e repete aquela mesma frase que, ao ser colocada em dois ambientes atmosféricos, soa totalmente diferente.

Guiomar: O conteúdo desse depoimento não fala sobre o som, mas ele participa de uma experiência sobre a manifestação física da voz. Já aquele depoimento que fala: "É foi um sonho terrível...os meninos...tudo nu, e eu amarrava os pintinhos um a um..." Aonde está questão sonora nesta fala?

Arthur Omar: Eu não entrevistei pessoas que tinham a ver com o som. Eu entrevistei pessoas que tinham a ver com o filme. Na história desse depoimento dos pintinhos amarrados o assunto som existe pela possibilidade do estouro. Ela não fala que eles vão inchando, inchando até explodir? A explosão não é um som? Eu fico colhendo depoimentos, histórias, estando diante de uma pessoa, de repente surge uma história interessante e aquilo é colhido ... esse processo começou no filme O anno de 1798 3. A primeira fala do filme é resultado de um depoimento de horas.

Guiomar: Ao começar a montar o filme, estando de posse de todo esse material captado, você tinha consciência que cada depoimento estava expondo temas diversos, e de como você iria fazer na montagem para estabelecer uma liga com o assunto sonoro? Por exemplo, no primeiro fragmento do depoimento do Hebert, ele fala do tom anasalado da voz do Lamarca, que é a liga com a imagem do canal auditivo vista por dentro.

Arthur Omar: .... depois a imagem mostra o crânio vazio sem o cérebro e aí tem um estilete que aponta para o nervo auditivo.

Guiomar: O depoimento do Hebert é introduzido através de uma referência ao tema principal: o som, mas naquele instante a gente consegue assimilar a informação sobre a guerrilha, por que o Hebert fala do tom anasalado(que é assunto sonoro) do Lamarca (que introduz o assunto guerrilha). Aliás o depoimento do Hebert é o mais longo do filme, ele é o mais importante?

Arthur Omar: Eu fui pegando depoimentos que falavam de sexualidade, política, sexo e som. Tudo isso pode estar um pouco sintetizado no depoimento do Hebert. Mas eu não queria fazer um filme sobre ele, ou com ele, porque seria privilegiar uma pessoa que fala desses assuntos explicitamente. E eu não acho que quem fale de política, sexo, etc., explicitamente, esteja mais próximo desses assuntos do que quem não fala explicitamente. Eu, por exemplo, me considero proprietário do tema Brasil, e não falo dele nunca, assim diretamente. Eu queria estar falando desses temas no filme, mas não através de uma só pessoa. Eu coloquei uma pessoa que tematiza essa questão, como uma das possibilidades. A fala do Hebert ficou a mais forte porque talvez seja a mais interessante. Mas eu também tinha o texto do Édipo, da fisioterapeuta que fala do garoto, tem aquela mulher que fala sobre o Brasil, tudo vai compondo um todo.

A idéia é você compor o universo e ao mesmo tempo decompô-lo. Por que no final do filme tem a frase dita pela Julita: "Isso é o som". Mas nada se conclui. Tudo o que veio antes não leva a uma ligação entre os elementos, que permita ao espectador assistir a uma conclusão. Tipo: juntamos isso, juntamos aquilo, examinamos os elementos particulares e agora podemos chegar a alguma generalização. O filme promove intencionalmente um desconhecimento. A fragmentação que você diz ter atingido um ápice nesse filme, está igada a forma como eu desenvolvo o tema. Eu atinjo uma determinada compreensão em relação ao tema som em um determinado momento, em seguida, apresento uma outra visão, em um outro nível totalmente diferente, então as coisas não vão se somando. Mas também não é um mosaico. É o tema que vai derivando sempre lateralmente, nunca se fechando. Então quando a voz over no final diz: "então isso é o som..." é uma ironia.

O Inspetor e os depoimentos nos documentários

Guiomar: Eu queria continuar a pensar O som ou tratado de harmonia, e também O inspetor, porque acho que eles, diferentemente de seus filmes anteriores, trabalham muito sobre o depoimento, sobre o conteúdo do que o outro está dizendo. E a forma de captação dessas entrevistas é muito diferente da captação dos documentários em geral. Acho que os documentários trabalham geralmente apenas com depoimentos que se relacionam diretamente ao tema que está sendo desenvolvido.

Os documentários chamados de experimentais ou aqueles que ninguém quer chamar de documentário, mas que o senso comum continua chamando, trabalham sem depoimento nenhum ou com ator. Seus filmes trabalham tudo isso junto: com e sem depoimentos, com e sem atores, mas de uma forma diferente. Acho que a diferença está não só no processo de captação, mas como você mantém a fonte captada dentro do filme. Você descontextualiza aquela informação, ela perde a função que tinha no ato da captação mas, ao mesmo tempo, você não a descaracteriza na montagem.

Arthur Omar: Eu trabalho com ambiguidade, eu não utilizo o discurso do outro para provar de maneira demonstrativa o que já se sabe à priore. O meu cinema visa provocar efeitos, é um cinema de investigação, é uma dávida permanente, no sentido que ele não se fecha.

Guiomar: Esse não fechar que você está falando, acho que não é só um não-fechar que aparece como efeito final, como o espectador recebe a informação geral do filme. … um não-fechar que vem desde a captação. Como se você buscasse na fonte materiais resistentes à montagem, materiais que não se complementam facilmente nem como conteúdo, nem como formato. Aí na montagem você vai ter que bancar esse conflito trazido pela captação.

Arthur Omar: Eu banco esse conflito. O filme tem elementos de fragmentação e de continuidade, eu pego o material fragmentado e procuro criar uma continuidade até certo ponto sensorial. O fato das vozes serem fruto de depoimentos é fundamental. As vozes tem que soar como de uma pessoa que faz uma determinada coisa, de outra que está envolvida com outra coisa, é a prova que eu me referencio à realidade. Então, digamos que essas vozes, depois de montadas fragmentadamente, mixadas sonoramente, apresentam um aspecto falso. Isso não importa, porque a matéria-prima veio de um corpo a corpo com a realidade. Eu não trabalho, como nos filmes em que o elemento investigativo inexiste, com um combinação de elementos criados, fabricados previamente para se chegar a uma determinada conclusão.

Guiomar: Você consegue dar o tom que você quer para uma voz, uma dimensão irônica para o depoimento de alguém que na captação não estava sendo irônico...e você consegue o que você quer desde a captação e depois também através da montagem, na relação com os outros planos, com a trilha, etc. Como você fez com o depoimento daquele delegado do Inspetor: o depoimento dele sobre a pena de morte é o mais burocrático possível e aquela pilha de pastas, arquivos, sei lá, que aparecem atrás dele...

Arthur Omar: Com aquele delegado, falando da pena de morte, eu tentei fazer com que o espectador estabelecesse uma percepção mais nítida, mais real, com o discurso dele. Eu queria que se percebesse que tipo de gente é aquela, como é a lógica do cara que diz "prá matar só com avaliação de um assistente social, através de um laudo. Eu poderia ter botado um ator ali, mas o elemento verdade dançava.

Guiomar: Eu acho que era mais o atrito, contido nesse elemento verdade, que dançava. Atrito que você traz da captação e deixa ele ficar soando dentro do filme. Você trabalha a cena visual e sonoramente, mas você não precisa usar um ator prá isso. A cena do depoimento da pena de morte tem, além daquele monte de processos empilhados quase até o teto, o ruído ininterrupto de carros.

Arthur Omar: Eu transformo o cara em ator. O Inspetor é isso. O cara vem do real e é transformado em ator, ao contrário desses documentários que já trabalham com o ator desde o início. Ali o ator se desdobra em ator. Eu crio uma distância para que se perceba o próprio discurso na fala, como se fosse um ator. O depoimento não é escolhido em função da informação que ele vai transmitir, ele vem esclarecer um dado que eu já teria apresentado antes. O depoimento é usado como forma. Aí ele tem uma trilha sonora própria, e para dar uma dimensão ao que está sendo mostrado, eu passo a usar frases minhas, parte de coleções que ficam arquivadas para serem usadas junto com esses materiais captados. No Inspetor a minha voz aparece não como a de um narrador, mas como daquele que pontua as diversas sequências com frases que estabelecem uma estranheza.

Guiomar: ...sempre com a idéia de uma composição de texturas...

Arthur Omar: Não é narração, nem uma narração poética. Minha voz entra aí como um elemento de diferenciação, dentro dessa combinação.

1 - Ver também em: Filmes e Ensaios                  Volta

2 - Ver também em: Filmes e Ensaios                 Volta

3 - Ver também em: Filmes eEntrevista              Volta

ENTREVISTAS