ENTREVISTA (inédita) DE ARTHUR OMAR PARA GUIOMAR RAMOS 1 sobre sua Carreira e Biografia. Outubro de 93

Guiomar Ramos- Quando você fez Ciências Sociais você já tinha alguma relação com a música?

Arthur Omar: "Eu sempre tive alguma relação com a música, eu cheguei até a aprender piano quando tinha 6 ,7 anos, mas era como todo mundo aquilo fazia parte de um contexto. Então não há nada de excepcional nisso."

E você começou a fazer cinema como? Por que você foi fazer Ciências Sociais?

Arthur Omar : "Na época fazer Ciências Sociais era o que havia de mais avançado, de vanguarada, mais rebelde ... a maioria das pessoas já escolhia o curso em função de uma proposta política."

E aí sua relação com o cinema começou de onde?

Arthur Omar: "Olha, eu faço fotografia, o cinema foi uma espécie de junção de fotografia com literatura, na verdade prá o que interessa mais é o texto. Eu, inclusive, não me considero cineasta, eu não me identifico com os cieastas, com as preocupações dos cineastas. Eu faço fotografia desde os 13, 14 anos de idade, tirei diversos prêmios inclusive internacionais. Eram salões de fotografia, aqueles que todo mundo mandava, acho que hoje em dia nem existem mais esses salões. Essas experiências foran decisivas para a minha formação visual. Eu com 13, 14 anos já era veterano, eu expunha no meio dos velhos, eu tinha uma preocupação de fazer fotografia enquanto arte mesmo, artes-plásticas, a gente organizava discussões sobre composição ... mas a música veio da minha mãe , ela era professora de piano, se formou em São Paulo, o paraninfo da turma dela era o Mário de Andrade."

"Mas continuando o lance das fotos, eu me lembro inclusive que todas as minhas fotos tinham título. Teve uma vez que eu coloquei um título grande, que era um poema de uma fotografia e que aquilo juntou gente prá ler."

Então já havia uma relação grande entre a palavra e a imagem.

Arthur Omar: Acho que a minha meta depois dos 16 anos era ser escritor, é na literatura, no jogo das palavras, na operação sobre as palavras que eu sempre coloquei o nível máximo de sofisticação a que se pode chegar um artista especificamente e eu sempre me identifiquei como tal, com alguém que é primordialmente palavra, embora em alguns filmes meus as palavras sejam fundamentais e em outros não. Porque eu trabalho com várias áreas, cinema, música, literatura,. Nessa exposição 'Antropologia da Face Gloriosa' 12, ninguém sabia, mas tinha um puta trabalho já feito a nível de texto, de relação texto-imagem, as palavras não eram apenas títulos para aquelas imagens."

É, toda essa questão da palavra nos seus filmes aparece com muita força mas dentro da faixa sonora, a palavra em confronto com a imagem.

Arthur Omar: "Mas a palavra não é o centro de meus filmes, o centro, o núcleo gerador dos meus filmes é a sensação musical. Não é a música, não é a trilha sonora, aí eu faço uma grande diferença, a palavra tá incluída mais ao nível da encantatória hipnótica do que propriamente a palavra. Então por exemplo, no Coroação de uma Rainha 3 a palavra aparece muito pouco, já no Congo 4, a palavra é tudo."

No Som ou tratado de harmonia a palavra é muito importante, é uma colagem de discursos.

Arthur Omar: Exatamente, mas eu não me identifico com essa nova escola que está surgindo aí, esses vanguardistas... Eu não trabalho com a palavra enquanto significante ... a palavra prá mim é o momento, a palavra é a palavra, no sentido que ela carrega uma iluminação sobre o mundo, realmente. Eu não trabalho a palavra enquanto matéria, eu desprezo isso. A palavra enquanto concretismo, enquanto jogo de linguagem, não me interessa, embora eu tenha alguns trabalhos assim, e veja com interesse trabalhos realizados nessa linha. Mas o que me interessa é palavra viceral, a palavra profética, a palavra visionária, aquela que vem do fundo, do útero do homem." Você conhece o meu trabalho de poesia? Poesia ao vivo. Eu tenho uma gravação feita em VHS com um som horroroso ... mas quando eu falo que trabalho sobre a palavra – é literatura. Eu não faço fusão de artes. Com trabalhos que rompem fronteiras, do tipo que não é nem cinema, nem música, nem fotografia."

Mas você não se considera cineasta!

Arthur Omar: "Eu não sou cineasta, eu faço filmes. Eu não sou poeta, eu faço poemas. Eu não me identifico com um papel, com uma função, com toda a carga imaginária que vem de você se considerar um cineasta. Mas eu no momento digo: o filme é um filme, ele é prá ser visto numa situação de filme. Muitas vezes dentro deste filme você tem artes separadas e que deveriam ser consideradas separadas enquanto arte, porque ela foram produzidas independentemente. Então por exemplo, cada uma das artes que eu pratico, ela excita, emula uma área do cérebro. Eu não trabalho com fusão de artes, de áreas. Eu não estou querendo criar um gênero interdisciplinar que misture palavra, imagem, som ambiente, etc..."

"Eu acho que é assim, pintou aquela exposição de fotografia ( A Antropologia da Face Gloriosa 1 no MIS em 1993 ), fiz questão de trabalhar as fotos sobre o papel mais clássico, tradional. As palavras são os títulos coisas importantes, mas é como se elas se tornassem uma coisa que vai somar-se à imagem. Vai haver um momento que os títulos vão ser lidos independentemente, vai haver uma sucessão de títulos (em separado da imagens). O Lívio Tratemberg está fazendo uma peça musical para ser cantada baseada nos títulos dessa exposição, porque o título é independente. O jogo é de articulação, não de fusão, não quero apagar barreiras."

"Cada uma dessas áreas atinge, atende às necessidades de uma zona cerebral e eu procuro manter todas as minhas zonas cerebrais excitadas, em atividade, nem sempre ao mesmo tempo, mas elas são mantidas assim. É por isso que eu não consigo abandonar uma área para me concentrar exclusivamente na outra. Aliás, o meu processo é ao contrário: 'eu estou numa para não estar na outra'. É um processo negativo. Quando eu faço meus desenhos é exatamente na época em que eu tenho que escrever um roteiro, eles não são tradução do roteiro, eles são mesmo um outro universo. A fotografia é para eu não escrever, eu escrevo para não fazer música, eu faço música para não desenhar etc...Todos os trabalhos meio que surgem como por acaso, como que entre parênteses, é por isso que eu não me identifico com nenhum deles, porque no momento que eu estou praticando um eu deveria até por obrigação contratual, ou por imposição pessoal, estar fazendo o outro. Eu encaro como se fosse uma atividade marginal. Isso é o artista marginal, em cada arte que ele atua ele se sente à margem daquela arte. Eu não estou à margem da sociedade, eu estou à margem de mim mesmo a cada momento que estou produzindo alguma coisa."

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