Rocardo Miranda

Entrevista de Ricardo Miranda a Guiomar Ramos sobre o processo de montagem dos filmes de Arthur Omar. Realizada em 12 de janeiro de 1995.

RICARDO MIRANDA: Foi só à partir do Tesouro da Juventude que a gente começou a elaborar o som com duas pistas sonoras e duas pistas de imagem. Era colocado um plano de imagem e duas pistas de som. A gente podia ver o resultado concreto através daquelas duas pistas de som colocadas junto a imagem. Só que no O som ou tratado de harmonia, isso foi radicalizado: trabalhamos com seis pistas de som. No Música Barroca Mineira era primeiro duas a duas, depois a gente montava as outras pistas normalmente...mas só depois do filme totalmente montado, como acontece num processo normal de montagem. Você monta o filme todo com as pistas de Som Direto ou com a pista de música; ou mesmo sem pista nenhuma de som. Depois você volta para o início e vem colocando o som. Então você imagina a diferença que foi pular de duas pistas para seis pistas! (mas não conta prá ninguém, senão vão começar a imitar a gente).

Mas o que eu estava dizendo, o Música Barroca assume a temática do som, que era o assunto que vinha sendo desenvolvido desde o primeiro filme de Omar. O Música Barroca foi meio um "balão de ensaio" para este filme O Som, no sentido de ir testando novas relações do som com a imagem. Parecem filmes totalmente diferentes, mas o tipo de montagem é similar.

Guiomar Ramos- No Música Barroca tem uma voz que fala "vi-o-li-no" e no fundo a gente escuta o som da voz do Tarzan, daquele Tarzan que todo mundo conhece. Com foi gravada voz? E a voz do Tarzan de onde veio?

RICARDO MIRANDA - Isso proveio de uma utilização de restos de outros filmes. Você termina os planos na moviola e na mesa de montagem fica aquele varal de magnéticos não-utilizados. As sobras de outros filmes fica ali dependurada. No caso da voz do Tarzan, aquela voz surgiu de um sorteio. Retirado ao acaso, o som foi depois colado ao nosso filme. Esse acaso faz parte do nosso trabalho. No Congo também houveram cortes aleatórios. A gente escutava os sons, fazia um embaralhamento, depois fazia uma colagem aleatória. Com o filme que eu fiz com o Glauber (Idade da Terra), eu já fazia algo assim, cortava alguma coisa e depois sorteava o pedaço a ser colado no filme.

Guiomar Ramos - No Congo os sons aparecem menos mixados. A gente pode escutar com uma nitidez quase didática cada som em separado.

RICARDO MIRANDA - É porque no Congo trabalhamos com uma pista única. Não tem mixagem nenhuma, os sons não são trabalhados. No Som ou Tratado de harmonia fizemos uma montagem radical. Tínhamos uma exigência enorme para cada plano. Tanto que não conseguíamos montar mais de dois planos por dia. Era muito difícil. Mas sinceramente, tirando o Congo, eu acho esse o melhor trabalho que fizemos. Mas foi difícil, ficamos seis meses montando, havia uma exigência enorme, talvez necessária para o que estávamos nos propondo realizar - um trabalho sobre e com o som. E essa dificuldade que tivemos para montar cada plano, as brigas, só reverteram para o resultado bom deste trabalho.

Guiomar Ramos - Por mais que você tenha dito que o Música Barroca Mineira foi um "balão de ensaio" para o filme seguinte O Som, parece que existem experiências realizadas na montagem do Som que não tinham sido experimentadas com o Música Barroca. O fato de se ter um tema a questão sonora e desse tema ser narrado através de depoimentos originalmente relacionados a outros assuntos, mas que mesmo assim podem estar se referindo ao tema sonoro, sem abandonar seu universo original. O que significou prá você, por exemplo, ter de colar um texto da peça Édipo a uma fala específica sobre o som. Havia essa consciência que, apesar dessa fala estar sendo usada dentro do filme para ilustrar uma experiência formal, uma demonstração fisica (o ator puxa o ar para dentro de um tubo), o conteúdo dessa fala vai ter continuidade dentro do filme, como um sub-tema ?

RICARDO MIRANDA - Não sei se havia essa consciência. Mas neste filme ( O Som ), depois de trabalharmos os dezesseis minutos com seis pistas de som, ainda houveram desdobramentos. Completamos as seis pistas com mais quatro, pusemos mais alguns ruídos, a complementação de uma ou outra fala. Todo esse processo durou mais de seis meses. Com todas as brigas, eram brigas de trabalho, mas eram radicais, tipo não corta aqui que eu não admito, eu vou embora etc.

Guiomar Ramos - É, a gente percebe uma montagem super sofisticada. Aquele close do cérebro humano entrando exatamente quando a voz pronuncia o nome do "Lamarca" é o máximo. Claro que o cérebro tem que significar o "Lamarca". O momento que entra a música épica é incrível, bem em cima da palavra dente, "ele trincava os dentes", e a música entra alta, presente. Esses sons eram captados junto com a imagem? O Arthur Omar não aproveitava os sons produzidos durante a filmagem da imagem?

RICARDO MIRANDA - Não, os sons eram captados externamente, o Omar passou muito tempo com gravador Nagra em casa captando sons-off.

Guiomar Ramos- No Música barroca os sons parecem aproveitados das imagens.

RICARDO MIRANDA - No Música barroca não tem som direto. O Música barroca é todo feito com som à posteriori. Ah., menos um som, uma música tocada por uma orquestra com passarinhos, isso aconteceu quando a gente foi filmar lá em Minas. Esse concerto foi lá em Mariana e a gente gravou esse concerto já de manhã quando a igreja estava habitada por milhares de passarinhos. Foi uma conjunção natural do som do concerto (a música barroca), e o som dos passarinhos que a gente acabou usando na montagem. Mas tem uma infinidade de sons, de ruídos que foram retirados de disco, depois de muita pesquisa ... o Arthur tinha um sintetizador "primitivo"...

Guiomar Ramos- Mas tem alguns sons que se repetem desde o primeiro filme, desde o Congo. O som de percurssão, o som de gongo.

RICARDO MIRANDA - Quando eu digo que o som é sempre pensado antes, é porque o Arthur tem uma fixação muito grande por alguns sons, por algumas músicas. Ele tem uma discoteca enorme especialmente pensada para ser utilizada em seus filmes.

Guiomar Ramos- O que eu pensei desse filme (O Som) é que ele tem uma formato diferente. Uma forma que poderia ser usada para outros filmes, a idéia de você ter um tema (o som) e vários sub-temas; esses sub-temas vão alimentar o tema central e ao mesmo tempo apresentar claramente seus respectivos conteúdos: guerrilha-Lamarca (Hebert Daniel), sexualidade, mítico-primitivo (Édipo); que também se inter-relacionam.

RICARDO MIRANDA - É, eles são todos interligados com o tema principal, e ao mesmo tempo apresentam seu tema original.

Guiomar Ramos - Toda essa minúcia que você falou que era uma loucura conseguir fazer na mesa de montagem, era muito em função dessa trabalheira de ter que encaixar o tema central - o som, com todos os outros assuntos diferentes.

RICARDO MIRANDA - Essa dificuldade na montagem, era uma necessidade até para provocar o conflito. Na verdade, pensando bem, foi um trabalho que foi se desenvolvendo de filme para filme. No primeiro filme Congo, a gente trabalhou só com uma pista. Você tinha a imagem num plano, aí você colocava um som determinado. Num outro plano outro som. E íamos colando, uma pista de imagem, outra de som. Essa descrição é importante, pois a coisa da montagem nos filmes de Omar tem uma relação direta com o trabalho depois de pronto na tela. No Congo os sons ficaram bem separados ... e nesse filme tem uma coisa que até hoje a gente se cobra : o plano dos bois. Ele tinha exatamente um chassi de quatro minutos e eu coloquei esse plano para quatro minutos de duração. Nós brigamos por que ele queria que fosse cortado. Eu queria essa exasperação com o tempo, esse exercício de deixar o plano se gastar, aquele carro de bois passando com aquela música romântica, Noite , do Schoemberg.

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