Entrevista (inédita) de Arthur Omar
a Adriana Lift, para o
Caderno Informática da Folha de São Paulo. Junho de 99

" Cara Adriana, aí vão as respostas. Espero que não estejam chegando tarde demais. Respondi apenas às mais difíceis, isto é, todas. Bem rapidamente."
Arthur Omar

1 - A arte eletrônica tem sido definida como a arte que usa ferramentas de computação. A diferença é que, com a presença da Internet, o computador virou um ambiente para a arte, fazendo com que ela viva apenas dentro de um computador. Qual sua opinião sobre este tipo totalmente eletrônico de arte?

O computador, em si, não é um ambiente para a arte, assim como o livro não é um ambiente para a literatura, ou uma igreja medieval um ambiente para os jogos de luz filtrada pelos vitrais. O verdadeiro ambiente da arte é a mente, e nesse ponto nada mudou com a arte eletrônica. O computador é um meio, um instrumento, assim como a tecnologia da pintura a óleo. A grande diferença é que, como advento do computador, (e da Internet), oinstrumento e a matéria a ser transformada passaram a ser uma coisa só, daí a impressão de um ambiente fechado e autônomo. Na chamada arte eletrônica, a matéria a ser transformada é tão linguagem como o instrumento que a transforma, matéria e instrumento estão um dentro do outro, como um objeto único.

Quero crer que se alguma transformação veio a se operar com o uso totalmente virtual dos computadores para produção de arte, essa atitude não é decorrência de uma novidade nas máquinas, mas a invenção das próprias máquinas é que foi uma decorrência da transformação do nosso modo de pensar.Quando não se compreende isso, e se procura fazer arte apenas a partir da tecnologia da computação, os resultados, em geral são muito pobres. Por que? Porque o pensamento que está operando esses computadores não entende o que se passa no próprio pensamento, dedicado que está a operar as máquinas. Usa-se como desculpa o fato de que são experimentos pioneiros (realidade virtual,etc), mas, na verdade, como pensamento, são experimentos primários e retrógrados,calcados num conceito de arte acadêmico,comercial e totalmente superado pelas experiências dos artistas radicais. O jogo éc omplexo. Para entrar nele, é preciso uma transformação em profundidade dos próprios parâmetros. Muitas vezes, fazendo com que nossas limitações apareçam de repente. Não há arte sem experiência dolorosa do mundo, e essa é a mensagem de toda a arte desde o início da experiência estética. O problema é que o sofrimento foi abolido como condição da experiência eletrônica.

2 - A arte eletrônica ambientada na Internet é programada para que o internauta participe, interaja com o que está vendo. Ele mexe com o mouse e muda uma cor ou uma figura. O conceito de arte deve sofrer mudanças com esta nova realidade?

Talvez sim, talvez não. Talvez seja esta realidade que esteja precisando sofrer mudanças com um novo conceito de arte.Arte não pode ser confundida com operações sobre a aparência da forma, portanto alterar uma cor interativamente não representa uma transmissão para a outra pessoa da função artistica. Nem toda pintura, nem todo poema podem receber automaticamente o estatuto de objeto de arte. A arte precisa iluminar uma zona da condição humana, ou então criar uma nova posição na experiência de estar no mundo. O que se considera muitas vezes como arte interativa na Internet é decorrência de uma visão retro-moderna bastante formalista da arte, que foi no início do século considerada a visão única da vanguarda e da ruptura, mas que hoje não passa de uma posição retrô e superada. Aliás essa é um pouco a visão da arte nos programas de manipulação de imagem disponíveis no mercado. Há que se criar um novo tipo de atitude em relação aos programas e aos hardwares para que se possa dar conta do potencial que temos pela frente. É o que eu tento fazer com meus trabalhos.

3 - A tecnologia é uma invenção do homem,assim como a obra artística. A relação entre essas duas realidades é saudável. Como você vê o uso da tecnologia na arte dos próximos anos?

A arte sempre irá contra tudo que é muito saudável. Inclusive o uso da tecnologia na arte dos próximos anos.

4 - O que é Realidade Virtual?

É quando você come a imagem de uma maçã e engorda,

5 - Você define o seu website como uma obra de arte eletônica?

Ter um site não me atraía muito. Foi a partir do encontro notável com Matteo Moriconi que comecei a me envolver nessas questões de hipertexto e acho que não vou sair mais. Criamos, Matteo Moriconi e eu um mundo hipertextual, onde os textos e images se interligam para se iluminarem mutuamente.À primeira vista, não se trata de uma obra de arte, mas de uma simples enciclopédia interativa. No entanto ela aponta tanto para o passado como para o futuro, com a inclusão de diversas zonas de produção de trabalhos especiais para o site. Minha obra adquire uma nova torção, como um todo. Não se trata de reproduzir obras prontas, descobri que isso é impossível, sempre vamos perder na transposição. Na Internet, ou pelo menos num site como este, a obra se transforma em material, ela se desconstrói em seus elementos, ela vira elementos, e a totalidade do video, da foto, do poema se perde quando postado ali. A atitude correta então é trabalhar esses materiais que reapareceram em estado puro depois de tanto tempo incorporados numa obra. É dar a eles uma nova função. Esse é um pouco o projeto do site no setor dos Heterogramas. Um heterograma é uma pequena animação feita de materiais heterogêneos vindos de obras minhas diversas, filmes, videos, fotos, ensaios,que se recombinam numa forma nova, adequada à hipertextualidade da Internet e adequados à fruição na tela do computador.Não são nem mesmo mais uma referência à obra original de onde foram extraidos. São despudoradamente auto devorados por uma nova poética.

Haverá também um diário on -line, onde procurarei pensar em tempo real, assistido pelos visitantes do site. Não sei como isso acontecerá na prática. O site tem uma história pela frente. Vai crescer dia a dia. Inauguramos em carater experimental, ainda com o container cheio apenas 10%. Estará em full size no final do ano, quando entrará numa nova fase.

Outra produção específica do site são os jogos.Matteo Moriconi criou o jogo da memória A Terceira Face da Carta, que é baseado na Antropologia da Face Gloriosa. A cada fase, o jogador que acerta obtém como prêmio um "aforismo de sabedoria fotográfica", extraido dos ensaios contidos no livro O Zen e a Arte Gloriosa da Fotografia. O jogo todo é pontuado pelos sons da instalação Muybridge/ Beethoven que apresentei no ano passado no Paço das Artes em São Paulo.Aliando imagem, teoria e música, o jogo é uma incorporação do meu trabalho por uma forma típica da cultura de massa que me interessa muito que é o jogo do computador.Matteo manteve no design uma elegância de movimentos que preserva o jogo de cair na vulgaridade e isso é arte pura, e eletrônica.Quem jogou, vicia. Vai sair em CD-Rom

Assim, respondendo à pergunta, digo que o meu website não é uma obra de arte, nem mostre tal e qual as obras de arte que criei, embora em sua elaboração Matteo Moriconi tenha seguido inconscientemente o mesmo método não-linear de edição que gerou os meus últimos vídeos como Pânico Sutil e Lógica do Êxtase. O método que parte da confusão total durante o processo, para a luz intensa e imóvel ao final dele. Este site é talvez uma máquina que poderá vir a produzir obras de arte, a partir do processamento e inter-relação dos materiais que a alimentam.

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