Uma rainha negra para o Brasil 1
INTEGRA de artigo publicado no Caderno B,
Jornal do Brasil, em 29 de março de1993.

Ivana Bentes *

A monarquia inglesa vai conhecer a realeza negra brasileira com a exibição, no Channel Four inglês, do vídeo A Coroação de uma rainha, do cineasta Arthur Omar, produzido pelo programa South de 93 que vem finaciando e exibindo a produção independente de países do mundo todo.

Do Brasil, já passaram pelo Channel Four Whols do paulista Cecílio Neto, Esta não é sua vida, de Jorge Furtado, e Lua de mel , de Alice de Andrade. Ou seja, parte significativa da produção mais autoral de video e cinema brasileiros está sendo produzida e exibida por TVs estrangeiras, a inglesa e a alemã principalmente. Em comum, estes trabalhos apresentam um modo especial de combinar ficção e documentário, assim como uma linguagem aguda, crua e poética, para falar do Brasil ou de realidades nacionais.

Mas não são apenas os independentes que estão mostrando a cara do Brasil, a televisão vem, lenta e gradualmente, se dando conta que pode haver uma dramaturgia nova ou pelo menos uma renovação no documentário tradicional e nos temas da ficção televisiva. Talvez estejamos assistindo ao renascimento do documentário sob novas bases, depois de uma década de 80 em que a ficção explodiu em vídeos independentes, curta-metragens e miniséries para TV. Nos 90, a melhor ficção vem atravessada por imagens vivas da realidade brasileira. É o que pensa o cineasta Arthur Omar, que acaba de produzir, com fotografia de Walter Carvalho, um documentário pouco ortodoxo, capaz de chocar a monarquia inglesa e os candidatos ao trono brasileiro.

As vésperas [no Brasil] de um plebiscito sobre a forma de governo [presidencialismo, parlamentarismo ou monarquia], A coroação de uma rainha, faz um registro poético de uma verdadeira "Monarquia dos excluídos", uma confraria negra no interior de Minas Gerais, em que donas de casa e operários se vestem com mantos suntuosos e coroas e celebram, num espetáculo vigoroso e melancólico, a realeza afro-brasileira.

Trata-se da emergência desconsertante de um mundo aristocrático e monárquico num cenário de pobreza econômica e social, num subúrbio de Belo Horizonte, onde vivem os membros da Comunidade de Nossa Senhora do Rosário. Toda a comunidade gira em torno do Congado, manifestação religiosa popular dos tempos da escravatura brasileira misturada com elementos da missa católica e que tem suas regras de conduta e leis próprias, com uma estrutura de poder inteiramente à parte do resto da sociedade e desvinculada das ideologias conhecidas. Uma simpática dona de casa negra de 65 anos, Alzira, coroada Rainha de Nossa Senhora das Mercês, é o personagem principal do vídeo.

Com A Coroação de uma rainha, Arthur Omar retoma toda uma linha interrompida do cinema brasileiro dos anos 70 de caráter antropológico e documental, só que transfigurada e renovada numa "antropologia gloriosa", um documental-poético que sempre marcou sua obra. Omar, que em 1972 causou polêmica com um artigo ironicamente intitulado "Anti-documentário provisoriamente", criticando o que considerava "sociologismo mecânico-paternal-defensivo" dos documentários da época, faz, em 1993, um "vídeo-clip" folclórico, poético e viceral, em que a informação e o documental, a narração, estão a serviço de uma lógica audiovisual.

"Hoje, o folclore, a cultura popular, é a vanguarda", diz Omar que já foi, nos anos 70, um ferrenho opositor do documentário, ou pelo menos daqueles curtas oficiais sobre "a arte de tecer em Goiás", com narração pomposa em off e uma narrativa tradicional e paternalista, estilo que marcou negativamente o curta-metragem brasileiro, "nacional-populista" nos anos 70.

Walter Carvalho, que já filmou mais de 50 documentários, nos mais variados estilos e propostas lembra que documentário e ficção não se opoem necessariamente: "ficção ou documentário, a imagem tem que ser a melhor, a mais funcional e informativa. A beleza vem como decorrência " .

A própria TV brasileira atinge grandes momentos toda vez que dispensa os clichês e dramas-de-sala-de-estar e sai em busca de um pouco de "realidade". A novela Renascer realizou quatro capítulos surpreendentes fazendo uma espécie de Cinema Novo em ritmo de videoclip: câmeras ágeis, fotografia luminosa de Walter Carvalho, cortes secos, a ficção interada com "docuemntal": o bumba meu boi e as mulas do transporte do cacau no sertão da Bahia.

Com o vídeo, sem a linguagem didática e padronizada que marcou o documentário nos anos 70, sem sociologia e com humor pode-se fazer uma retomada do folclore, dos temas históricos e da cultura popular sem cair no "filme-piada", diz Omar, ou na "adeotização" (o uso generalizado de efeitos especiais de ADO). Arthur Omar não trabalha com o "funcional" ou com o "informativo" de forma direta ou explícita: "Filmei A coroação de uma rainha do ponto de vista de Nossa Senhora do Rosário, não dá mais para filmar o Brasil nem com paternalismo nem com aquela ironia classe média Zona Sul". Seu trabalho procura uma outra via, mística ou transcendental.

Walter Carvalho sublinha a desvantagem do folclore e da cultura popular quando tratada pela TV como espetáculo para consumo imediato: "o telespectador tem pressa, quer ver como tudo se desenrola, e o folcore tem um tempo interno". A novela Renascer (TV Globo) e A coroação de uma rainha são duas experiências radicalmente diferentes, uma com o máximo de recursos e o ritmo veloz da produção industrial, a outra, um trabalho de imersão e experiência num ambiente novo. O resultado, diz Walter Carvalho, é muito bom nas duas propostas.  "Arthur Omar conseguiu combinar esse tempo interno da coroação com imagens que transcendem o documental, como a sequência dos fogos de artificios que é a coroação cinematográfica e visual do trabalho."

A coroação acaba com um estranho cortejo de dezenas de reis e rainhas pelos arredores de Belo Horizonte. As portas do século XXI e as vésperas do plebiscito em que a outra Monarquia, branca, patriarcal e tradicional concorre ao trono, vemos um Brasil em que proliferam as mais diferentes Impérios e reis, autoglorificação dos excluídos com seus símbolos próprios, cantos, danças, súditos, etc., como nas dezenas de folias de Minas Gerais.

Segundo Darcy Ribeiro, "quando se fala em monarquia entre as classes populares, significa que cada pessoa quer ser rei, não se trata de uma atitude de subserviência diante de uma nobreza hereditária, mas sem qualquer legitimidade, mas a afirmação renovada da realeza de um povo." Darcy [entrevista à Ivana Bentes] sem dúvida se refere a uma espécie de "nobreza popular brasileira" cultivada entre as classes populares, resultado do cruzamento do imaginário europeu e africano, com sua realeza tribal.

A coroação de uma rainha arranca o que há de sublime na monarquia branca e negra, tornada imagem pura e gloriosa de impérios imaginários e simbólicos em cerimônias que desempenham a estranha função de esteio ético e estético contra todo tipo de devastação .

O vídeo destroi assim qualquer maniqueismo, arranca o poético do que poderia ser pobre exotismo e folclore, compõe uma pequena ópera onde poderia haver didatismo, tudo isso sem "sociologia", num êxtase audiovisual que combina o doméstico (cozinheiras, senhoras de rolinhos na cabeça, gestos cotidianos, despojamento) e um mundo mítico, de pompa e circunstância, de tensão e pathos (a coroação, os símbolos, os objetos rituais, a bandeira, os fogos de artifício, o estranho cortejo pelas ruas do bairro), indo do patético ao solene e triunfal. (I.B.)

*Ivana Bentes
é doutora em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, crítica e pesquisadora de cinema e artes visuais, professora da Escola de Comunicação da UFRJ, autora de Joaquim Pedro de Andrade: a revolução intimista (Ed. Relume Dumará- RioArte. 1996) e Cartas ao Mundo. Glauber Rocha. (organização e introdução). Editora Companhia das Letras. 1997; é apresentadora do programa Curta-Brasil (TV Educativa) e co-editora deCinemais: revista de cinema e outras questões audiovisuais
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