O BRASIL É O INFERNO DESMATERIALIZADO PELA MAGIA
Jair Ferreira dos Santos *

O ZEN E A ARTE GLORIOSA DA FOTOGRAFIA,
imagens e textos de Arthur Omar, com estudos de Lygia Canongia e Aluisio Meneses. Ed. p/Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro, 1999, 80 páginas.

A impressionante série de 74 fotografias em preto e branco, tamanho 1m x 1m, de rostos de foliões carnavalescos, produzida pelo multiartista Arthur Omar, em exposição no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, até 25 de abril, ostenta uma promessa algo enigmática e luxuriante no título Antropologia da Face Gloriosa 1. Conferida, a mostra supera qualquer expectativa, e vem merecendo, no seu livro de visitas, opiniões da seguinte ordem: "fantástico", "fiquei estarrecida," "estranheza deliciosa", "entrou na veia", "de arrepiar", "estou tonta", "onde está meu rosto agora?".

As últimas expressões registram, sem erro, o impacto das fotos sobre a fisiologia dos visitantes, uma espécie de abalo corporal. Esse efeito é obtido pelos closes ampliados em grande escala, o que afeta diretamente a auto-percepção do espectador, e pelo trabalho de laboratório que realça e mesmo exagera características da imagem, como grão, contraste, etc. Mas as expressões acima dão suporte também a uma premissa clara no jogo do autor: a comunicação fotográfica aqui se torna a cena de uma catarse do corpo, um corpo impositivo que invade o papel da alma.

Aqueles êxtases e esgares captados por Arthur Omar no semblante de travestis, mascarados, possuídos, são iluminações profanas em sua interpelação, seu erotismo. São mensagens recuperadas ao abismo do sensível, para as quais o corpo é a única linguagem possível. É ainda através do corpo que as analogias do transe sexual com o transe místico permitem ao artista utilizar, no título das fotos um supreendente acervo de metáforas.

A todo esse pathos de aberração e sensualidade, Arthur Omar faz corresponder, para nos ajudar a decifá-lo, um bathos mais cerebral, ao publicar este O Zen e a Arte Gloriosa da Fotografia. Proposto como uma espécie de livro de trabalho, a obra é uma experiência inesperada no tratamento da imagem e do texto. As mesmas fotografias da exposição são re-fotografadas em novas posições de câmera, novos ângulos, o que as torna verdadeiras re-criações, o que tira do livro qualquer conotação de catálogo. O livro inclui nove textos em prosa, dos quais sete do próprio artista.

Aquelas faces perturbadoras são vistas agora "em situação", isto é, no teatro de operações que envolve as guinadas impostas pelo trabalho de criação fotográfica. Acompanhamos ao vivo o percurso de um pensamento. Conceito e imagem se entrelaçam. As imagens não são reproduções frias de uma foto, mas todos os acidentes da percepção são incluidos, como os reflexos do vidro, o amassado do papel, os ângulos esquisitos. A cada aparição, a fotografia da Antropologia da Face Gloriosa é diferente.

Daí o Zen do título, a insistência na idéia da singularidade do instante. Segundo Arthur Omar: "o que eu proponho no livro, com o Zen da Fotografia, é um reforço na finura da percepção, re-finura, re-finar, aumentar a resolução de percepção, para incluir nela os acidentes normalmente descartados". Fica evidente a citação-homenagem ao livro de Robert M. Pirsig O Zen e a Arte da Manutenção da Motocicleta, que conquistou o mundo em 1974, embora ambos os livros trabalhem o Zen de forma diferente.

Marcados por uma verve fria e singular, os textos assinados por Arthur Omar (vindos de ensaios, entrevistas, e-mails) oferecem informações estratégicas para uma aproximação à sua obra. Ligado à prática da fotografia desde a infância, teve tempo suficiente para descobrir que a objetividade é uma fraude e a experimentação um fio da navalha, compensador. Para o autor, importa menos explorar o espetáculo imediato que a caligrafia. Outra idéia presente nos textos é a de que fotografar não é um ato de simples voyeurismo, talvez o contrário, um gesto radical de exibicionismo, um colocar-se do fotógrafo num campo de forças onde sujeito e objeto se fundem numa dança magnética. As observações sobre a naureza da fotografia contidas no livro são inúmeras e impossíveis de serem resumidas aqui.

Partindo muitas vezes de detalhes dos bastidores da prática fotográfica ou dos seus objetos, como a câmera, o ampliador, a luz vermelha, o papel fotográfico, as substâncias químicas, o autor tira lições de auto-transformação pessoal. Num texto como Memórias da Luz de Segurança, somos colocados no interior de um laboratório e flagramos o surgimento de uma imagem, descrito numa linguagem poética: "Era um momento solene, como se asssistíssemos ao corpo de uma baleia que viesse à tona (...) A foto parecia imensa, quase sem fim, pois a bancada era alta, e a banheira se estendia para longe, fugindo de nós, à altura do peito. A outra ponta da foto não era claramente distinguida na luz vermelha de segurança, marciana, que dissolvia o contorno dos objetos. Éramos marinheiros em meio à névoa, atravessando Gibraltar, e já ouvindo as sereias."

Os títulos e sua produção pedem abordagem à parte. "O título já é uma obra... Pego uma metáfora aqui, uma combinação de adjetivos ali, uma alusão narrativa... e vou editando" diz o autor. Na verdade, pela sua força, eles expõem uma ambiguidade ativa em Arthur Omar, para quem o verbal corre paralelo ao visual, mas nunca deixa de correr. Em toda sua obra temos falas e textos calcados em uma retórica particular, onde não é difícil perceber as influências do estilo aforístico, mesclado ao provérbio surrealista, ao fragmento dos esotéricos (Angelus Silesius) dinamizado pela ironia e pelo humor.

Em títulos como"Santa porque Avalanche" ou "Crime Celestial com Atenuantes Dourados", as palavras foram submetidas a combinações desconcertantes para que a conotação, levada a extremos, libere uma revelação, propicie uma transfiguração que vamos compreender sem ter como explicar. Função da poesia. Nos dois exemplos, atua sobre o vocabulário a conversão do sagrado no dionisíaco e vice-versa, transliteração que não se restringe a estes elementos. E isso é uma prática generalizada na obra do autor.

Mesmo seus ensaios recorrem à metaforização constante: "Muitas vezes a fotografia é isso, um abismo iluminado...Um xeque-mate na superfície", escreve Omar. Existe aqui, sem dúvida, um desejo de esclarecer (e de brilhar) alcançando uma originalidade imprevista. Na sucessão sem fim de supresas verbais, vai se criando a impressão de que talvez as coisas não possam nunca ser ditas diretamente, mas apenas figurada.

Essa poética remete a um universo sem substância, constituido somente por estados, qualidades, fases e a convertibilidade entre eles, um mundo enfim que não se distingue das diversas linguagens de sua representação, seja ela a fotografia ou a literatura, ao qual reagimos pulsionalmente por adjetivos e sensações, como fazem os visitantes da exposição. É um contexto semelhante à acelerada virtualização da realidade contemporânea, com seu fluxo de textos e imagens nas telas ou seus análogos, para além dos quais só resta, parece, uma terra ignota.

Com uma diferença: Arthur Omar, que não é um caçador do referente perdido, assume esse fluxo, é um entusiasta dessa desrealização, deslocando-se nela com uma estética definida : certo materialismo figural que é animado poeticamente por idéias e práticas de um misticismo transcendente. Ambos com raízes na expressividade do corpo. Máquina de metáforas com papel cognitivo, com que se procura uma estabilidade mínima, uma coerência pontual. É o que ocorre, aliás, com a palavra Zen, presente no título, mas inteligentemente suprimida pelo autor do miolo do livro. O zen ausente aponta para a radicalidade de uma experiência que é regida pelos ditames irônicos da arte e não de um verdadeiro ascetismo. E talvez o Zen seja justamente isso.

Tanto a exposição da Antropologia, quanto O Zen e a Arte Gloriosa da Fotografia são dominados pelo otimismo. Corroboram que o mistério que nós brasileiros somos para nós mesmos tem muitas faces e que, em instantes privilegiados, elas podem ser apreendidas. O carnaval é a circunstância em que o melhor de um país pobre, solar, vem à tona e é fundamentalmente orgíaco. Isto é, valoriza o gozo, o excesso, o riso, a violência, a desordem, o jogo, teatro, o fugaz, o nó da vida-morte, tudo o que gera a nossa intrigante peculiaridade de povo inconquistado pela miséria e pela dor, insolúvel na História, zombeteiro quanto à modernidade, acrítico e cruel como a alegria. Tocando essa quase miragem, os atos fotográficos de Arthur Omar aclaram o paradoxo segundo o qual o Brasil é o inferno desmoralizado pela magia.

* JAIR FERREIRA DOS SANTOS
é ficcionista, poeta, ensaísta.

1 - Ver também: Fotografia                VOLTA

 

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