COROAÇÃO DE UMA RAINHA ou
A nobreza popular brasileira

Consuelo Lins 1

Na seqüência inicial do vídeo Coroação de uma rainha (1994), de Arthur Omar, vemos em plano aproximado o rosto de um menino negro, extremamente concentrado, soprando para o alto. Na imagem seguinte, as nuvens se movimentam. A seqüência se repete. Depois, ele pára de soprar, e as nuvens de se movimentar.

Como é possível experimentar e fazer experimentar uma crença sem passar necessariamente pela religião? O cinema e o vídeo nos dão uma resposta possível, mais precisamente através da montagem e da edição. A junção dessas duas imagens - o sopro e as nuvens - nos faz ver efetivamente alguma coisa e portanto experimentar uma espécie de "milagre" cinematográfico. Os efeitos de montagem (fusão na mesma imagem) e a utilização precisa do som - sobretudo de ruídos eletrônicos - contribuem para imprimir uma atmosfera de encantamento a essa seqüência, e nos coloca em um registro de fábula para assistir um conto dos dias de lua cheia, que se inicia com um canto de galo.

De Congo à Coroação: da impossibilidade de representação à possibilidade de criação e invenção da imagem

Trata-se na verdade de fragmentos de uma cerimônia de coroação de uma rainha ligada à congada, tema já tratado por Arthur Omar em Congo (1972/16 mm, preto e branco), filme minuciosamente analisado por J. C. Bernadet no livro Cineastas e Imagens do povo 2. Congo se situa no cruzamento do cinema experimental com o cinema documentário reflexivo, articulando a desconstrução da linguagem documentária, sua relação com o objeto e com o espectador. Não há nessa obra nenhuma imagem "clássica" da congada. Grande parte dos planos se constitui de letreiros, algumas fotografias, páginas de livros ou fotogramas pretos ou brancos. Há poucos planos "do mundo". Apenas imagens de um ambiente rural que, se possuem uma relação com a congada, é bastante distante e de difícil percepção.

O filme foi realizado em um período marcado por documentários que registravam aspectos tradicionais da cultura. Congo estabelece uma relação de tensão com essas produções: evoca, pelo título, uma temática então atual, mas na verdade desaparece com ela. O que resta a nós, espectadores, são pedaços do conhecimento em torno da congada, fragmentos de informações tiradas das obras de Arthur Ramos, Câmara Cascudo e Mário de Andrade. "A lição do filme Congo é que só o que interliga pode ser dito, mas não necessariamente de uma maneira interligada" 3. O saber documentário fica cortado do seu objeto, não é mais um meio de apropriação da congada, torna-se ele mesmo um objeto. É uma estética que insiste na opacidade e afirma: a imagem é ontologicamente falsa.

Coroação de uma rainha se inscreve em um outro momento do cinema de Arthur Omar e do cinema documentário, e se as experimentações continuam ocorrendo em diferentes dimensões - na concepção geral, na montagem das imagens e particularmente nas articulações entre imagem e som (músicas, ruídos e falas) - o vídeo não deixa de nos mostrar imagens sonoras e visuais de um acontecimento, que no filme de 1972 não é mostrado 4 . Não há nessa trajetória, absolutamente, uma vitória da dimensão documental sobre a dimensão experimental, até porque em Coroação essas dimensões estão absolutamente imbricadas. O vídeo tampouco é o avesso de Congo. Há sem dúvida ressonâncias entre esses dois trabalhos e o que ambos revelam, se os colocamos em relação, é uma mudança de atitude no que diz respeito às imagens, na qual vislumbramos uma crença, justamente, nas possibilidades de criação e de invenção de imagens do mundo, crença talvez inexistente, ou de um outro tipo, no filme dos anos 70. Não se trata de uma restauração da representação clássica, mas a afirmação de uma outra maneira de mostrar imagens do mundo e de colocar em cena personagens.

A reflexão crítica presente em Congo, negativa em relação à produção audiovisual documental - Antidocumentário, provisoria mente, dizia o título do seu artigo de 72, desaparece ou talvez tenha sido aprofundada, intensificada a ponto de se transformar, se metamorfosear em um processo de criação positivo de uma nova imagem. Se Congo problematiza falsificando a representação documentária, Coroação vai além: rompe com as raízes do documentário clássico e faz outra coisa, para além do documentário e da ficção. A que registro pertence a seqüência do menino soprando nuvens? Ficção? Documentário?

O cineasta, o mundo da congada e o cine-mundo

Se em Congo o discurso do documentarista é o que conta, e o que o espectador tem diante de si é o filme-objeto, em Coroação há uma cerimonia acontecendo nas imagens. Assistimos a uma experiência que não está restrita à sala de cinema. É como se no contexto em que Congo foi realizado, não houvesse condições de possibilidade para uma terceira via: ou bem se representava ou bem se problematizava radicalmente a representação, suprimindo o "referente". Já nas imagens de Coroação o caráter d äocumental da imagem fotográfica está presente mas as imagens não são réplicas do real: são matérias de expressão tanto no que diz respeito à composição das imagens, onde vemos um sofisticado trabalho de elaboração dos planos - closes do rosto de uma senhora negra ou do feijão cozinhando beiram a abstração, planos dos fogos de artíficio, dos pés dos integrantes da cerimônia - quanto na articulação das imagens com o som, criando uma multiplicidade de ressonâncias.

Assim como em Congo, rupturas e descontinuidades continuam existindo, mas através de diferentes procedimentos.

1. Não há qualquer referência mais explícita sobre o que significa essa cerimônia de coroação. Sabemos que se relaciona com a congada, a partir dos depoimentos das rainhas - "A minha mãe é a rainha Conga, a rainha maior abaixo de Deus e Nossa Senhora"; "Os festejos do Congado, os guardas do Congo, saltitam muito, pulam muito, representam o movimento e abrem caminhos"; "Apareceu uma imagem de Nossa Senhora do Rosário dentro do mar e os brancos foram buscar a santa para colocar na Igreja mas no dia seguinte ela estava de volta no mar. O grupo dos Congo, remanescentes do Congo, com fitas coloridas, espelhos, capacetes, cantos, tambores, foram buscar a virgem."

2. Não há referência à localização geográfica do que estamos vendo. Pelo sotaque, podemos supor que estamos em Minas Gerais. Sabemos, através dos créditos do final, que o vídeo foi gravado na comunidade de Jatobá, sem nenhuma outra informação mais precisa. O que já desloca o que vemos nos documentários dominantes, onde essa informação é normalmente fornecida já no início do filme.

3. É difícil identificar quem é que vai ser efetivamente coroada, se uma ou mais rainhas, pelo menos no início do vídeo. São várias rainhas que se apresentam, que se arrumam.

4. Não sabemos os nomes das pessoas, confundimos as identidades È dos que estão participando, a função exata que cada um tem na cerimônia, em suma, a relação entre os personagens e o acontecimento da coroação é pouco clara para nós, espectadores. Uma rainha vai ser coroada, eis o acontecimento. Mas o processo de escolha, a função dela daqui para frente, os antecedentes e perspectivas, nada disso é dito. Não há qualquer prolongamento da cerimônia, nada além da cerimônia e da preparação concreta propriamente dita. Há uma estrutura que se repete: depois de uma festa de fogos de artifício, quando poderíamos supor que a cerimônia e o vídeo terminariam, há uma retomada a partir da repetição de imagens e sons que já vimos no início do filme: a lua, o canto de um galo e a imagem da rainha colocando um vaso de flores num pátio. Em seguida, ela conta o milagre que aconteceu com ela. A dimensão de resistência cultural é enfatizada, com a apropriação "indevida" de diferentes santos católicos a um ritual de origens africanas.

5. Coroação implode de uma certa m aneira com a música onipresente, dominante no cinema, que abafa a multiplicidade de sons, ruídos, vozes das mais variadas procedências, que nos envolve, que temos em nós mesmos. São raros os filmes que conseguem criar uma trilha sonora com tal potência. Em Coroação, a faixa sonora realiza uma espécie de filtragem nesse bloco sonoro monolítico, desanuviando, tornando límpida nossa audição, complexificando-a, abrindo brechas, deixando passar um pouco de brisa, um pouco de caos. E não porque privilegie o som direto especificamente. Em muitas seqüências, o audio original é suprimido, dando lugar a um outro ritmo que celebra a cerimônia e impõe um rigor na apreciação do espectador. De uma certa maneira, Omar faz algo que ele próprio identifica em Entusiasmo, primeiro filme sonoro de Dziga Vertov: "Os ruídos se transformam em música e a música é tratada como ruído." 5

 

Fé e fabulação

Logo no início do vídeo, diversas rainhas se apresentam, entre as quais a que vai ser coroada naquele dia.

" O dia mais feliz da minha vida" (...) "Hoje que vou ser coroada Nossa Senhora das Mercês."

"Eu sou a autoridade máxima. A nossa rainha Conga de verdade, ela já é a rainha Conga há 36 anos, ainda é viva, mas como ela já está muito de idade, então ela passou o cargo dela para mim".

"A minha mãe é a rainha Conga, a rainha maior abaixo de Deus e Nossa Senhora e eu sou a rainha Perpétua, aquela rainha de todo ano. Quando a gente está vestida de rainha a gente é diferente".

"A coroa representa poder, majestade, autoridade".

"Ah, não sei, a gente sente um vazio assim por dentro, sabe? uma alegria, uma alegria...".

 

Fragmentos de falas que revelam uma fabulação profundamente enraizada e misturada à vida cotidiana dessa comunidade de negros de uma Confraria do Congo de Minas Gerais. Fabulação religiosa, atravessada por uma fé movedora de montanhas, que faz d a vida algo que vale a pena ser vivido. Fabulação que libera uma potência: a expressão desses personagens da nobreza popular brasileira 6 . Os santos e as divindades são entidades com existências reais, que fazem esse mundo melhor. Fé, sim, mas não em outro mundo, no paraíso celeste ou nos amanhãs que cantam, mas em um mundo do aqui e agora, no vivido daquele instante. Fabulação e religião inextricavelmente ligadas, evocando o começo dos tempos quando o ato de fabular forjava explicações para o inexplicável, aplacando medos e angústias ligados à sobrevivência. Fabulação que produz religião - a cerimônia da coroação - e que produz arte - o vídeo de Arthur Omar. O ato de contar e de se contar, o real transformado em elemento de fabulação é na verdade uma atividade que envolve não apenas personagens mas também o cineasta, que intensifica a fabulação dos outros 7 , contribuindo para a invenção de um povo.

 

A subjetiva indireta livre

Coroação é produzido a partir da interação entre os que filmam e os personagens, que falam para a câmera. Não vemos sinais da equipe na imagem nem ouvimos as perguntas do cineasta. Na verdade, a presença mais explícita do diretor se dá de outra maneira, na relação entre o que comumente chamamos de imagens objetivas - as imagens da câmera ou do cineasta - e imagens subjetivas - a visão dos personagens. Essas dimensões no cinema documentário clássico sempre foram muito distintas: o cineasta sabendo muito bem quem ele é e não se misturando absolutamente com o que está sendo filmado, seu objeto. Em diferentes momentos da história do cinema, como o cinema-verdade de Jean Rouch, essas imagens se misturam. É o que Pasolini chama de subjetiva indireta livre, ou seja a imagem objetiva adquire uma certa subjetividade e entra em relação com a maneira de ver dos personagens. No caso de Coroação, ocorr e uma contaminação entre essas imagens através da mise en scène da crença 8 . Contaminação que permite ao vídeo mostrar uma história de fé sem imprimir um tom crítico 9 , mas também sem que haja uma adesão à crença religiosa. Omar filma a ligação de uma comunidade com o mundo através da fabulação, afirmando ao mesmo tempo sua ligação com o mundo através do cinema. A imagem do menino soprando nuvens situa esse vídeo no mesmo movimento fabulador dos seus personagens. A crença religiosa, já praticada com um prazer de arte, se duplica de uma crença no cinema 10 .

Coroação de uma rainha coloca cineasta e personagens no mesmo campo: o da afirmação, em graus diferentes, do artifício, da fabulação e da crença. Nele, a dimensão de resistência cultural se manifesta, seja no que diz respeito às práticas minoritárias da cultura negra ou às práticas minoritárias do cinema.

1. Consuelo Lins é Professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação da ECO-UFRJ volta

 

 

2. Cineastas e imagens do povo, pgs 94-102, Brasiliense, 85 volta

3. Arthur Omar, texto publicado originalmente em 1972 pela revista Vozes. Parte do livro Investigações cinematográficas, ed. Vozes (no prelo) volta

4. Uma das manifestações da congada é a coroação dos reis do Congo e de diferentes realezas. Há documentos que atestam que ela é praticada no Brasil desde o século 17. E desde então já misturada com os santos católicos. Nossa Senhora do Rosário, padroeira dos negros, Santa Ifigênia e São Benedito (ambos negros) volta

5. Arthur Omar, Rádio Nova, Publique, ECO/UFRJ, pg 39. volta

6. Expressão utilizada em uma conversa com uma amiga produtora - Beth Formaggini - e que me pareceu absolutamente adequada a determinadas personagens do documentário brasileiro. No filme de Arthur Omar , trata-se "efetivamente" de uma nobreza, mas é uma dimensão para além de qualquer título e que está presente em diversas personagens de Eduardo Coutinho, como Dona Elizabete em Cabra Marcado para Morrer. volta

7. Personagens que são intercessores do cineasta, e que por sua vez sem ele não se exprimiriam. É um movimento de ida e volta, de tornar-se outro tanto de um lado quanto de outro, em um movimento que acontece pelo afeto, pela intensidade dos encontros. A câmera incarna uma presença subjetiva que não é da ordem do individual, mas criada a partir da mistura de dois pontos de vista. volta

8.O cinema do Eduardo Coutinho tem uma outra maneira de criar uma contaminação entre essas duas imagens, ele interage, produz as situações que filma. volta

9.Comum nos documentários dos anos 60 quando a religião era vista como alienante.volta

10.Cristiansimo e revolução são duas crenças que atraíram diferentes cineastas, atravessando a história do cinema. volta

 

ENSAIOS