Cosmologia erótica
do plexo fotográfico de Arthur Omar " Será que o cérebro de mais ninguém
funciona desse jeito? Não acredito." A série Antropologia da Face Gloriosa de Arthur Omar é uma experiência de arte. Sua construção se impõe a quem resolver sentir e entender a trama realizada. Saber seu alcance, pedirá mais: será preciso a entrega a certo experimentalismo no sexo e no sentido aí envolvidos. O lugar a partir do qual a insistência do trabalho acontece como chance de efeito preciso se acha articulado com esse fator. A coerência lógica dos signos que garantem o impacto formal da série é a afirmação da arte. O trabalho, depois de algumas extrações (1984, 1993, 1995), chega à medida de livro, em 1997*. Sendo assim, ele se perfez através de uma aventura: a fantasiação carnal exercida na busca de sensações máximas concretamente atingíveis. Sexo e arte iluminam o que pensará tal "antropologia". Existe ali orientação gnosiológica, embora nada tenha a ver com antropologia de cunho científico. A série finge estabelecer um corpus etnológico. Ela constitui as "fontes primárias" para pesquisa futura sobre as expressões da humanidade arrebatável. O que é atingível na cena sexual fica instado a revelar-se e mostrar seus alvos. Em que medida a expressão do atingimento de determinado estado (prazer? gozo? êxtase? indiferença?) toca o alvo? Isso porventura só se daria nos extremos do "amor"? O semblante orgástico seria diferente se expresso no interior de uma cena sexual não amatória? O gozo de "amor" levaria ao êxtase? Haveria êxtase fora do "amor"? Diante dessa nossa imensa ignorância a respeito, a arte de Arthur Omar responde com a oferta de imagens que sirvam de suporte à reflexão de todo esse questionamento. Lição de Erótica e de Arte. A obra resiste agora à interpretação. Vale dizer: ela provoca leituras, e suscitará o interesse de explorar o sentido de toda essa experiência de elaboração. É seu apelo provocativo, sua forma de impactar, é seu poder de tocar e emitir signos. Uma obra que traz o instante fugaz com concretude plástica exigiu longo período de conclusão (1973-1996). A consumação do sentido proposto pelo dispositivo pede que se circunscreva um tempo próprio. A questão ali construída exige um tempo sensível a fim de parar sensações. É assim que dirá o que tem a dizer, ou seja: fazendo algo tocar a carne de quem é empuxado pelo que tem força de tornar irradiada uma face. O mundo cultural, moral ou ideativo aqui não comanda a direção daquele estado, não pesa nem conta, ali se tem uma dimensão difícil de nomear. A Antropologia da Face Gloriosa se baseia no resultado de uma longa experimentação. Em segundo lugar, numa experimentação de domínio técnico específico da fotografia e na exploração de suas possibilidades sígnicas (há toda uma cultura fotográfica em jogo). Em terceiro lugar, numa experimentação do motivo que caracteriza a hora e o lugar de referência: o "êxtase" compartilhado na intimidade do Carnaval de rua. Em quarto, numa experimentação com o júbilo da exibição, da mascarada que absorve o imaginário do uso de fantasias durante o Carnaval, mas não só, já que o Carnaval em multidão não é vivido de um só jeito. Como o sexo. É aí que nasce o que virá a ser uma foto da série (1m ´ 1m, versão final, antes de reprodução em livro). E aí comparece o protocolo de produção e a respectiva atenção sintônica do fotógrafo que fabrica imagem como objeto de arte, subtração de um ápice, num fulcro determinado. Há um tom quase humorístico nos títulos. O fato suscitador é que eles carregam ainda mais de sentido o indecifrado das faces gloriosas. Embora certa tradição figurativa ocidental tenha gerado imagens desses estados, o que ali se tem não parte de estados já dominados. Qual o rosto que traduz um êxtase? Que postura corporal o sustenta? Que gesto o induz? Que olhar? Que expressão? Que som traduz o êxtase ou mesmo essa coisa inominável que suspende a consciência e permite a entrega plena na confiança do que se deu? Como passar de um meio para o outro? Como transduzir a experiência do êxtase em paragens sexuais numa visibilidade capaz de assegurar formalmente o efeito de um confronto estético que ponha qualquer um diante de si, face à questão dos êxtases? Em graus diferentes, e independentemente de condição social, isto está brilhando nos olhos de todos, na fração de segundo que seja. O que serão as faces gloriosas senão a expressão de uma carne diante de algo que se colocaria como fora de toda medida e que, no entanto, é o que mais alimentará o íntimo de um processo de gozar, de ficar entregue ao instante absoluto? A carne face ao "glorioso" - matéria divina? matéria louca? - reduzida à expressão de um rosto, de uma face trabalhada por sedimentações de êxtases - a foto final. O que explode na relação com si mesmo explode também na foto. Os grãos estourados adquirem a medida de porosidade que figura a iluminação diante de. Nesses títulos ressoam formulações verbais dos nomes das fantasias dos concursos de Carnaval nos grandes clubes. Mas para nomearem bem o quê? Para assegurarem o golpe estético que nasce traduzindo o dificílimo de traduzir. O instante extático. Como nomear a junção do corpo com o estado propriamente extático (sua projeção carnal daquele instante em pura entrega), ali onde já não há mais fora nem dentro? Estado de transe... o desligamento extático. Onde se torna visível o momento de maior abandono? Como capturar a "lucidez" desse instante? É nisso que um título como "Retire o Centro e terás um Universo" instiga por si à busca da imagem que realizasse seu sentido. Se o dispositivo fisga o espectador, ei-lo levado à ginecologia desse "fio vermelho" das contorsões gozosas expostas na mesa de operação em estado de metáfora. Um ponto é capturado, fica subtraído. Matéria bruta com a qual se manipula o rosário das cenas e seus semblantes e esgares de gozo, ou extáticos, ou indiferentes. Como capturar o ruído de fundo que insiste a partir dos estados diferenciados, os estados de prazer, de gozo, de graça, de alegria, de transe, e sobretudo os de arrebatamento? O que ali terá sido revelador? O que ali será inédito? O que elevou um sentir junto a um grau tão elevado de autonomia? O que é o êxtase senão essa ingerência de si tão extradita e tão infensa a outro tempo que o tempo sensível? Haverá memória disso? A metáfora de ressonância cosmológica serve aqui apenas para dimensionar a pretensão dessa antropologia, a saber: a investigação dos estados mais que meramente prazerosos ou mesmo gozosos. Trata-se nela de indagar todos os êxtases. Mais do que indagar, acioná-los. Onde o êxtase aparece? Cada foto estabelece um tensionamento próprio entre: (a) rua/faces anonimizadas; (b) espaço público/nomes das fantasias de concurso; (c) alusivo ao orgiástico ou ao orgásmico/expressão elevada cuja perspectiva vai do prazer, do transe ao êxtase místico, à catalepsia afásica. Faces são extraídas de um mundo íntimo da rua do Carnaval, são trazidas a uma dignidade singular. Nomes são levados a sério como transdução do foco expressivo dos arrebatamentos (o que eles exprimem). Quando nos perguntarmos pela forma do júbilo e suas reais implicações na vida concreta e seus processos, e por sua tradução possível, esbarraremos certamente com a força do experimentalismo de Arthur Omar (mesmo que ele diga o contrário). A determinação do projeto, a técnica fotográfica, a circunstância carnavalesca, o processo erótico, toda essa experimentação interna à forma e ao aleatório dos raptos de êxtase revela tal convergência. O foco assim discriminado no negativo, instado pela decisão formal, configura o suspender as sensações (metáfora do arqueiro zen). Algo como fotografar o negativo como matéria de realidade. Um sensor colhe uma imagem. Outro sensor recorta do negativo, depois do primeiro registro, o ponto máximo de atingimento. Concentração expressiva! Onde parar na química? Que música única acompanharia a catálise, a decantação? A operação recomeça, algo como descobrir o ponto que aboliria o caráter aleatório atribuível àquela imagem. Sua condição é a de apresentar a insistência de estados intensos nos respectivos modos de máxima satisfação. A fabricação do êxtase a partir do negativo revela que a foto se faz por controle do acaso, através de escolha precisa que encapsulará algo que se subtrai à cena: o momento em que se resplandece admirado diante do que atinge o supremamente "gozoso", o mais do que "gozoso", o instante extático. Contudo, ainda seria importante pôr em destaque que, na criação desse trabalho, existe um plano concreto, o "laboratório sexual" e a imensa plasticidade da visualidade fugaz do fogo extático. Memória que assombra o erótico e o místico. O fundo do trabalho traz, pois, em si um enorme experimentalismo sexual, que é projetado no lance expressivo. A alteridade das situações humanas que comporta o fluxo carnavalesco, até ele ser de novo "revivido", "recriado" no laboratório das lâminas de imagens, mostra a riqueza da variação do que foi captado. São provas de que algo é trazido à cena cujo estofo deriva do divertir-se, do gozar, do perder-se no extremo entregue ao que conduz ao alvo do instante. Traduzir, transduzir a coisa captada, fotografar, refotografar o fotografado, chegar de novo a deixar registro do êxtase atingido. A figuração daquilo que escapa e tem, na sua aparição, uma consistência extremada. Será necessário então considerar o acionamento do corpo e da excitação da carne. Trata-se de um sexo não higiênico, nem salutar. Uma sexualidade fora do âmbito da cidadania. Mesmo que o material visual aponte dominantemente para a inserção no rito coletivo, o instante em questão não se semantizaria apenas por esse solo. O encantamento do artista por expressões arrebatadas, surjam elas ou não nas fodas, indica o vetor que porta a assinatura do trabalho. Pode, desse modo, querer fundar um saber, uma ciência que investigue os semblantes, os esgares, a topologia das faces arrebatadas, numa perspectiva inteiramente diversa da fisiognomia e sua obsessão psicológica. Algo ganha compleição no esgar do gozo vindo do sexo; algo ganha compleição no instantâneo da pose colhida no íntimo carnavalesco; algo ganha relevo na revelação (no laboratório e no enleio); algo dá acesso a um estado singular, autônomo, sagrado, quase sem história exceto pelos signos que a realidade material do rosto não deixa de fazer pesar, com ou sem maquiagem. Ao sustentar tal provocação imagética e ao trazer à tona a questão crucial, nestes tempos de sexualidade mercadoria ou de roupagem cidadã, a experiência do artista situa o homen comum face ao recurso sublimatório do sexo experimental e seus silêncios. Sendo a arte sexo experimental, é nisso que essa "antropologia", de precária nomeação, encena a referência do poder da ficção da arte. Como nomear um saber que considere esses vestígios, essas "porras secas" de máximos atingidos, esses sedimentos e avalie, com precisão, seus sentidos intrínsecos da experiência? A mão, o plexo quer segurar tais vestígios, "ruídos de fundo", exibi-los, torná-los memória viva de uma coisa desaparecida e cujo aguilhão não arrefece. A face gloriosa descreve o périplo de um descenso pelo estado de êxtase até a realização suscitadora dos atingimentos máximos. É esse o grande movimento equivocante da obra e o jeito transductivo disparado pelo artista. O que se ilumina é a face mortal porque o êxtase passará no atingível, mas seu registro deixa memória da força de aparição dos plenos máximos do fazer erótico-poético, conquistando um tempo íntimo próprio, de algo que, mesmo à revelia, freqüenta ainda por cima o fundo orgiástico da alma brasileira. E aí jaz o afeto do trabalho.
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