A COROAÇÃO DE UMA RAINHA 1 video de Arthur Omar, Produzido e exibido pelo Chanel Four em 1996Texto: Ivana Bentes *Com A Coroação de uma rainha, Arthur Omar retoma uma linha interrompida do cinema brasileiro dos anos 70 de caráter antropológico e documental, só que transfigurada e renovada numa "antropologia gloriosa", o documental-poético que sempre marcou sua obra. Omar, que em 1972 escreveu um artigo ironicamente intitulado "Anti-documentário provisoriamente", que lançava as bases de toda uma estética de ruptura com o que considerava "sociologismo mecânico-paternal-defensivo" dos documentários da época, faz, em 1993, um "clip" folclórico, poético e viceral, em que a informação e o documental, a narração, estão a serviço de uma lógica audiovisual. A cerimônia de coração de uma rainha negra da confraria do Congo no subúrbio industrial de Belo Horizonte é o ponto de partida de Omar que vai operar, entretanto, num registro singular: a passagem entre a vida cotidiana de uma mulher comum e pobre e a sua entronização num espaço sagrado de esplendor e admiração entre "súditos" e companheiros. No registro documental vemos uma cerimônia culturalmente sincrética, narrada de forma elipîtica, sintética e fragmentada: flashes de um ritual tradicional de origem negra encenado como uma missa católica. Os participantes se vestem com uniformes característicos e todo o acompanhamento musical é feito com tambores pesados e canções ancestrais de glorificação, lamento e exaltação da raça negra e de seus reis e rainhas celestes e terrenos. Com o mínimo de elementos explicativos, emerge na tela toda uma estética do êxtase e uma política de resistência cultural em meio a um cenário de depauperação económica e social, tendo como tênue fio narrativo a coroação de Alzira, uma simpática senhora negra de 65 anos. Esta desconsertante emergência de um mundo aristocrático e monárquico, num cenário depauperado, beira a ironia e a derrisão, mas, como em toda sua obra, a etnologia lírica de Arthur Omar transforma a ironia em afirmação vigorosa e sublime, e o julgamento em pathos, atravessado de terno humor. Sentimento imperial que está enraizada no inconsciente coletivo brasileiro e volta à superfície no desejo de eleição e coroação, real e simbólica, de toda sorte de reis e rainhas (rainhas do rádio, reis do futebol, da música, do carnaval, etc.), presente ainda na forte hierarquização das relações de poder interpessoais e institucionais. Não se pode esquecer que o Brasil foi um país monárquico desde a independência até 1889, ao contrário dos outros países latino-americanos que logo se proclamaram repúblicas. A coroação de uma rainha, arranca o que há de sublime na transfiguração dessa herança, tornada imagem pura e gloriosa do Império nas cerimônias, reatualização que desempenha a estranha função de barreira psicológica contra todo tipo de devastação . O vídeo destroi assim qualquer maniqueismo, arranca o poético do que poderia ser pobre exotismo e folclore, compõe uma pequena ópera onde poderia haver didatismo, tudo isso sem "sociologia", num êxtase audiovisual que combina o doméstico (cozinheiras, senhoras de rolinhos na cabeça, gestos cotidianos, despojamento) e um mundo mítico, de pompa e circunstância, de tensão e pathos (a coroação, os símbolos, os objetos rituais, a bandeira, os fogos de artifício, o estranho cortejo pelas ruas do bairro), indo do patético ao solene e triunfal. Numa das cenas iniciais, uma mão negra mexe um caldeirão de feijão e vemos a legenda "cosmos". A coroacão de uma rainha tem a densidade dessa feijoada cósmica, prosaica e mítica, em que a montagem liga o micro e o macrocosmos e onde um grupo de não mais que 50 pessoas fundam todo um Império. *Ivana Bentes é doutora em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, crítica e pesquisadora de cinema e artes visuais, professora da Escola de Comunicação da UFRJ, autora de Joaquim Pedro de Andrade: a revolução intimista (Ed. Relume Dumará- RioArte. 1996) e Cartas ao Mundo. Glauber Rocha. (organização e introdução). Editora Companhia das Letras. 1997; é apresentadora do programa Curta-Brasil (TV Educativa) e co-editora de Cinemais: revista de cinema e outras questões audiovisuais. VOLTA 1 - Ver também: Vídeos VOLTA
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