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"Comunhão e
Extase"
Luis Camilo Osório * A Antropologia da Face Gloriosa de Arthur Omar é um work in progress. Não só por ele continuar fotografando/construindo sua antropologia do êxtase, mas porque a cada nova montagem surge uma reação diferente. Parece que as fotografias abandonam a neutralidade de ser mero registro de um momento passado e assumem a atualidade desconcertante do aqui e agora. Expostas no CCBB, em seguida à Bienal de São Paulo, as faces gloriosas são outras apesar de serem as mesmas. O tema é simples: o carnaval, a festa, o delírio, a entrega, a loucura...a vida e a morte enlaçadas.De algum modo misterioso, inexplicável, afinal é disto que se trata, estas fotos ocupam um espaço intermediário entre o que está sendo visto e o olho que as vê. Como disse o próprio fotógrafo, indecisão entre olhar os rostos e ser olhado por eles. A tonalidade afetiva das expressões projeta-as para além da moldura. O momento captado é de abertura total em relação ao outro. Vendo estas fotos lembrei-me de uma frase do poeta alemão Hölderlin onde se lê que "pouco saber, mas muita alegria, foi dada aos mortais". Uma alegria contagiante e contagiada, e que perdendo a medida de si vai ao encontro do outro: comunhão e êxtase. Em um mundo cada vez mais protestante e careta, o Brasil e o carnaval fazem diferença. E é dela, de uma diferença positiva, que falam as fotos e a antropologia de Arthur Omar. Não tem ninguém posando para o fotógrafo, não há tempo disponível. Todos os retratos são cegos pois o transe, assim como a festa, exige cumplicidade. O fotógrafo está à deriva, como estava Van Gogh diante de qualquer um de seus modelos; razão e loucura aparecem irmanados. Estão expostas 74 fotos tiradas ao longo de 25 anos. Colocadas lado a lado em 2 filas contínuas na parede, elas vão se embaralhando e quase começam a dançar em volta do espectador. Ficamos contidos no espaço das fotos; o que é bastante apropriado em se tratando do envolvimento-movimento demandados por elas. Não podem deixar de ser mencionados o vídeo e o livro que acompanham a exposição. O primeiro é um registro de 40 minutos da "cozinha" que precede o enquadramento: o ateliê do fotógrafo. As fotos são lavadas, muito lavadas, mas a quentura das faces gloriosas permanece inabalada. Quanto ao livro O zen e a arte gloriosa da fotografia é uma síntese do pensamento do autor e se destaca pela composição original de imagem e texto. * Luis Camilo Osório
é crítico de artes plásticas do jornal O Globo. Texto publicado originalmente no
Segundo Caderno de O Globo em novembro de 98.
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