ARTHUR OMAR CANIBALIZA
IMAGEM EM AUTO-RETRAT0S

Antonio Gonçalves Filho *

1.jpg (29514 bytes)O auto-retrato, como gênero, serve muito mais ao artista do que ao espectador. Veículo de autoconhecimento, ele expõe com freqüência um lado escuro que o criador tenta transformar numa experiência de caráter construtivo. Onde antes existia compulsão neurótica, surge uma saída para a livre manifestação do ego. Os vários auto-retratos do pintor norueguês Edvard Munch (1863-1944) constituem exemplos da dramática expressão dessa experiência existencial. E é exatamente Munch a grande referência do fotógrafo e cineasta Arthur Omar no ensaio fotográfico Demônios, espelhos e máscaras celestiais.

Nesses dezoito auto-retratos em que Omar ensaia olhares diabólicos e angelicais, a presença de Munch é osmótica. Passa como um solvente pela membrana do tempo, transformando a fotografia numa caixa de ressonância da angústia do fim de século. Não apenas o passado, uma vez que a tela 0 grito (1893) é o modelo confesso de alguns dos auto-retratos de Omar, mas deste fim de século não menos trágico. Omar quer experimentar a sensação do personagem de Munch gritando sobre a ponte, mas não tem intenção paródica ao adotar a figura como modelo de expressão.

Omar rejeita igualmente a paródia pop warholiana, que transformou retratos em produtos de consumo próximos a uma caixa de sabão. Nesses auto-retratos não há lugar para o anedótico. Em estado alterádo, essa "face gloriosa" pode ser assustadora como a de um monstro diabólico, ou suave como uma máscara celestial, dependendo da intervenção na foto. Em grafismos que fazem lembrar o mundo do alemão Hans Hartung (curiosamente com uma de suas telas ocupando outra sala do museu), Omar interfere com chifres ou garatujas sobre os retratos, modificando o próprio rosto.

O sagrado e o cotidiano

Por diferentes vias, Munch e Omar buscam o correspondente a uma manifestação de caráter teofânico nas imagens. Munch queria que as pessoas olhassem suas pinturas como cenas sagradas do cotidiano, comovendo o espectador com o drama humano de seus personagens. Chegou mesmo a escrever que esperava dessas pessoas o mesmo respeito que elas demonstravam ao tirar o chapéu para entrar num templo. Omar, como um homem do século XX, não espera o mesmo, mas sabe que a permanente presença do mal no mundo contemporâneo só pode ser combatida se não for banalizada. Com efeito, esses demônios que aparecem nos auto-retratos, nascidos da interferência gráfica do próprio autor, são aterrorizantes.

Omar interfere no processo de revelação, desenha, pinta e usa solventes químicos para criar essa diabólica pictografia que ataca o sistema nervoso da sociedade moderna: a comunicação. Esses pictogramas são ruídos de informação. Prestam-se a um discurso estético contra o consumo indiscriminado de imagens na sociedade industrial, uniformizadora. Não revelam, não informam e são impermeáveis à decifração elementar. Em outras palavras, têm o caráter do trompe l´oeil. Esses auto-retratos conduzem ao engano, porque, embora provoquem medo, não pretendem ser assustadores em sua demoníaca dimensão.

grito.gif (47054 bytes)Interessa a Omar o processo de dissolução de imagens numa sociedade que consome e esquece simultaneamente fatos e pessoas. Esses auto-retratos seguem, portanto, a lógica inversa do esquematismo de Andy Warhol, em que os retratos de Marilyn Monroe e do dirigente Mao estão no mesmo patamar de uma lata de sopa no supermercado das artes. Partindo da mesma imagem tensa de seu rosto, o cineasta lida com uma justaposição que subverte o idioma pop, reducionista como todo gênero que adota um slogan visual: faz associações inesperadas com a linguagem dos comics, mas não tece elegia à estética vulgarizadora da reprodução tipográfica. Essa transcrição gráfica busca o arquetípico, a verdadeira face gloriosa do fotógrafo, que usa a câmera como uma máscara para exibir, e não esconder, seu verdadeiro rosto.

Desvario e ordem

Omar não pretende continuar a série de auto-retratos. Essa face gloriosa, alterada entre o entusiasmo e a retratação, entre o desvario e a ordem, entre o diabólico e o celestial, é fruto da decomposição da sociedade de consumo. Não faria, portanto, sentido, explorar uma imagem que já integra um sistema de informação convencional. A série de "faces gloriosas" vai, sim, prosseguir, mas com outros personagens que atingem "uma outra ordem de existência, levemente acima do normal".

No caso do auto-retrato subvertido pelos grafismos, a necessidade de destruir a imagem original para que ela passe a existir na dimensão de "face gloriosa" é sintoma da inserção do artista num circuito contra o consumo (daí a incongruência de levar adiante,um projeto que se esgota nessa série). Omar não faz auto-retratos para criar um fato estético, mas por necessidade canibal, de devorar uma imagem. Seus trabalhos em cinema e vídeo são provas desse voraz apetite antropofágico de captar o êxtase da orgia carnavalesca, barroca, brasileira.

A cor predominante desses auto-retratos é bastante reveladora: o vermelho dos maneiristas italianos, que traduz a barbárie, o erotismo, a monstruosidade, a violência. Os grafismos sobrepostos provocam efeito semelhante ao da abertura de Seven: os sete crimes capitais, o apavorante thriller de David Fincher, em que os créditos aparecem diabolicamente refletidos num espelho, invertendo o discurso linear dos homens e adotando o ponto de vista do demo. Omar realiza a operação inversa. A moldura passa a enquadrar o rosto do visitante sobreposto ao do artista. Envolve o espectador não para que ele analise, mas experimente a sensação de estar cara a cara com a encarnação do mal.

Por se tratar de uma imagem já trabalhada por meios técnicos, eliminando toda a possibilidade de escolhas intelectuais, esse auto-retrato resulta numa imagem familiar e banal, mas ao mesmo tempo surpreende pela sua fragilidade. O personagem que está lá, encerrado nesse espelho, é um demonio em êxtase, congelado e inerte. Omar não trata esse fenômeno de forma teatral, como o macabro Joel Peter Witkin. Não opta pela representação, mas pela apresentação de um demônio igual a tantos outros pobres-diabos que erram pelo planeta.

* Publicado originalmente no Caderno 2 do jornal O Estado dê S. Paulo, de 18 de agosto de 1998.


Antonio Gonçalves Filho é jornalista e crítico de arte.
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