"O Retrato como Ausência de Si"

Luis Camilo Osório *

"Afinal, o que é um auto-retrato?", com esta frase Arthur Omar encerra o pequeno texto para o catálogo que acompanha a exposição "Demônios, Espelhos e Máscaras Celestiais" [LINK PARA DEMONIOS, ESPELHOS], e passa a bola para o espectador que entra na galeria do Centro Cultural da Light. As inúmeras variações fotográficas feitas sobre o próprio rosto ampliam e atualizam as perspectivas deste tema clássico da história da arte.

Apesar de serem fotos, as intervenções e experimentações realizadas em laboratório põem em xeque qualquer definição de linguagem. É um pouco de tudo: fotografia, pintura, teatro, literatura; perpassados de luz, medo, êxtase e drama. Tudo junto, ao mesmo tempo, forçando os limites, criando imagens fortes, pesadas, barrocas. A desmedida dá o tom desta série; aliás este encantamento pelo excesso atravessa a obra multimídia de Artur Omar de ponta à ponta.

Esta característica produz uma reverberação das imagens, captando sempre um momento de ausência de si, de êxtase. É como se o sujeito retratado, no caso destes auto-retratos o próprio artista, estivesse fora do seu corpo, expulso pelas próprias sensações. O grito, referência freqüente na exposição, é paradigmático deste momento de insuficiência de si, de não-consciência, de indefinição da forma, de caos.

É como se estes auto-retratos estivessem mais interessados na captação do instante criativo - assumido em toda a sua intensidade romântica - do que na representação da figura do artista. É a criação que se expõe, mas não se mostra, ela é vontade e não forma.

A força dionisíaca desprendida por estas fotos vem em grande parte das intervenções pictóricas realizadas e das deformações e transfigurações da face. As cores e gestos utilizados são sempre exacerbados. A temperatura da paleta é altíssima, criando um ambiente sufocante. Em algumas fotos, todavia, o excesso de matéria prejudica a economia expressiva do trabalho.

Na pequena galeria são apresentados alguns filmes do artista, dos quais eu destacaria "As férias do investigador" realizado em parceria com o artista Milton Machado.

 

* Luis Camilo Osório é crítico de artes plásticas do jornal O Globo. Texto publicado originalmente no Segundo Caderno de O Globo em abril de 99.
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