ANTROPOLOGIA
EXTÁTICA "NUNCA SERIA ACEITÁVEL UMA TEORIA OU SISTEMA QUE, DE ALGUM MODO, IMPLICASSE O SACRIFÍCIO DA EXPERIÊNCIA PASSIONAL". OSCAR WILDE Antropologia da Face Gloriosa 1 persegue o filão histórico aberto pela tradição romântica e recoloca o sujeito no centro substancial da arte. As imagens de Arthur Omar, ao contrário daquelas que aderiram aos princípios racionalistas, repõem o lirismo como eixo da observação do real.Descendentes diretas da volúpia barroca e da angústia expressionista, essas imagens reavivam o lugar da imaginação e da subjetividade na esfera do trabalho. É ainda o 'eu" romântico, imerso no dilema de se reconhecer e se estranhar no mundo, a motivação última da obra, sua matriz conceitual. Distante do equilíbrio clássico e das vanguardas progressistas que se associaram à técnica e à razão, Arthur Omar vê na linhagem fantástíca de Goya, no gesto caudaloso de Van Gogh ou na expressividade de Munch as origens de um mesmo entusiasmo. No fundo, permanece hoje a tensão que separa a clareza e a objetividade de um neoclássico, como David, do tumulto dramático de um romântico, como Delacroix. Arthur Omar abraça a estética romântica, com toda a sua declaração de potência imaginativa, e busca as relações entre o âmbito sensível e o intelectual. Afirma o sujeito que se interpõe no mundo objetivo, tomando-o visível através de seu temperamento. Quer aderir à realidade, buscar com ela uma comunicação espontânea, mas, como os expressionistas, sabe das limitações desta meta, sabe que a fusão é precária, senão impossível. O destino do artista romântico e expressionista é debater-se entre o engajamento crítico e a solidão. Arthur Omar apreende o "outro" na medida do seu "eu"; tenta clicar "outras faces" pelas motivações do seu olhar, no embate entre o observador e o observado. É possível que o momento "glorioso" pudesse ser aquele lance empático total que os unisse em continuidade, como em continuidade se pensa o objeto da paixão, o objeto da obsessão. É possível que a glória estivesse mesmo nesse "instantâneo", em que se superasse os seres descontínuos,em busca da unidade perdida, Neste caso, faríamos a analogia da reprodução fotográfica como reprodução da vida, como escape à idéia de morte, desejo de duração. A repetição das "faces" tenta suprimir a cadeia descontínua dessas próprias faces, ao mesmo tempo em que nada faz senão acentuá-la. O expressionismo já tentara a comunicação do " eu" com o mundo, embora intrinsecamente consciente de sua falência. Ao buscá-la, falava desse abismo. Antropologia da Face Gloriosa repõe a tensão entre a comunicabilidade e o isolamento, entre a identidade e o anonimato, entre a, consciência e a loucura. O êxtase como momento-síntese em que a realidade está suspensa, em que as diferenças se perdem, as fronteiras finalmente, se fundem. Por instantes intangíveis e "gloriosos., a vida se identifica com a morte, como num gozo metafisico. Do embate entre o artista e a realidade mundana - sua matéria bruta - emerge o sentimento poético que a transforma. E na rapidez do flagrante", o movimento será a permanência mínima da criação urgência desesperada da intuição e do gesto. Mas o gesto não é apenas o ato fotográfico, no registro imediato e no tempo preciso, como ainda, e literalmente, o gesto no seu impulso artesanal, na interferência direta que o artista faz no processo da revelação. É aí que Arthur Omar afirma a prerrogativa do sujeito sobre a mecânica da reprodução. É onde contradiz a razão da máquina, em uma nostalgia tão próxima à dos românticos. Já Van Gogh, fonte primeira dos expressionistas, fada da exaltação e do caráter emergente do gesto a força propulsora de sua retratística. Cerca de uma centena de retratos de pessoas anônimas e populares foi realizada pelo mestre holandês. Foram os primeiros retratos democráticos, fora do sistema de encomendas aristocráticas ou burguesas que ainda governavam Rembrandt ou Hals. Aficionado pelo ser humano, Van Gogh, fez da retratística um meio de penetrar na alma do 'outro", para, através de sua personalidade, tentar reconhecer-se a si próprio. Disse ele: "O retrato permite-me cultivar o que há de melhor e mais profundo em mim mesmo" 2 A vitalidade da cor e a emergência da pincelada deram, pela primeira vez, à face retratada a possibilidade de ser transcrita no curso variável de sua expressão: "o retrato como uma intuição imediata do humano". 3 Mas, seus retratos não se limitaram a perceber o sentimento de humanidade que carrega, por exemplo, a feição simples de um camponês. levado pelo passado religioso, ele buscava elementos transcendentes, algo de eterno, que correspondesse à simbologia do halo nas figuras medievais. Pensava frequentemente na afinidade que existia entre sua arte e a imaginação religiosa. Mesmo o demoníaco, na sua acepção transversa, ao divino, manifestou-se na obra, quando Van Gogh tentou expressar "as terríveis paixões" dos seres humanos, como escreveu a Theo ao pintar The night cate.Os retratos de Arthur Omar guardam algumas semelhanças com o imaginário expressionista de Van Gogh. A exaltação da luz nos jogos do preto e branco substitui a exaltação da cor, mas lembremos que também Van Gogh explorou os fortes contrastes do preto e branco, influenciado pela gravura japonesa. Arthur Omar, igualmente, aproxima-se e reage à face "real", tentando, ao invés, captá-la no trajeto da sua expressividade, no movimento indelével das sensações, em pleno êxtase. As faces gloriosas são justamente "aquelas que vivem atitudes de passagem", " faces que não duram mais do que breves instantes". 4 A câmera ágil do artista acompanha a velocidade da troca muda dos olhares, ali onde se trava o instantâneo fotográfico, clicando os seres no arrebatamento daquela experiência provisória. E é na fluência do sentimento que a face é fisgada, de tal modo que nem a estaticidade do meio técnico da foto impede a sugestão do movimento interior. Arthur Omar imprime claramente seu olhar e sua mão na feitura dessas imagens, "vibrando no mesmo registro que o seu objeto". 5Destaca-as da situação banal, em que se indistinguem no anonimato, para uma atmosfera gloriosa ou demoníaca. Como o grande mestre da cor, ele também lida com sentimentos sugestivos, turbulentos; com o território da intensidade. As imagens de Arthur Omar têm uma iridescência material e simbólica; flamejam formas, latejam conteúdos. A questão ainda é buscar abstrair a realidade, abstrair a forma, tendo em viste a sua expressividade, a sua passagem de "coisa" a "símbolo". O objeto da arte, interposto pela percepção e pela imaginação do artista, é desligado da vida prática, para se dar como "livre invenção conceitual". 6 Trata-se ainda de construir, na comunicabilidade imediata e empática da fotografia, os mesmos ritmos orgânicos e emocionais da vida.As fotos de Antropologia, da Face Gloriosa são precisas e indefinidas, são brilho e opacidade, foco e mancha. A luz perpassa veloz pelos rostos, deixando-os ora nítidos e determinados, ora fluidos como um plasma. A monumentalidade das faces, que se expandem em closes sensacionais, reafirma o lugar da ficção, da produção poética; tudo convergindo para transcender o caráter documental. É a ficção, a ocorrência filtrada por uma expressão artística, o que torna esses seres anônimos e comuns em símbolos de um delírio glorioso. Goethe disse: "a arte é intrinsecamente nobre; por essa razão, o artista não teme o comum". 7Arthur Omar levou vinte anos submerso no mundo da face humana para produzir essa série, que ainda não terminou, e quiçá jamais termine. A obsessão pelo transe carnavalesco vem ao encontro de sua própria mentalidade, exuberante e transgressiva. O trabalho é, ele mesmo, índice da transgressão dos interditos, técnica e simbolicamente. O Carnaval é o avesso do mundo da ordem, da razão, do trabalho. Ligado visceralmente ao erotismo, ele implica, como talvez dissesse Bataille, violência e libertação. Também a matéria fotográfica é "violentada", quando o artista interfere na revelação, incluindo artesania onde antes só havia reprodutibilidade mecânica, varando a máquina com a mão. O erótico está na "cena", mas principalmente no tratamento físico que é impresso à qualidade dessa "cena", quando transformada em objeto da arte. E mais, "a determinação do erotismo é primitivamente religiosa". 8 o que fecha o círculo dessas faces perversas e angelicais. O que distingue o êxtase dos seres de Arthur Omar do êxtase de Santa Teresa, de Bernini?O próprio artista, melhor do que nós, pode finalizar: "Por analogia com a noção de 'corpos gloriosos" que, segundo a doutrina católica, são os corpos existentes no céu e prontos para a Ressurreição, os sentimentos gloriosos são todos aqueles situados levemente acima do normal. Embriaguez, fascinação, paixão, comoção, desvario, frenesi". 9 LIGIA CANONGIA NOTAS1 - Ver também: Fotografias e Livros VOLTA 2 - Van Gogh, Vincent, citado por Meyer Shapiro in Van Gogh, Thames and Hudson. Londres , 1985. VOLTA 3 - Shapiro, Meyer, op. cit. VOLTA 4 - Arthur Omar, in Antropologia da Face Gloriosa, Cosac & Naify. São Paulo, 1997 VOLTA 5 - idem, ibidem. VOLTA 6 - Langer, Suzanne K. in Sentimento e Forma. Perspectiva. São Paulo, 1980. VOLTA 7 - Goethe citado por Suzanne K. Langer, op. cit. VOLTA 8 - Bataille, George in LErotisme. Éditions du Minuit. Paris, 1957. VOLTA 9 - Arthur Omar, op. cit. VOLTA
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