Trechos do livro inédito
Um Olho para Reinar, de Arthur Omar, coletânea de ensaios sobre arte, cinema, vídeo, música, teoria, a ser editado por Cosac & Naify

TRECHO Nº 1.

"Não se trata, nos textos deste livro, de refletir sobre a produção da obra, ou construir uma teoria do trabalho em questão, mas de incorporar ao que se está fazendo a imagem do pensamento que o acompanha, necessariamente, antes, durante e depois.

Assim, a minha produção de escrita relativa a uma obra de imagem, seja ela em vídeo, fotografia, música, desenho ou mesmo de poesia, não procura o mérito de um suplemento conceitual que me colocaria na pele dupla de um artista, ao mesmo tempo, filósofo. Mas ampliar a própria operação artística com o abraço das zonas periféricas do ato fundador, resolvendo a produção num cristal multifacetado. Ver, ouvir e pensar como um processo único, gerando produtos vertiginosamente interligados.

Em suma, é uma intervenção no agir da própria marcha em busca da coisa. E afinal de contas, quando se chega ao final, a coisa é sempre a mesma, apenas aplicada a outros materiais que antes não apareciam no registro. "

TRECHO Nº 2

"O bicho-da-seda segrega o seu produto, o fio de seda, através de uma glândula. Como se chamaria, no homem, um sentimento que fosse a inveja dessa glândula, inveja de ter uma glândula desse tipo? Pois é isso que eu sinto quando ouço o rugir das sedas, rememorando a sua origem glandular.

Uma evolução possível, para o corpo físico do homem, seria desenvolver uma glândula capaz de produzir um fio, um fio de matéria simbólica, que, como todo fio, tivesse um sentido, e que, como a seda do bicho, fosse independente da atividade pensante do seu cérebro.

Uma glândula como essa eliminaria a necessidade ocidental da arte, só que, para tragédia nossa, poderíamos agora entender claramente a finalidade da tesoura, quando ela vem e corta o fio, independente da quantidade da seda. " (AO)

 

EM ANDAMENTO