Trechos do livro
inédito TRECHO Nº 1. "Não se trata, nos textos deste livro, de refletir sobre a produção da obra, ou construir uma teoria do trabalho em questão, mas de incorporar ao que se está fazendo a imagem do pensamento que o acompanha, necessariamente, antes, durante e depois. Assim, a minha produção de escrita relativa a uma obra de imagem, seja ela em vídeo, fotografia, música, desenho ou mesmo de poesia, não procura o mérito de um suplemento conceitual que me colocaria na pele dupla de um artista, ao mesmo tempo, filósofo. Mas ampliar a própria operação artística com o abraço das zonas periféricas do ato fundador, resolvendo a produção num cristal multifacetado. Ver, ouvir e pensar como um processo único, gerando produtos vertiginosamente interligados. Em suma, é uma intervenção no agir da própria marcha em busca da coisa. E afinal de contas, quando se chega ao final, a coisa é sempre a mesma, apenas aplicada a outros materiais que antes não apareciam no registro. " TRECHO Nº 2 "O bicho-da-seda segrega o seu produto, o fio de seda, através de uma glândula. Como se chamaria, no homem, um sentimento que fosse a inveja dessa glândula, inveja de ter uma glândula desse tipo? Pois é isso que eu sinto quando ouço o rugir das sedas, rememorando a sua origem glandular. Uma evolução possível, para o corpo físico do homem, seria desenvolver uma glândula capaz de produzir um fio, um fio de matéria simbólica, que, como todo fio, tivesse um sentido, e que, como a seda do bicho, fosse independente da atividade pensante do seu cérebro. Uma glândula como essa eliminaria a necessidade ocidental da arte, só que, para tragédia nossa, poderíamos agora entender claramente a finalidade da tesoura, quando ela vem e corta o fio, independente da quantidade da seda. " (AO)
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