Arthur Omar é um dos grandes nomes do experimentalismo no Brasil, com uma obra multimídia que abarca cinema, vídeo, fotografia, música, poesia, além da reflexão teórica. Seu trabalho surge no início da década de 70, quando atua como diretor e roteirista de cinema na realização de cerca de dez curta-metragens e um longa. Avesso ao espírito documental - para ele "obra de antiquário" - Arthur Omar transcende a questão do real para compor obras de extremo lirismo e imaginação, como fez em Congo (1972), O anno de 1798 (1975) e Música barroca mineira (1981). Ensaios delirantes sobre o universo das imagens e dos sons, sempre sob a ótica onírica e fantasmática, os curta-metragens Tesouro da juventude (1977), Vocês (1979), O som ou tratado de harmonia (1984), O inspetor (1988) e Ressurreição (1989) seguem a imagem barroca e emocional e trazem para o currículo do artista uma série de prêmios conquistados no Brasil (Festival de Gramado, Rio Cine Festival, FestRio) e no exterior (Festival de Cannes, de Berlim, Cidade do México e Nova York). O longa-metragem Triste trópico (1974), uma crítica ao discurso da antropologia, também acarretou diversos prêmios e foi incluído entre os quinze melhores filmes brasileiros de todos os tempos, numa pesquisa da revista Vozes, em 1980. A carreira em vídeo, desenvolvida a partir dos anos 80, mantém o caráter artístico e experimental de Arthur Omar, divulgando-o mundo afora. 2 Após participações em Caracas, Nice, Oberhausen e Locarno, além das exibições nacionais, o artista começa a ser solicitado para trabalhar em televisões e produtoras européias, como o Channel Four, de Londres, e a ZDF alemã. O primeiro trabalho de consagração na área de vídeo foi O nervo de prata (1987), sobre o artista plástico Tunga. Também sobre outros artistas, Arthur Omar realizou Tony Cragg in / no Rio (1984); As férias do investigador (1994),, sobre a produção de Milton Machado; A ascensão de Mario, o pintor (1996), baseado no pintor italiano Mario Schifano; e Derrapagem no Éden (1997), sobre algumas instalações de Cildo Meireles. Mas, longe de ser, mais uma vez, o simples registro documental, Arthur Omar faz da produção do outro motivo para divagações visuais próprias, altamente impactantes. 3 Na área fotográfica, seu maior projeto tem sido a série Antropologia da face gloriosa 4, um work in progress que se desenvolve há vinte anos, somando já mais de uma centena de fotos. Verdadeira obsessão pelo rosto humano, tomado no transe carnavalesco, orienta o artista na criação dessas faces gloriosas em pleno êxtase, faces que transformam a visão antropológica à luz da poesia. Depois de duas apresentações da série, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (1984) e no Museu da Imagem e do Som de São Paulo (1993), as fotos - dessa vez em maior escala e quantidade, e com montagem em caráter de instalação - foram exibidas na Bienal Internacional de São Paulo (1998). Outra série fotográfica importante, composta de dezoito auto- retratos com o título Demônios, espelhos e máscaras celestiais, foi realizada este ano. Inspirado no Expressionismo alemão, mais especialmente na obra O grito, de Edvard Munch, Arthur Omar intervém com incisões gráficas nervosas e sujas sobre o próprio rosto, compondo em si a imagem do terror. A exuberância do grafismo e da cor acentua o sentimento trágico e violento que o interessa enquanto observador e participante, homem e fotógrafo, alguém que pensa afetivamente o mundo. 0 auto-retratado, "sentido por dentro de olhos fechados", segundo palavras do autor, equivale a um rosto coletivo, à condição humana. Essa série, antes exposta no Museu de Arte Moderna de São Paulo, é o objeto da exposição atual no Centro Cultural Light. Ao lado das exposições de fotografias, e da mostra Os dez mil coisas (1993), em que mostrou desenhos e colagens selecionados de uma coleção de dez mil peças, feitas durante vinte anos, Arthur Omar tem realizado ainda instalações ambientais multimídia. As instalações podem envolver monitores de tevê, projetores de slides, objetos, material sonoro documental, música eletrônica e técnicas eletroacústicas. Cada vez mais freqüentes a partir dos anos 90, esses trabalhos têm levado a crítica a considerá-lo o melhor artista da vídeoinstalação no Brasil, hoje. Experiências como Tristão e Isolda (1983), Silêncios do Brasil (1992), Inferno (1994) e Atos do Diamante 5, esta última realizada este ano no Instituto Cultural Itaú, determinaram o---absoluto domínio do artista na linguagem da instalação, através da mobilização total do espaço e do envolvimento do público. A instalação, dentro do conjunto da obra de Arthur Omar, é um momento de síntese, lugar onde condensa cinema, vídeo, fotografia e o mundo real, onde insere a experiência na "antropologia" do espectador, desencadeando aí emoções e sentidos. Acoplado ao trabalho visual, o artista desenvolve também experiências sonoras, compondo as trilhas musicais de seus próprios trabalhos e de terceiros., Com ação estrutural junto ao universo das imagens, a música intensifica a atmosfera dramática da obra e pontua o ritmo da montagem com o mesmo clímax do desenvolvimento iconográfico. Na polimorfia da produção de Arthur Omar, destaca-se ainda a literatura, campo a que se dedicou através da poesia, muitas reunidas no livro O asno íris, e da prática teórica, que condensou no livro Investigações cinematográficas. Artigos e ensaios escritos para diversas publicações - jornais, revistas e livros - divulgaram em mais ampla escala a reflexão do artista, revelando nele um pensador sensível e agudo das questões culturais no Brasil. Denso e provocador, o texto teórico de Arthur Omar repropõe o Cinema fora da mística do espetáculo e dos modelos narrativos cristalizados. O ensaio O antidocumentário provisoriamente, publicado na revista Vozes, em 1978, por exemplo, além de refletir sobre a natureza do documentário, para ele um "subproduto da ficção narrativa", explicita procedimentos de sua própria obra cinematográfica, toda ela articulada por fragmentos e flashes oníricos e fantásticos, com encadeamentos imprevisíveis. Neste ensaio, Arthur Omar declara que "só o que se interliga pode ser dito, mas não necessariamente de uma maneira interligada", e esta afirmação certamente transborda do âmbito cinematográfico para toda criação artística, e a sua, em particular. Lígia Canongia 4 - Ver também: Fotografias VOLTA 5 - Ver também: Instalações VOLTA
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