Guiomar Ramos Arthur Omar desde cedo manteve contato com a música. "A música veio da minha mãe, que era professora de piano; com seis, sete anos eu também já tocava...com essa idade participei de um concurso de musicalidade onde tirei o primeiro ou o segundo lugar...eu tinha que ficar tocando tambor... eu não continuei a tocar piano, mas essa formação musical da infância foi marcante...me tornei um ouvinte fiel da música clássica". Depois veio a fotografia. Com 13 anos, Omar já participava e ganhava prêmios em salões de fotografia. "Essas experiências foram decisivas para a minha formação visual, porque eu desde sempre tive preocupação de fazer fotografia enquanto arte mesmo, tipo artes-plásticas; a gente discutia muito sobre o tipo de composição da foto...eu me lembro que todas as minhas fotos tinham título. Eu colocava uns títulos grandes como se eles fossem o poema da fotografia". Apesar da formação de músico e fotográfo ele vai se diplomar em Ciências Sociais, "... na época (1967-68), era o que havia de mais avançado e rebelde... a maioria das pessoas já escolhia este curso em função de uma proposta política e isso era o que mais me interessava". Também se envolve com a literatura (a partir dos 16, 17 anos diz ter como meta ser escritor): "...É na literatura, no jogo das palavras, na operação sobre as palavras que eu sempre coloquei o nível máximo de sofisticação a que se pode chegar um artista especificamente...". Lançou um livro de poesia O asno íris (1973) com desenhos seus. Em 1971 faz um curso de cinema no MAM realizando em seguida seu primeiro filme, o curta Sumidades carnavalescas. Além de participar parcial ou integralmente da composição musical de todos os seus filmes, Omar compõe também para alguns curta-metragens de outros diretores.Mas entre suas incursões pela área musical, teve destaque uma experiência exclusivamente sonora: a apresentação de uma instalação ambiental no Centro Cultural do Banco do Brasil intitulada Silêncios do Brasil, 2 durante a conferência da ECO 92. Esta obra pode dar a dimensão da acuidade e precisão com que Omar costuma trabalhar o som em seus filmes. A instalação era composta de música original sua e sons naturais colhidos em seis meses de viagens pelo interior brasileiro. De mais de quarenta horas de ruídos e de músicas folclóricas, montou uma fita de cinqüenta minutos. Esses sons naturais foram sampleados e mesclados com música eletrônica. Todo esse material captado passou ou não por um tratamento até adquirir o formato desejado pelo compositor. Sobre vozes de índios, por exemplo, ele sobrepôs uma percussão eletrônica; já o som dos sapos deixou ao natural : "... esse som de sapos já parece naturalmente eletrônico". Das músicas folclóricas só usou a parte das afinações das violas, os intervalos durante uma música e outra. O som de fogo foi trabalhado eletronicamente. Nesta experiência apenas sonora, repete-se o mesmo processo que ocorre em seus filmes (e que vai ser comentado mais adiante), pelo qual Omar retira os sons de seu contexto original para reutilizá-los em função da formação de um todo que é expressão de seu código particular. É em boa parte através da mixagem com o sintetizador eletrônico que ele vai realizar essa passagem. Em agosto de 1993, foi homenageado pelo IV Festival de Curta-Metragem do MIS (Museu da Imagem e do Som) de São Paulo, com uma retrospectiva de seus filmes e uma exposição de fotos - Antropologia da face gloriosa 3. Esta exposição é composta de cem fotografias de 50/60cm, combinando imagens e textos numa instalação ambiental. Algumas fotos fizeram parte de uma exposição realizada em 1984, outras foram sendo tiradas ao longo dos anos. Para Omar, os títulos que aparecem junto às fotos são muito importantes na sua condição de textos e não em função das fotos. Para ele deve haver um momento em que eles vão ser lidos independentemente das fotos, como se pudéssemos formar um outro todo composto por uma sucessão de títulos separados das imagens:"... o jogo é de articulação, não de fusão - não quero apagar barreiras". A idéia de dar autonomia a cada uma das artes integrantes do todo da obra, com suas respectivas características, sem apagar barreiras (como ele mesmo diz), sem fazer com que uma não viva sem a outra, é fundamental na composição da linguagem de seus filmes. A diversidade de sua formação artística vai se refletir em um estilo cinematográfico do tipo experimental, como se o exercício de cada arte em separado fosse aprofundado na construção de seus filmes. A montagem vai dar ênfase ao formato que os diferentes elementos que compõem a faixa sonora e imagética podem ter. Por exemplo: sua formação de músico influencia a maneira como todos os elementos da faixa sonora vão ser desarticulados de sua relação habitual com a imagem, e ouvidos em sua potencialidade sonora específica na busca por uma nova composição fílmica. Sua formação de fotógrafo reflete-se na maneira pela qual a imagem vai ser trabalhada em seu potencial abstrato, na construção de contrastes: no filme Tesouro da Juventude (1977) por exemplo, a fotografia é extremamente granulada e em alguns momentos a tela toda pisca. O curso superior em Ciências Sociais influencia a forma como seus primeiros filmes vão dialogar com o cinema documental da época, o qual muitas vezes representava uma visão sociólogica ou antropológica da sociedade brasileira. Apesar da diversidade de sua formação, é na construção da faixa sonora que este diretor se coloca de maneira mais nítida. É o som o elemento direcional da construção da narrativa de seu cinema. (G. R.) 1 - Trecho da tese de mestradoEspaço Fílmico e Sonoro em Arthur Omar de Guiomar Ramos. ECA-USP. 1996 VOLTA 2 - Ver Instalação e Entrevista VOLTA 3 - Ver Fotografia VOLTA
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