O QUE SÃO FACES
GLORIOSAS? Texto de apresentação da exposição de fotografias Antropologia da Face Gloriosa 1.São aquelas que vivem atitudes- de passagem. Porque não duram mais que breves instantes, frações de sentimentos alterados entre a alegria e a tristeza, o amor e o ódio, o entusiasmo e a retração. Não são nem uma coisa , nem outra, mas tudo ao mesmo tempo. Evocação de períodos míticos e selvagens. Faces que vivem sentimentos gloriosos, e gloriosos tormentos. Por analogia com a noção de "corpos gloriosos", que, segundo a doutrina católica, são os corpos existentes no céu e prontos para a Ressurreição, os sentimentos gloriosos são todos aqueles situados levemente acima do normal. Embriaguez, fascinação, paixão, comoção, desvario, frenesi. Através deles, o homem atinge uma outra ordem de experiência. Sua casa é outra, já não está mais protegido pelo recesso do lar, ou pelo quadriculado do trabalho. A Antropologia da face gloriosa procura estudar "cíentificamente" esses sentimentos, à maneira de uma antropologia debruçada sobre o bárbaro, o difuso, o transversal da nossa realidade de brasileiros. Mas como são gloriosos, é necessária uma ciência ligeiramente diferente do normal para abordá-los. Daí a Fotografia. A Antropologia da face gloriosa é um projeto de exploração exaustiva do rosto humano, em seu transe carnavalesco. O gesto básico da nossa pesquisa é retirar cada face do seu contexto original, e deixá-la viver por si mesma, com sua carga de ambigüidade e mistério. Em cada uma, a sugestão de tribos estranhas, nações africanas desconhecidas, ou periferias obscuras de alguma cidade sem nome. justamente o objeto de uma certa abordagem antropológica. Mas aqui, antropologia se torna sinônimo de proliferação poética. E humor. E simulação. Nesta antropologia, quanto maior é o trabalho técnico de dilaceração dos contrastes, explosão da granulação recorte e superposição das camadas, reenquadramento sucessivo através de recopiagens e aberração de espaço circundante, tanto mais arcaica é a música que se faz ouvir através do enigma visual resultante. Mas como o fotógrafo iria identificar as faces gloriosas em meio a tantas faces normais se aquelas passam vertiginosamente, nunca se dando ao olho nu? Simplesmente entrando em fase com elas, ou seja, tornando-se ele próprio glorioso, uma face gloriosa, a reagir por sim-patia ultraveloz, vibrando no mesmo registro que o seu objeto. O ato fotográfico como gnose. Uma foto-gnose. E assim, a fotografia mergulha na multiplicidade sem nome dos sentimentos gloriosos. Na revelação de cada foto, uma larga margem de Brasil se revela e se cristaliza definitivamente. Dando-se à contemplação, sob forma de uma face enigmática. Cada face gloriosa é anteparo de todo um mundo. Mundo que se abre por detrás dela. O Brasil não é apenas o país que se sabe, mas a soma absurda de uma infinidade de mundos subjetivos e experiências rituais, muito além do que qualquer sociologia, ou qualquer história, ou qualquer psicologia conseguiria apreender. O Brasil é a soma das faces gloriosas que ele possa sustentar. Aritmética dos êxtases. Este livro oferece 161 espelhos, para facetar o trajeto do espectador. Santa Teresa dÁvila (a especialista em faces gloriosas) compara a alma humana a um castelo interior, feito de diamante, e composto de diversos aposentos ou moradas. Na passagem de uma morada a outra, avançaríamos um grau no sentido da perfeição cada vez maior. Mas o que seria de um castelo sem uma galeria de retratos? Morada indispensável, onde, mais cedo ou mais tarde, teremos de nos demorar algum tempo, se quisermos passar ao aposento seguinte. É na galeria de retratos que podemos contemplar os estados ancestrais e inumeráveis, em relação aos quais parecemos, hoje, ter perdido o fio.
Arthur Omar 1 - Ver também: Fotografia VOLTA
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