INTRODUÇÃO SOBRE O ZEN E A GLÓRIA

Texto de Arthur Omar de apresentação do livro O Zen e a Arte Gloriosa da Fotografia. Rio de Janeiro, 2 de janeiro de 99

O Zen e a Arte Gloriosa da Fotografia é uma espécie de livro companheiro do meu livro anterior Antropologia da Face Gloriosa.1,2

Para mim, é uma experiência nova, no tratamento da imagem e no uso do texto. É uma síntese do meu pensamento em relação à prática da fotografia e ao raio de ação da "Antropologia da Face Gloriosa" como estilo de ação fotográfica. Vem complementar as idéias contidas no texto "Teatro de Operações", que está no livro da Cosac & Naify, e que era até então a minha Summa.

A EXPOSIÇÃO NO CCBB3,
Conceito

A exposição propriamente dita, no Centro Cultural Banco do Brasil, ficou bem diferente da instalação A Grande Muralha, da Bienal4, - embora utilizando as mesmas fotos.

Na Bienal, a instalação funcionava como uma grande obra, única e unitária, composta de 99 elementos, de 1m por 1m, que eram as fotos individuais. Minha parede tinha 40 metros de comprimento, e, coberta de imagens, permitia que a instalação desempenhasse um papel importante dentro do espaço arquitetônico da Bienal, com grande impacto sobre a escala perceptiva do visitante.

Agora, no CCBB, do Rio de Janeiro, as fotos podem ser apreciadas de perto, envolvendo o visitante, pela frente e pelas costas, e as diferentes texturas e técnicas utlizadas podem ser percebidas com clareza. A galeria se transformou num espaço todo branco, com o chão também forrado de branco, que, às vezes, me dá a impressão de que estamos no Ártico. Bancos colocados no centro do espaço, permitem que o visitante se demore num jogo de degustação ajustado ao seu tempo interior. Aqui, os olhares, trocados entre visitante e fotografias e vice-versa, são o cerne da significação.

O INFINITO CONTÍNUO5
video que acompanha a exposição

No corredor antes da entrada, o espectador se depara com o vídeo Infinito Contínuo, bem diverso dos meu vídeos anteriores sobre artistas. É um making-of de 40 minutos, centrado nas ações mecânicas, anônimas, ocultas e repetitivas que geraram as fotos altamente retóricas no interior da exposição.

Neste vídeo, entramos no nível do puro artesanato, o domínio da água, do úmido, do fluxo ininterrupto de trabalho manual. É totalmente anti-retórico, sem música, sem ênfase, sem narração, sem comentário. Apenas o som dos murmúrios dos participantes do laboratório, e o som do rádio permanentemente ligado naquele fundo de quintal dessacralizado e bem humorado embora rigorosíssimo, onde se produzem as obras que irão para o museu.

O REINO DO ÚMIDO
as imagens nascem como os bichos

Lava-se, lava-se. É o reino do molhado, de onde saem as obras. Muitas são vistas em sua aparição original, sendo desenroladas pela primeira vez e erguidas à luz do dia. Uma certa emoção me contamina quando eu penso nisso. A água escorrendo pelo corpo da foto, a mangueira como um cordão umbilical às avessas. No museu, as fotos serão vistas secas e para sempre secas, mas não é assim que elas vieram ao mundo. O vídeo mostra o outro lado. Mas da forma mais prosaica possível, documentário.

Assim, nessa versão do CCBB, a Antropologia assenta sobre um tripé: a exposição, o livro e o vídeo. Em cada qual,o processo se transforma, cada qual uma expectativa diferente.

No livro O Zen e a Arte Gloriosa da Fotografia, talvez o elemento mais original e novo da trilogia, essa multiplicidade de pontos de vista se cristaliza como experiência subjetiva do fotógrafo, do ato de fazer Antropologia.

A APARIÇÃO DE UMA IMAGEM SE DÁ SEMPRE NUMA SITUAÇÃO CONCRETA - Nota sobre o Zen.

No livro, as mesmas fotos da exposição aparecem, não reproduzidas tal e qual se espera num catálogo, mas "em situação". Isto é, na singularidade de uma aparição irrepetível. Cada vez que eu vejo uma imagem, essa visão é única e irrepetível, assim como a visão de uma coisa concreta. Mesmo fixada para sempre no papel, a imagem é sempre diferente a cada vez que eu a vejo, e significa coisas diferentes, dependendo da situação em que está sendo vista.

Esse é o tema do livro O ZEN E A ARTE GLORIOSA DA FOTOGRAFIA, que contém as mesmas imagens já vistas no livro ANTROPOPOLOGIA DA FACE GLORIOSA, porém situadas em momentos específicos, ora dependuradas na parede, ora ainda mergulhadas nas banheiras de fixador, ora rasgadas em tiras, ora agrupadas em formações compactas de imagens, ora olhadas de cabeça para baixo, ora num museu, ora na minha casa, ora sob luz do sol direta, ora iluminadas por um tênue foco de luz, ora flutuando no espaço vazio, ora largadas sobre o cimento de um quintal. Cada fotografia da coleção foi re-fotografada por mim, como uma espécie de outra-volta-no-parafuso, na tentativa de criar um novo mundo de informações a partir de um material que já tinha o seu próprio mundo formado e estabelecido.

Foi um desafio, e uma obcessão, pegar algo que já era alguma coisa e transformá-la numa coisa quase oposta, que ainda não era nada, às vezes, apenas mundando o ângulo com que eu olhava uma foto da coleção, olhando-a, por exemplo, bem de lado, e pensando sobre o que esse efeito de perspectiva radical podia produzir sobre a imagem estável à minha frente que eu ainda não conhecia. ZEN.

O ZEN DA VISÃO CONTRA A AURA DE WALTER BENJAMIN

Talvez neste livro eu esteja tentando relativizar um pouco, e ironicamente, uma idéia de Walter Benjamin: a de que a fotografia seria um puro emblema da reprodutibilidade técnica. No livro O ZEN, cada re-fotografia de uma fotografia em situação cria uma nova fotografia. Cada imagem da Antropologia pode ser vista de mil maneiras, os reflexos do vidro, o amassado do papel, os estágios da feitura em laboratório, os ângulos esquisitos. A cada aparição, ela é diferente. (E isso vale também para as diferentes instalações onde se dá a exibição das fotos: Bienal, CCBB.) A cada aparição, ela pode significar algo diferente.

Daí o Zen, essa consicência inconsciente da singularidade do instante. O Zen, uma rearrumação da consciência do presente momento, nada mais. Como um outro por exemplo, veja os sons contidos no silêncio de Cage (4.33 min), sons de uma peça totalmente muda, sem notas e sem instrumentos, que você só pode ouvir se se colocar no mundo naquele instante de uma forma radicalmente renovada, isto é, quando você consegue reconsiderar pela raiz os que são os dados imediatos da consciência. Não é complicado, numa palavra, basta ouvir.

O que eu proponho neste livro, com a idéia do Zen da Fotografia, é um reforço na finura da percepção. A re-finura. Um re-finar. Um aumentar a resolução de percepção, para incluir nela os acidentes normalmente descartados. Ao se olhar uma foto, não de frente, como em geral se costuma olhar qualquer foto, mas de lado, com a cabeça num ângulo bem agudo ou quase paralelo em relação ao plano da imagem, de tal forma que a foto é vista com reflexos imprevisíveis, com partes que ficam maiores do que as coutras, etc, incluir na consciência da percepção da foto a distorção produzida pelo fato dela estar sendo vista de lado, e viver a

No livro, ângulos rasantes de câmera, ao re-fotografar algumas das fotos da Antropologia, chegam mesmo a "re-fisionomizar" certas faces gloriosas, alterando o estado de espírito da imagem original... Ao se produzir esse deslocamento perceptivo, é o próprio sujeito que se realoca, e o flash, em vez de expodir da câmera para fora, explode no interior da mente, abalando por uma fração de segundos a consciência.

A MAIORIA DOS TEXTOS NO
LIVRO TEVE ORIGEM ORAL

Para encerrar, uma palavra sobre o texto, que é composto basicamente de matéria oral, o que se poderia esperar de um livro que carrega o Zen no título. Mas essa oralidade é contemporânea, e não procura mimar as transcrições das falas magisteriais tradicionais. É a entrevista (publicada ou inédita), trechos de faxes e de e-mails, anotações para depoimentos, e tudo real, com interlocutores reais, nada simulado para parecer moderno. Em suma, coisas que ficam bem próximas do corpo do sujeito.

ASPECTOS DA CRIAÇÃO GRÁFICA

O livro, no entanto, é menos fragmentário do que pode sugerir uma visão rápida na diagramação, onde se alternam diversos corpos de letra. Na verdade, o que fiz foi produzir uma espécie de pré-leitura, sublinhando, destacando, pondo em evidência certas idéias bem circunscritas contidas no texto. Por exemplo, quando uma idéia interessante pode ser resumida numa frase ou poucas frases, ela vem ampliada como uma imagem. O leitor folheia o livro e se depara com idéias-imagens tanto quanto com imagens-idéias. Há um nível de consumo imediato e instantâneo que desejei imprimir no livro. a palavra chamar tanta atenção quanto as imagens. E isso por amor à palavra em pleno livro de fotografias. A leitura propriamente dita se desenrola linearmente, na sequência dos parágrafos, independentemente do tamanho que assumem as letras. Por vezes, alguns mini-capítulos se enclavam nas margens, e se referem diretamente à imagem mais próxima.

UM LIVRO COM FOTOGRAFIAS, UM LIVRO SOBRE OUTRO LIVRO

Eu não diria que é um livro de fotografia, nem um livro sobre fotografia, embora não deixe de ser isso também, mas é, antes demais nada, um livro com fotografias. Outra originalidade, é o fato de ser o companheiro de um livro que veio antes e reinterpretá-lo radicalmente. Acho que esse uso da forma livro é bem especial.

ARTHUR OMAR
Rio de Janeiro 2/1/99

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