Todas as Cores do Homem
Gérard A. Goodrow

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Desde o final da década de 60, a arte de Antônio Dias percorre um caminho sinuoso indo de um Minimalismo de base conceitual até um maximalismo de inspiração espiritual e carregado de simbolismo.

 

36Da análise metódica da gramática e da sintaxe da arte em séries como "The Illustration of Art"(1971 - 1975), à rejeição da frieza do conceitualismo em grupos de obras como "Corpo"(1990) e "Bend your eyes" (1990 - 1992). Da exatidão racional e geométrica ao "redescobrimento da sensualidade do material". Da objetividade da ciência à subjetividade da natureza. Da mente à alma. Da ordem ao caos.

 


63Aqui, a palavra caos não é entendida em seu sentido comum de anarquia e autodestruição, mas nos termos da nova geometria baseada em fractais, a qual, nos últimos trinta anos, vem influenciando todos os campos de atividade científica e criativa. Um traço fundamental desta nova ciência é o fato de que todos os processos naturais são vistos em sua inteireza, isto é, como unidades compostas nas quais até os menores aspectos, mesmo quando aparentemente irrelevantes, têm papel de igual proeminência.

 

08A estrutura hierárquica, deste modo, é vista como uma concepção errônea, uma vez que cada parte do todo é significativo. O resultado de maiores conseqüências deste novo paradigma é a crescente ênfase colocada sobre a coincidência em vez de sobre a possibilidade de previsão, na generalidade e, não, na especialização. Isto tem efeitos claros, não apenas no futuro desenvolvimento da Matemática e da ciência, mas, também, no mundo real, especialmente na multi-cultural era pós-moderna.

 


34Nos trabalhos mais recentes de Antônio Dias, a confrontação do artista com a nova Teoria do Caos ocupa uma posição central. Como em sua fase inicial, a forma sugere o conteúdo e vice-versa. Nestas pequenas composições, freqüentemente bem-humoradas, Dias sobrepõe, nas telas, vários materiais naturais e sintéticos como se fossem muitas camadas de pele.

Como em "Digital genital", elas são geralmente compostas de duas partes, formas ovais que lembram pequenos espelhos. De fato, embora não sejam idênticas, as duas partes parecem refletir-se. As diferenças entre elas são tão fascinantes quanto sua similaridade. Suas superfícies são cobertas por acrílico, folhas de ouro e cobre e óxidos metálicos, criando estranhos padrões que remetem à action painting, paisagens planetárias ou ao pêlo manchado que serve de camuflagem aos animais.

 



64Tanto suas estruturas irregulares da superfície quanto sua duplicidade formal têm referência nos fractais, que representam uma ruptura radical na tradição euclidiana de descrição do mundo em termos de linearidade progressiva e estruturas geométricas idealizadas. Ao contrário, eles configuram um processo não linear de repetição eterna, no qual o que é repetido nunca é exatamente o mesmo.

 

 

 

 

51Tais fractais conduzem a padrões aleatórios e de aparência desordenada, mas é nesta desordem do fractal que novas formas têm origem. Onde a ordem se rompe, nova informação emerge. Na aplicação da idéia do fractal em sua própria arte, Dias transforma a pureza de suas telas iniciais em um complexo e heterogêneo campo de energia.

 

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A redução é trocada pela suplementação. A clareza dá lugar à ambigüidade, pois apenas através do questionamento é possível chegar-se a uma resposta.


40 Dias aplica estas conseqüências libertadoras da Teoria do Caos não apenas em sua arte, mas também à vida diária na aldeia global. Em obras como "Ausländer"e "All the colors of man", ele explora o conceito de etnia e identidade nacional. Os vários materiais usados, incluindo folhas de ouro e cobre, malaquita e acrílico, representam as muitas raças do homem e estágios de civilização: o ouro e o cobre são elementos puros e naturais; a malaquita, um complexo composto natural e, o acrílico, um intrincado composto sintético.

 

 

 

 

49Cada substância tem suas propriedades específicas e associações metafóricas - do sólido ao líquido, do alquímico ao científico, do "primitivo" ao "civilizado". Cada material e cada cor complementam e definem os outros no mesmo grau, de modo que a composição como um todo seria destruída se apenas um deles faltasse.

 

 



21Explorações como estas podem ser vistas na obra de Dias já em 1968, quando artistas conceituais e minimalistas começaram a demolir o papel da arte na sociedade e questões de raça e gênero tornaram-se centrais em todas as partes do mundo. Foi em 1968 que Dias completou "Anywhere is my land", uma caótica paisagem estelar negra, coberta por uma fina rede branca. Cidadão do mundo, Dias está igualmente em casa na Paraíba, em Milão, no Nepal, em Berlim e em Colônia. Em qualquer lugar, a qualquer hora, ele é tanto estrangeiro como nativo.

 



57Como um nômade cultural, Dias colheu informações e influências em cada uma de suas viagens. Nenhuma experiência é mais importante do que a próxima. Nenhuma influência é insubstituível. As superfícies de grafite de suas telas são, ao mesmo tempo, o quadrado negro de Rodchenko, as chapas de aço de uma peça de chão de Carl Andre e um buraco negro. Sobrepostos a estas, estão campos de folhas de ouro e cobre, inspirados nas chapas de cobre de Joseph Beuys, as superfícies douradas de ícones religiosos, baterias eletrônicas e quadriláteros tântricos. De modo análogo aos materiais em camadas da superfície da pintura, os níveis de interpretação interpenetram-se e alimentam-se uns dos outros, criando uma complexa matriz de significado que não pode ser reduzida a uma única afirmação.



56Na obra de Dias, todas as cores do homem colocam-se lado a lado, complementando-se mutuamente, trazendo à tona a luminosidade uma das outras, enfatizando suas diferenças e espelhando suas semelhanças. Para Antônio Dias, o caos é uma fonte de criatividade, uma força de manutenção da vida. Ele não mais fornece respostas, mas faz perguntas, perguntas que nos perturbam e inspiram. Pois é o mistério da arte, a incerteza e a ambigüidade de sua mensagem, que a mantém viva.